quinta-feira, outubro 09, 2003

Allen, moribundo?

Rui Henriques Coimbra (um colunista do “Expresso” que vive em Los Angeles e costuma emitir algumas opiniões sobre filmes já estreados nos EUA mas ainda longe do nosso país) não é partidário da subtileza e contenção no desanque das obras que não aprecia. Tendo assistido a uma projecção de “Anything Else”, a nova comédia de Woody Allen, Coimbra descreve assim a sua reacção: “Vomitei violentamente”. Segundo ele, a longa-metragem “abaixo de cão” não tem piada nem originalidade e aborrece o espectador. O articulista pede a Woody que não o faça lembrar-se da expressão “os cavalos também se abatem”. Isto fez-me lembrar a declaração de espanto de Rui Zink (proferida no debate ocorrido na apresentação do livro “Quanta Bondade!”, de Quino): “O Woody Allen ainda não morreu?!”.
Allen é o cineasta americano favorito daqueles que não gostam do cinema americano. As suas obras já não atraem multidões às salas, sobretudo nos States (o facto de “Hollywood Ending” ter estreado no mesmo fim-de-semana que o Episódio II de “Star Wars” prova que já não há grandes esperanças por parte do realizador de conquistar o público do seu país, situação com a qual brinca nesse mesmo filme), mas recebem a atenção de grupos de fãs sempre prontos para assistir a uma nova produção do mestre nova-iorquino.
Confesso amargamente que conheço mal a vasta filmografia de Allen. As únicas fases da sua carreira a que dediquei seriamente a minha atenção foram a inicial, com uma série de comédias completamente doidas e hilariantes (“O Inimigo Público”, “Bananas”, “O ABC do Amor”, “O Herói do Ano 2000”, etc.), e os últimos anos (o primeiro Allen que vi num cinema foi “Através da Noite”). Seja como for, as notícias da sua morte parecem-me algo exageradas. “A Maldição do Escorpião de Jade” (2001) demonstra não só boas ideias como a capacidade de as organizar numa história coerente e divertida. E, é claro, o cabelo de Allen foi caindo mas a graça das suas interpretações manteve-se. “Vigaristas de Bairro”(2000) e “Hollywood Ending” (2002) são marcados, no entanto, por um aproveitamento algo deficiente das premissas iniciais. Depois de um começo muito bom, os argumentos arrastam-se e os filmes tornam-se pouco interessantes para quem não se dê bem com fitas cheias de diálogos. A inteligência dos conteúdos e algumas piadas certeiras, além da qualidade dos elencos, asseguram algum respeito por estas comédias, mas a verdade é que chega-se a ter saudades do ritmo frenético das primeiras aventuras de Allen na realização.
Se o actor-músico-realizador-argumentista já conheceu dias melhores, não deixa de ser verdade que ele nunca insulta o intelecto de ninguém e possui ainda uma habilidade para fazer rir que muitos cineastas cómicos de Hollywood estão bastante longe de alcançar. Portanto, que Allen continue bem vivo, para nosso prazer (embora esse prazer seja algo tardio em relação ao resto da Europa, uma vez que ultimamente os seus filmes chegam a Portugal muito depois de verem a luz do dia). O “jazz” e as letras brancas sobre fundo negro não podem parar.

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