"Quentin Tarantino diz que afirmar-se que não se gosta de violência nos filmes faz tanto sentido como afirmar-se que não se gosta de sequências de dança nos filmes."
Jacinto Lucas Pires, "Cinemaamor"
As cinematografias de todos os países devem contar com uma personagem como Tarantino: um doido que aposta em projectos polémicos que só a sua imaginação delirante poderia criar e, afastando-se do politicamente correcto, acaba por ganhar o estatuto de cineasta de culto. Há quem adore e quem odeie o seu trabalho, mas é difícil ficar indiferente a quem assim provoca o sistema (em Portugal, o mais próximo disto que tivemos foi João César Monteiro).
É verdade que o argumento do primeiro volume de "Kill Bill" conta-se em meia dúzia de palavras, mas isso acaba por passar despercebido perante o carácter de divertimento frenético da longa-metragem. Todas as cenas construídas por Tarantino apresentam-se tão inovadoras e surpreendentes (aspecto para o qual muito contribui a banda sonora) que a atenção (ou a estupefacção) do espectador é atraída permanentemente. O realizador move-se com mestria nos diferentes géneros que mistura (em várias ocasiões, como a luta na penumbra ou as imagens em câmara lenta, parece aproveitar para exibir-se), resultando da sua loucura uma experiência bizarra e indefinível mas extremamente atraente. Os desempenhos das actrizes (os homens só aparecem a sério em Fevereiro) garantem o funcionamento do projecto.
Trata-se de uma obra a transbordar de sangue (o que dá origem a momentos hilariantes de humor negro), embora não seja, geralmente (a sequência em animação é de dar a volta ao estômago), chocante, uma vez que o absurdo com que a história é desenvolvida não permite levá-la muito a sério (é bom saber que a companhia de aviação japonesa não aderiu à paranóia da segurança e permite que os seus passageiros transportem calmamente as espadas junto de si). Até agora, é o filme de 2003 com a melhor situação do género "herói/heroína luta sozinho/a contra dezenas de adversários".
A melhor cena: A banda de "rock" actua.
A pior cena: The Bride observa as espadas de Hatzo.
Nota: 9/10.
sábado, novembro 01, 2003
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