segunda-feira, outubro 06, 2003

Amor (e humor) no meio da guerra

José Carlos de Oliveira filmou em Moçambique a sua nova longa-metragem, “Preto e Branco”, da qual é também produtor e co-argumentista (escreveu o guião a partir da ideia e do texto originais do escritor Mário de Carvalho, que já tinha visto o seu conto “Era uma Vez um Alferes” transformado, em 1987, num pequeno telefilme da RTP). Trata-se de uma obra cuja acção decorre em 1972, durante a guerra colonial, nunca abandonando o espaço da savana onde se trava o conflito. Portanto, está cheio de tiros, sangue, choros convulsivos de soldados, investidas da Frelimo contra os “tugas”, colonos brutais e racistas e cheiro de “napalm” pela manhã, não é? Nada disso, trata-se de uma comédia. Exactamente, um filme leve e humorístico, embora contendo, obviamente, alguns elementos dramáticos.
Em primeiro lugar, centra-se nas figuras de um sargento branco e moçambicano de gema, que nunca foi à Metrópole, e do seu prisioneiro negro, um antigo estudante de Engenharia em Lisboa que se juntou, de forma idealista, à guerrilha de um país que não conhece. Depois, essa dualidade e originalidade levam a que não se formulem juízos de valor sobre o conflito (excepto, talvez, a crença na possibilidade de o ultrapassar através da amizade, como fazem os protagonistas). As mortes que se verificam abruptamente no início de “Preto e Branco” não recebem grandes comentários e a história avança, ou seja, o filme não se leva muito a sério (o tom irónico predomina, por exemplo, nas cenas passadas no quartel).
O humor é obtido naturalmente, não tanto através de “gags” mas graças aos óptimos diálogos. A narrativa flui, na maior parte do tempo, sem obstáculos de relevo, a realização e a montagem são eficazes (embora sem grandes inovações), a qualidade do som e da imagem é digna de nota e os três actores principais estão à altura da tarefa.
Três actores? Sim, ainda não falei da enfermeira alentejana (interpretada por Cristina Homem de Mello, também produtora) da Força Aérea que é forçada a aterrar de pára-quedas no cenário da acção e, infelizmente para nós, despertará o amor no sargento. A segunda parte do filme, marcada pela sua presença, é inferior às primeiras sequências e contém algumas cenas dispensáveis (e uma na qual é visível um microfone). O romance nunca é convincente e não possui grande significado.
Assim, não temos aqui um grande filme ou uma obra que analise profundamente a guerra que marcou a “geração de 60”, mas um objecto agradável e com pés e cabeça, suficientemente comercial (é distribuído pela Lusomundo e um texto promocional existente no verso do “poster” oferecido ao público encontra-se em português e inglês) para atrair uma dose razoável de espectadores. É verdade que não é só o cinema nacional que precisa de se abrir aos consumidores. Estes devem adquirir uma maior receptividade às propostas lusitanas.
A melhor cena: O sargento e o prisioneiro “apresentam-se”, de noite.
A pior cena: Adelaide penteia-se.

Nota: 6/10.

P.S. “Ah, os Imortais, os Imortais...”. Rui Unas/Vítor Pratas diverte com a sua narração no “teaser” de “Os Imortais”.

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