“Sexo, Mentiras e Vídeo”, de Steven Soderbergh (Hollywood)
Ao ganhar a Palma de Ouro de Cannes e sendo nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, Soderbergh irrompeu em 1989 como um dos mais promissores cineastas americanos. A sua primeira longa-metragem tornou-se um clássico do cinema “indie” (e inspirou numerosos títulos jornalísticos), embora o realizador tenha entrado nos anos seguintes numa fase “obscura”, não conseguindo impor o seu nome até finais da década de 90, quando, como se sabe, assinou vários êxitos críticos e comerciais, vindo a receber uma estatueta.
Ainda hoje, “Sexo, Mentiras e Vídeo” constitui um objecto singular. O célebre título indica os ingredientes da história, limitada quase exclusivamente a quatro personagens, que ao longo de hora e meia falam sobre sexualidade, sem quaisquer tabus. Além de falar, fazem (pelo menos duas delas), mas Soderbergh nunca nos mostra órgãos genitais ou outras partes íntimas, limitando-se a sugerir e conseguindo precisamente assim um forte erotismo.
As bizarrias (ou nem tanto) dos protagonistas e a evolução das relações entre eles conferem dinamismo a um argumento simples (e filmado sem grandes recursos), marcado pelos diálogos de elevada qualidade, que nunca caem no mau gosto. A realização de Soderbergh ainda não possui grande arrojo e traços típicos do cinema independente retardam um pouco o ritmo, mas o interesse do espectador nunca se perde. A banda sonora é bastante cuidada e liga-se na perfeição às imagens.
Dos quatro actores principais, destacam-se James Spader (calmo e contido, como em “A Secretária”) e Andie McDowell (anúncios televisivos à parte, o que é feito dela?), os quais constituem a imagem mais forte de uma obra feita a pensar sobretudo na crítica, mas transmitindo uma impressão de talento e qualidade ainda hoje presente no trabalho de Soderbergh.
A melhor cena: Ann beija Graham.
A pior cena: John e Cynthia falam pela última vez.
Nota: 7/10.
“A Fúria do Herói”, de Ted Kotcheff (TVI)
Seja ou não porque “Rocky” é já demasiado antigo (e as últimas sequelas não tiveram grande impacto), Sylvester Stallone ainda hoje “é” Rambo, mesmo para aqueles que não conhecem os filmes nos quais participou. Um dos maiores ícones do cinema americano surgiu na tela pela primeira vez em “A Fúria do Herói” (“First Blood”), um filme de 1982 que apresenta o veterano do Vietname como um símbolo da inadaptação dos ex-combatentes à vida civil e da hostilidade que lhes é dirigida. Divergindo em relação ao romance que serviu de base à fita, o argumento disponibiliza o herói para aventuras futuras. Por enquanto, Rambo combate a polícia de uma pequena cidade, que embirra com ele e lhe resolve dar caça.
É ao fazer a ligação entre o presente e os traumas do passado do guerreiro, nomeadamente através da intervenção do personagem de Richard Crenna, que a obra de Kotcheff ganha maior valor. A ira e o desespero do protagonista são expressos por Stallone da melhor maneira que consegue (o que não é grande coisa), nas escassas frases que profere. De resto, temos uma fita de acção típica dos anos 80, com abundantes tiros e explosões (embora pouco sangue) à medida que decorre a luta entre Rambo e os personagens secundários estereotipados. A realização e a montagem limitam-se a seguir, sem darem grande sinal de si, as peripécias mais ou menos interessantes que ocorrem.
Dizer que “A Fúria do Herói” é um bom filme é algo exagerado, mas a verdade é que entretém e tem pés e cabeça, satisfazendo as expectativas dos fãs do género. Será que hoje em dia alguém faria uma obra de acção “um-contra-todos” tão “clássica”?
A melhor cena: Trautman apresenta-se ao xerife Teasle.
A pior cena: Rambo é lavado.
Nota: 5/10.
quinta-feira, fevereiro 26, 2004
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