sábado, setembro 20, 2003

Obras-primas

Uma coisa que encontro nos clubes de vídeo e acho dispensável e algo ridícula (além de imensos filmes com Sylvester Stallone e sequelas como “Inspector Gadget 2”) são as citações de críticas (positivas) presentes nos cartazes ou nas próprias caixas de alguns vídeos ou DVDs. Esses elogios proferidos por críticos americanos que garantem a qualidade assombrosa das longas-metragens e nunca lhes atribuem menos de quatro estrelas fazem-me desconfiar. Parece que, contrariando o objectivo com que foram transcritos, esses louvores só comprovam a falta de valor da obra.
Para começar, são raros na publicidade de filmes muito famosos ou premiados, porque esses não precisam disso, valem por si. A citação de um artigo num jornal ou revista a exprimir adoração pela obra genial que agora chega ao circuito de “cinema em casa” parece estar na caixa para diminuir a má impressão deixada no consumidor pela leitura da sinopse existente na contracapa (um truque básico do comércio: “Não, não, vai ver que não é tão mau como lhe parece”).
A escolha quase generalizada de textos publicados nos States, da autoria de críticos obscuros e dados a conhecer em órgãos da imprensa que nada dizem ao espectador português, é outra desvantagem (curiosamente, os casos que conheço nos quais se recorreu a elogios lusitanos, como na publicidade de “Matrix” ou de “A Residência Espanhola”, correspondem a bons filmes), até porque anula o prestígio que a opinião poderia ter. Sem ter acesso aos textos dos quais foram retiradas as (breves) frases laudatórias, é impossível não imaginar que elas podem ter sido retiradas do contexto. Lembro-me de um “poster” de “O Homem Transparente” (filme de que não gostei) no qual uma citação louvava a qualidade dos efeitos especiais. Está bem, mas e os outros aspectos? O crítico pode ter escrito logo a seguir: “Tudo o resto é horrível”.
Na maioria dos casos, tratam-se de elogios tão curtos e fortes (“Magnífico!”, “Cinco estrelas!”) que soam a falso. Nem todos os filmes podem ser obras-primas, mas também é preciso reconhecer que pouco efeito publicitário teriam opiniões como “Exceptuando a primeira meia hora, o filme é bom”, “Os actores são óptimos, mas a banda sonora é insuportável” ou “Um dos 57 melhores filmes do ano”.
E é claro que a crítica elogiosa do “camone” que escreve no tal jornal pode ser uma excepção em mil textos carregados de insultos. No caso de “Encontro em Manhattan” (classificado com cinco estrelas pela citação), deve ser essa a situação.
Ao examinarem a caixa de um filme, concentrem a vossa atenção nas “taglines” ou no resumo da história e esqueçam os “certificados de qualidade” que nos impingem.

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