Miguel Somsen, membro do painel de críticos da “Premiere”, não parece ser um grande fã da série “American Pie” (o ““franchise” pasteleiro”, como lhe chama), como se pode ver no texto que publica no número de Outubro da revista. Também não gosta por aí além dos que se deliciam com a tarte, espantando-se com os mais de 100 mil espectadores portugueses que o terceiro filme da saga teve em quatro dias de exibição. Numa profunda análise sociológica, pergunta-se quantos desses lusitanos foram ao cinema “depois das compras do hipermercado e antes de ver o Benfica na televisão” (e porque não o Sporting?). Mais à frente, atreve-se a sugerir títulos para eventuais futuros capítulos da série: ““American Pie: o Primeiro Bebé” (2005), “American Pie: o Nosso Bebé Já é Uma Stripper” (2013) e “American Pie: a Ressurreição (2022)””. Divertido.
No “Diário de Notícias” de 3 de Outubro último, Eurico de Barros afirma-se como um detractor de “Quaresma”. Longe do estilo “sério” e cuidado (mesmo quando censura algo) do colega João Lopes, Barros declara que, ao contrário do que o filme quer transmitir, “Nenhum ser humano normal conseguiria aturar” a personagem de Beatriz Batarda “mais do que cinco minutos sem lhe pregar um par de galhetas ou dar uns açoites”. Curto e grosso.
Isto faz pensar em qual será o tom mais adequado ao desanque de uma obra considerada má. Deverão procurar-se argumentos sólidos e elaborados, com a preocupação de não ofender ninguém, que dêem a entender, delicadamente, a nossa antipatia pelo objecto, ou simplesmente rir à gargalhada de quem ousa fazer um disparate assim (ou se estivermos num “site” menos respeitoso, uma m... assim) e ainda mais daqueles que pagam para o verem, recorrendo a uma linguagem bem directa e a muito humor insolente?
Eu sei que neste blogue costumamos escolher a segunda opção (até porque não somos lidos por dezenas de milhares de pessoas... por enquanto), que, de facto, é mais divertida (sem um pouco de ironia e irreverência, que piada ou significado teria a crítica?) e faz bem ao ego, mas dentro de certos limites. Desatar aos insultos à equipa técnica ou ao público sem explicar porquê não prova que nós estamos certos e eles errados. Nem sempre é possível colocarmo-nos num patamar de superioridade. Existem outras opiniões à face da terra... O melhor é redigir textos com opiniões bem fundamentadas, por um lado, e ironia q.b., pelo outro, numa linguagem cuidada mas não ilegível ou demasiado subtil.
O que acham? Que tipo de críticas preferem ler e que tipo de discurso pensam que aqueles que emitem opiniões sobre uma coisa qualquer (desde uma escultura aos pastéis do café da esquina) deveriam privilegiar?
terça-feira, outubro 07, 2003
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