Há algum tempo atrás, aluguei o DVD de uma obra de 1984, “Amanhecer Violento” (“Red Dawn”), um filme de guerra de John Milius (co-argumentista de “Apocalypse Now” e realizador de “Conan, o Bárbaro”) protagonizado por Patrick Swayze e Charlie Sheen. Porquê? Bem, a premissa do filme gerou em mim expectativas que, de facto, não foram goradas: trata-se de uma autêntica pérola do mau cinema. Um filme de propaganda de extrema-direita como deve ser. Sobretudo, uma longa-metragem tão séria, inepta, patriótica e ridícula que fornece excelente entretenimento.
Tudo começa quando, em resultado da crise de produção no Leste europeu e da chegada ao poder, na RFA, dos sacanas dos Verdes (que exigem a retirada dos mísseis americanos do território alemão), uma pequena cidade do Colorado é invadida por pára-quedistas cubanos e soviéticos, que imediatamente espalham o terror, promovendo sucessivas execuções de civis e criando um campo de “reeducação” dos seus opositores. Tudo estaria perdido, se um grupo de rapazes (ao qual se juntam mais tarde duas raparigas) não se tivesse refugiado nas montanhas e aí formado (com as armas de fogo que se encontravam à venda na cidade) uma guerrilha que provoca sérios danos nas perversas tropas marxistas-leninistas. Assim, enquanto, abandonados pelos seus ingratos aliados europeus, os EUA enfrentam a invasão do seu território (havendo o compromisso mútuo de não usar armas nucleares), esses heróicos jovens lutam pela preservação da democracia e do modo de vida americano.
Independentemente de esta situação ser ou não encarada como remotamente possível em 1984, poder-se-ia afirmar que se trata de uma obra recheada de cenas emocionantes, bem realizada e interpretada. É pena que isso não seja verdade. A falta de meios é notória (a artificialidade, provocando a sensação “isto-é-um-filme”, é permanente), o trabalho de Milius (também argumentista) é ineficaz, inspirando o tédio (até as cenas de combate são aborrecidas) e os diálogos, debitados pelos (maus) actores sem qualquer convicção, são 100% cliché. O pior é que a história se torna cada vez mais dramática (à medida que os guerrilheiros vão sendo despachados), ou seja, penosamente melosa e exagerada. Mesmo sem ter em conta o seu carácter político, “Amanhecer Violento” é péssimo.
Milius (membro destacado da NRA) deixa bem claro as linhas do seu pensamento: comunismo = Mal absoluto, direito à posse de armas = garantia da salvação nacional, etc. É óbvio que a ocupação comuna do Colorado é decalcada do domínio nazi sobre a França, os guerreiros inimigos são o mais estereotipados possível (incluindo um militar cubano que, saudoso do calor e da sua mulher que está na ilha, se arrepende dos seus crimes) e o valor e a coragem dos jovens guerrilheiros (inclusive quando executam um traidor) são comoventes.
Por tudo isto, garanto-vos: “Amanhecer Violento” (porque não “Vermelho”?) é uma verdadeira relíquia dos anos 80. Trata-se de um documento histórico útil para estudar as consequências da tensão entre as superpotências: havia pessoas paranóicas ao ponto de irem ver e levarem a sério uma comédia involuntária como esta.
domingo, julho 13, 2003
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