Se não houver um ruído excessivo de pipocas em fundo ou alguém entre os espectadores que decide fazer em voz alta o seu próprio comentário áudio do filme, uma sala de cinema pode ser um espaço propício à calma, ao silêncio, à introspecção (e ao amor...). Mas isso depende do tipo de obra a que se assiste. No caso das comédias, e sobretudo daquelas que esperam do espectador não um sorrisinho ou uma gargalhada rápida, mas sim um ataque incontrolável de hilaridade (apostando por isso num humor o mais absurdo e grotesco possível), o público transforma-se por vezes num coro de manifestações ensurdecedoras.
Na impossibilidade de decidir qual foi a mais flagrante situação deste tipo que vi num cinema, registo aqui as duas cenas que mais facilmente ocupariam o primeiro lugar da tabela de "histeria colectiva". Curiosamente, ambas envolvem esperma. Em "Doidos por Mary" (1998), entre outras imagens que provocaram explosões de riso, encontra-se a cena na qual, equivocada, Cameron Diaz coloca o referido líquido no seu cabelo, com consequências rapidamente visíveis. Vi a plateia do Monumental não conseguir controlar-se. O mesmo, ou ainda pior, aconteceu dois anos depois, graças a "Um Susto de Filme", com exemplos de comedia nojenta que fariam os Farrelly corar (ou roer-se de inveja). Desta vez, uma cena de sexo na qual Anna Faris é projectada até ao tecto do quarto, onde fica colada, por uma torrente do líquido foi a responsável pelo delírio de uma audiência que urrava de prazer.
Desde então não vi muitos desses casos em que a reacção do público é mais espectacular que o filme, talvez porque fujo um bocado desse tipo de humor (diga-se que até gostei das comédias citadas, sobretudo da primeira). As fitas cómicas mais originais talvez sejam aquelas que provocam menos gargalhadas na assistência, uma vez que esta encontra-se demasiado surpreendida para reagir (veja-se o caso de "Queres Ser John Malkovich?").
sexta-feira, outubro 10, 2003
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