sexta-feira, janeiro 30, 2004

Autoria e comércio

Sem receio da polémica, Anabela Mota Ribeiro, depois de experiências traumáticas passadas num centro comercial, defende a distinção clara entre as salas que exibem cinema de autor, independente, ou simplesmente de qualidade e aquelas que divulgam obras comerciais e banais, normalmente americanas.
Os ambientes vividos nestes dois tipos de cinemas são muito diferentes, sobretudo quanto ao comportamento do público. O alvo de Ribeiro são, assim, os espaços que procuram combinar obras puramente artísticas com "blockbusters". Em Lisboa, que eu conheça, podem ser citados os exemplos dos multiplexes Alvaláxia, Monumental e Mundial, que misturam na sua programação longas-metragens dos dois géneros.
Parece-me exagerada a separação radical entre "bom" cinema, proveniente de todo o mundo, e "mau" cinema, produzido em Hollywood. É possível gostar tanto de um como de outro, até porque o cinema-pipoca, procurando sobretudo falar ao público e distraí-lo, pode também deter qualidade técnica e narrativa aceitável. Nem sempre nos apetece ver uma história profunda. É verdade que é muito positiva a diversificação da oferta cinéfila, mas não faz sentido pôr de lado o cinema "dependente" da terra dos Bush. Quanto ao espírito "futebolístico" de certos espectadores, não tem muito a ver com o cartaz das salas, mas sobretudo com hábitos culturais. Há cromos por toda a parte.
Não faz sentido barricarmo-nos no King ou no Nimas. Um multiplex como o Monumental oferece tanto do melhor (ou perto disso) que chega de terras europeias ou asiáticas como do hediondo cinema comercial americano (no qual Ribeiro parece incluir cineastas de talento como Spielberg ou Soderbergh). Quanto à barbárie das multidões pipoqueiras, o melhor é afastarem-se das salas da Lusomundo (excepto no caso de uma fita interessante que só esteja lá, é claro).

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