Em meados da década passada surgiu, vindo do nada, um mirandês com vontade de fazer cinema sem sair de Portugal. Como se isto não fosse suficientemente anormal, o raio do homem não sonhava ver a sua obra exibida no King Triplex nem fazia questão dos críticos nacionais e estrangeiros o considerarem um génio. Não, ele pretendia fazer longas-metragens que os seus compatriotas realmente vissem. Filmes recheados de peripécias nos quais o realizador e o argumentista não fossem necessariamente a mesma pessoa, falados em português, fortemente publicitados na televisão e com dezenas de milhares de espectadores. Muita gente terá duvidado da sua sanidade mental.
No entanto, com o caminho aberto por Joaquim Leitão através do sucesso dos seus trabalhos com Joaquim de Almeida (no final de 1999 Leitão sofreu a desilusão de “Inferno” e só agora faz tenção de se lançar num novo projecto), este chanfrado chamado Leonel Vieira passou à acção, realizando “A Sombra dos Abutres”, uma história passada nos tempos negros do Estado Novo que talvez nunca tivesse chegado às salas se a seguir Vieira não mergulhasse no presente e revelasse ao país imagens únicas da Zona J de Chelas. E então soube-se que o mirandês podia realmente concretizar o seu plano insano. Vieira tornou-se o cineasta luso mais “mainstream” e foi aceite no exclusivíssimo clube dos realizadores não-americanos com a honra de ver os seus filmes projectados nas salas da Warner-Lusomundo. Com que resultados?
Bem, se exceptuarmos os seus trabalhos para televisão, até agora Vieira obteve dois êxitos, “Zona J” e “A Selva” (embora este não tenha sido a sensação que os seus responsáveis esperavam) e dois relativos fracassos, “A Sombra dos Abutres” e “A Bomba”. Recordo agora as longas-metragens rodadas por esta autêntica aberração do nosso cinema:
“A Sombra dos Abutres”: Não me recordo muito bem da história, mas sei que não gostei por aí além. Vieira provou aqui que, por incrível que pareça, não basta ter Vítor Norte e Diogo Infante no mesmo elenco para fazer um bom filme. Uma das primeiras obras portuguesas a ser lançada em DVD.
Do que me lembro: Um rádio anuncia a morte de Marilyn Monroe.
“Zona J”: Exemplar de “realismo urbano” com diálogos recheados de palavrões (sem parecerem excessivos) e um “casting” geralmente eficaz. Uma história interessante que acaba por se tornar algo simplista e limitada. Até agora, a melhor obra de Vieira.
Do que me lembro: Numa cena “romântica”, José Pedro Gomes pergunta a Ana Bustorff: “Tens mais pistáchios?”
“Mustang”: O quarto dos SICFilmes e o primeiro a poder ser agrupado na categoria “bosta”. Uma mistura de drama e “thriller” sem nada de criativo ou convincente.
Do que me lembro: No Verão de 1999, um grupo de jovens tenta decidir que filme irão ver: “O Mundo a seus Pés”? “Matrix”?
“A Bomba”: Não vi esta comédia, mas recebeu críticas péssimas e não me parece que tenha atraído multidões às salas. A principal acusação que lhe fizeram foi a de, ao tentar parodiar os “reality-shows”, não passar do nível de “Os Malucos do Riso”.
Do que me lembro: No “trailer”, Artur Albarran apresenta o telejornal.
“A Selva”: Grande aposta de Vieira e do produtor Paulo Trancoso, surpreende de início pela montagem frenética e pela beleza das paisagens amazónicas, mas as relações que se vão estabelecendo entre as personagens e os acontecimentos que daí decorrem parecem forçados. Contém Diogo Morgado num dos seus piores papéis (o que não quer dizer que seja um mau actor).
Do que me lembro: António Melo (que já aparecera em “A Bomba”) é referenciado nos créditos finais como “Tó Melo”. Será o actor-fetiche de Vieira?
O balanço acaba por ser mediano, entre as intenções de Vieira (e as expectativas que gerou com a competência demonstrada nos primeiros dois filmes) e o valor financeiro e cinematográfico das suas obras. Parece-me que “o” filme deste realizador ainda está para vir. Basta juntar a sua perícia na descrição de ambientes (os prédios suburbanos de “Zona J” e “Mustang”, o rio Amazonas de “A Selva”) e o seu gosto pela acção a uma boa história e a actores bem dirigidos para o mirandês receber os aplausos entusiásticos do público lusitano. Oxalá os seus próximos projectos acertem no alvo.
terça-feira, setembro 09, 2003
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