De acordo com o “Público” (talvez devesse diversificar as minhas fontes...), que por sua vez o soube através da Lusa, o ICAM (Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia) elaborou e divulgou o catálogo “Cinema – Portugal 2003”, que inclui dados relativos aos resultados de bilheteira, apresentados quanto ao número de espectadores (um tipo de informação mais concreto que a receita em euros: como é interessante poder dizer que “um em cada 324,7 portugueses viu o filme x”), das longas-metragens portuguesas estreadas no ano passado. Em primeiro lugar, uma boa notícia: pela primeira vez em cinco anos, o número de pessoas que viu cinema lusitano cresceu. Dos 105 459 espectadores de 2001 (ano em que “Vou para Casa”, de Manoel de Oliveira, foi a fita nacional de maior sucesso, o que dá a entender o quão fracos foram esses malditos doze meses) passou-se a 244 594. O início de uma nova reconciliação do público com aquilo que é feito em Portugal? Tendo em conta aquilo que já se passou este ano, não sei.
Continuando com os resultados de 2002, parece que essa subida do número de tipos que arriscaram ver filmes sem legendas se deve sobretudo a três obras: “A Selva” (75 562), “O Delfim” (37 700) e “Esquece Tudo o que te Disse” (25 650). Porque tiveram sucesso (dentro do nível das fitas portuguesas) esses títulos? Pode indicar-se, por exemplo, o facto de serem bons filmes (embora sem nada de revolucionário), contarem com actores famosos (Diogo Morgado e Maité Proença em “A Selva”, Alexandra Lencastre e Rogério Samora em “O Delfim” e António Capelo e Custódia Gallego em “Esquece Tudo...”), receberem a atenção da comunicação social e críticas relativamente positivas (sobretudo a obra de Fernando Lopes), conhecerem uma distribuição alargada (com destaque para o primeiro, já que os outros dois limitaram-se basicamente às salas do grupo Medeia), apoiarem-se em campanhas publicitárias significativas, serem rodeados à partida de interesse pelas adaptações de obras célebres da literatura nacional que representam ou, no caso do filme de António Ferreira, em resultado do prestígio que o realizador adquiriu com o filme anterior (“Respirar Debaixo d’Água”) e beneficiarem do apoio de um canal televisivo (neste caso, a RTP, uma vez que a SIC, por falta de dinheiro ou qualquer outro motivo, deixou o financiamento de novas obras para a concorrência).
Tirando essas “sensações” (longe de êxitos da década de 90 como “Tentação” ou “Zona J”), o panorama é desanimador. Manoel de Oliveira não foi bafejado pela fortuna: as duas obras da sua autoria que estrearam em 2002 (“Porto da Minha Infância” e “O Princípio da Incerteza”) levaram à venda de, respectivamente, 6178 e 6150 bilhetes. “Um Filme Falado”, ainda por estrear em Portugal, constitui a sua última oportunidade: se ocorrer outro “flop”, Oliveira terá decerto grandes dificuldades em arranjar apoios para levar a cabo novos projectos.
quarta-feira, setembro 24, 2003
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