sábado, fevereiro 14, 2004

Urina

“Scary Movie 3 – Outro Susto de Filme”

Se bem se lembram, em 2000 os irmãos Wayans, um grupo de actores e cineastas praticamente desconhecidos até então, fizeram sensação nas bilheteiras americanas com o seu “Scary Movie – Um Susto de Filme” (realizado por Keenan Ivory), uma comédia parodiando os filmes de terror adolescente (com “Gritos” como principal fonte de inspiração) e muitos outros, recorrendo a um humor nada subtil que fez os Farrelly parecer uns caretas. Em Portugal, o filme teve boa recepção, a avaliar pelas reacções do público que assistiu à sessão a que eu fui (uma cena envolvendo imenso esperma gerou uma manifestação única de histeria colectiva). Os Wayans lançaram-se imediatamente na produção de uma sequela, mas em 2001 o êxito não os bafejou da mesma forma. A direcção do projecto “Scary Movie 3” foi por isso entregue a novos argumentistas e ao realizador David Zucker, que não era propriamente um estreante na comédia. Com o irmão Jerry e Jim Abrahams, tinha formado o trio ZAZ, criador de “Aeroplano” (1980) e “Aonde é que Pára a Polícia” (1988), clássicos do género “comédia “nonsense” a gozar com os clichés de outros filmes a um ritmo de trinta “gags” por segundo”. Seria de esperar, portanto, uma renovação da série e uma abordagem divertida das produções recentes de Hollywood.
A verdade é que o terceiro “Scary Movie” deixa saudades do esperma dos Wayans (aqui substituído pela urina). A ligação com os outros filmes da série é feita pela protagonista, Anna Faris, e pelo tipo de humor predominante (piadas sobre órgãos sexuais masculinos e femininos, flatulência, negros, homossexuais, etc.). As obras que servem de referência ao filme de Zucker incluem, entre outras, “The Ring – O Aviso”, “Sinais”, “8 Mile” e os dois primeiros capítulos da saga “Matrix” (tendo em conta que “Matrix Reloaded” estreou em Maio e “Scary Movie 3” em Outubro do ano passado, é de destacar a actualidade do argumento), cujas cenas mais marcantes os actores recriam. É divertido? Nem por isso. Contam-se pelos dedos de uma mão as gargalhadas que a obra proporciona. A fita acaba por ser vítima da quantidade tremenda de piadas que apresenta sem um fio condutor decente que as ligue.
Leslie Nielsen procura remeter para o passado de Zucker e existem algumas ideias interessantes (as cenas com chamadas telefónicas, o padre pedófilo, Michael Jackson, etc.), mas são escassas num conjunto que simplesmente não funciona e é frequentemente previsível. O filme vê-se num abrir e fechar de olhos, mas não é por falta de tempo que não agarra o espectador. O primeiro “Scary Movie” ao menos ficou na história recente do cinema graças ao esperma. O terceiro tem pouco ou nada que o salve do esquecimento. Ah, sim, esperem, há a madre Teresa (numa cena mais absurda que provocadora), mas não é a mesma coisa.
A melhor cena: Michael Jackson é atacado por Tom Logan.
A pior cena: A tentativa de ressurreição.

Nota: 4/10.

P.S. A avaliar pela publicidade que antecedeu a projecção, o futuro próximo das salas da Lusomundo não é muito risonho. Os “trailers” de “A Filha do Meu Patrão”, “Pago para Esquecer” e “Desaparecidas” são de fugir.

Sem comentários: