terça-feira, setembro 09, 2003

As aventuras de Leonel

Em meados da década passada surgiu, vindo do nada, um mirandês com vontade de fazer cinema sem sair de Portugal. Como se isto não fosse suficientemente anormal, o raio do homem não sonhava ver a sua obra exibida no King Triplex nem fazia questão dos críticos nacionais e estrangeiros o considerarem um génio. Não, ele pretendia fazer longas-metragens que os seus compatriotas realmente vissem. Filmes recheados de peripécias nos quais o realizador e o argumentista não fossem necessariamente a mesma pessoa, falados em português, fortemente publicitados na televisão e com dezenas de milhares de espectadores. Muita gente terá duvidado da sua sanidade mental.
No entanto, com o caminho aberto por Joaquim Leitão através do sucesso dos seus trabalhos com Joaquim de Almeida (no final de 1999 Leitão sofreu a desilusão de “Inferno” e só agora faz tenção de se lançar num novo projecto), este chanfrado chamado Leonel Vieira passou à acção, realizando “A Sombra dos Abutres”, uma história passada nos tempos negros do Estado Novo que talvez nunca tivesse chegado às salas se a seguir Vieira não mergulhasse no presente e revelasse ao país imagens únicas da Zona J de Chelas. E então soube-se que o mirandês podia realmente concretizar o seu plano insano. Vieira tornou-se o cineasta luso mais “mainstream” e foi aceite no exclusivíssimo clube dos realizadores não-americanos com a honra de ver os seus filmes projectados nas salas da Warner-Lusomundo. Com que resultados?
Bem, se exceptuarmos os seus trabalhos para televisão, até agora Vieira obteve dois êxitos, “Zona J” e “A Selva” (embora este não tenha sido a sensação que os seus responsáveis esperavam) e dois relativos fracassos, “A Sombra dos Abutres” e “A Bomba”. Recordo agora as longas-metragens rodadas por esta autêntica aberração do nosso cinema:

“A Sombra dos Abutres”: Não me recordo muito bem da história, mas sei que não gostei por aí além. Vieira provou aqui que, por incrível que pareça, não basta ter Vítor Norte e Diogo Infante no mesmo elenco para fazer um bom filme. Uma das primeiras obras portuguesas a ser lançada em DVD.
Do que me lembro: Um rádio anuncia a morte de Marilyn Monroe.

“Zona J”: Exemplar de “realismo urbano” com diálogos recheados de palavrões (sem parecerem excessivos) e um “casting” geralmente eficaz. Uma história interessante que acaba por se tornar algo simplista e limitada. Até agora, a melhor obra de Vieira.
Do que me lembro: Numa cena “romântica”, José Pedro Gomes pergunta a Ana Bustorff: “Tens mais pistáchios?”

“Mustang”: O quarto dos SICFilmes e o primeiro a poder ser agrupado na categoria “bosta”. Uma mistura de drama e “thriller” sem nada de criativo ou convincente.
Do que me lembro: No Verão de 1999, um grupo de jovens tenta decidir que filme irão ver: “O Mundo a seus Pés”? “Matrix”?

“A Bomba”: Não vi esta comédia, mas recebeu críticas péssimas e não me parece que tenha atraído multidões às salas. A principal acusação que lhe fizeram foi a de, ao tentar parodiar os “reality-shows”, não passar do nível de “Os Malucos do Riso”.
Do que me lembro: No “trailer”, Artur Albarran apresenta o telejornal.

“A Selva”: Grande aposta de Vieira e do produtor Paulo Trancoso, surpreende de início pela montagem frenética e pela beleza das paisagens amazónicas, mas as relações que se vão estabelecendo entre as personagens e os acontecimentos que daí decorrem parecem forçados. Contém Diogo Morgado num dos seus piores papéis (o que não quer dizer que seja um mau actor).
Do que me lembro: António Melo (que já aparecera em “A Bomba”) é referenciado nos créditos finais como “Tó Melo”. Será o actor-fetiche de Vieira?

O balanço acaba por ser mediano, entre as intenções de Vieira (e as expectativas que gerou com a competência demonstrada nos primeiros dois filmes) e o valor financeiro e cinematográfico das suas obras. Parece-me que “o” filme deste realizador ainda está para vir. Basta juntar a sua perícia na descrição de ambientes (os prédios suburbanos de “Zona J” e “Mustang”, o rio Amazonas de “A Selva”) e o seu gosto pela acção a uma boa história e a actores bem dirigidos para o mirandês receber os aplausos entusiásticos do público lusitano. Oxalá os seus próximos projectos acertem no alvo.

Sem comentários: