segunda-feira, novembro 24, 2003

Beba Sagres

Ao contrário do que acontece na ficção televisiva nacional, é rara a presença de "product placement" no cinema português (exceptuando as antigas e já esquecidas produções da SICFilmes). Não podemos saber que marcas é que, no intervalo das suas aventuras ou dramas existenciais, os personagens comem, bebem, fumam ou conduzem (diga-se que em princípio, não tenho nada contra a publicidade nos filmes, embora seja por vezes insultuoso que determinados planos ou cenas sirvam apenas para esse fim). Que fizemos para merecer isto? Como é possível?
Para começar, alguns cineastas do género José Álvaro Morais produzem fitas demasiado "artísticas" e independentes para aceitar apelos básicos ao consumo que possam conceder um aspecto sórdido de realismo às criaturas dos enredos. Além disso, os anunciantes sabem que o público a que chegariam com esse tipo de publicidade seria reduzido e constituído por gente muito esquisita (espectadores do cinema lusitano) afastada do padrão do consumidor comum.
Neste cenário, "Os Imortais", de António-Pedro Vasconcelos, representa sem dúvida um passo em frente na comercialização das longas-metragens lusas. Afinal, a breve referência à cerveja Sagres (consumida pelo personagem de Nicolau Breyner) e a presença de outras bebidas verdadeiras como "JB" indicam o início do investimento nesse sentido. O eventual (não tenho dados) sucesso da fita servirá decerto de incentivo a esse esforço patriótico. O nosso cinema jamais se aproximará do prestígio das produções americanas se os argumentos não previrem de antemão numerosas cenas com publicidade regiamente paga.

P.S. Não recebi (por enquanto) nenhum pagamento da Sagres por ter escrito isto. Juro.

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