Não direi que a Kathleen Gomes (ou qualquer outro crítico alérgico a Spielberg) é um boi, até porque costumo registar sobretudo as impressões gerais dos especialistas na 7ª Arte que publicam recensões na imprensa ou na Internet sobre determinado filme. Normalmente, estão de acordo quanto ao elevado mérito ou à monstruosidade de uma longa-metragem. Mesmo quando as opiniões se dividem (como aconteceu com “Kill Bill”), costuma haver uma tendência dominante. Mesmo que não me guie estritamente pelas estrelinhas atribuídas pelos críticos, eles acabam por criar, pelo seu aplauso ou repulsa (ou ainda pior, indiferença), uma ideia prévia sobre as fitas que pode ser prejudicial.
É difícil (felizmente) ler tudo o que se publica em Portugal sobre o cinema em exibição. Ainda assim, nos espaços que consulto mais frequentemente, costumam-se destacar alguns nomes cujos textos possuem determinadas características especiais. Quem pode passar ao lado das reflexões elaboradas e intelectuais de João Lopes, da brutalidade (ou polémica) de Eurico de Barros, da snobice q.b. do painel do “Público”, dos intermináveis (mas claros e directos) ensaios de Nuno Antunes (Cinema2000), da paixão pela comédia romântica inglesa de Rui Pedro Tendinha, da tendência para dizer bem de João Antunes, da tendência para desancar de Francisco Ferreira, da atracção pela Ásia de Luís Canau (CineDie), da abundância da produção de Jorge Pereira (C7nema), do sarcasmo e das piadas extra-cinema de John Snow (“O Inimigo Público”), da capacidade de síntese de JP Machado (7ª Arte), etc.?
De uma forma geral, acho que em Portugal se escreve bem sobre cinema em folhas de papel e no ciberespaço. De resto, os articulistas especializados não são muitos (se excluirmos a “democratização” da função crítica proporcionada por fóruns e blogues), são quase todos homens (sabe-se lá porquê) e renovam-se apenas de vez em quando (foi bom terem surgido “novos valores” na Net, como Joaquim Lucas e Tiago Pimentel, ou mesmo na imprensa, como Vasco Menezes). Os críticos portugueses são inofensivos para a saúde ou gente muito perigosa? O certo é que não podemos passar sem eles.
segunda-feira, dezembro 08, 2003
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