quinta-feira, maio 06, 2004

Porrada

A impressão de existência de um confronto aberto entre realizadores portugueses com diferentes pontos de vista acerca do que deve ser o cinema nacional confirmou-se com a polémica entre João Mário Grilo e António-Pedro Vasconcelos. Tudo começou quando o cineasta de “A Falha” utilizou a sua coluna na “Visão” para atacar a nova Lei do Cinema, mãe do FIFACA (Fundo para o Investimento e Fomento das Artes Cinematográficas e do Audiovisual). O objectivo anunciado do Ministério da Cultura (criar condições para o aparecimento de uma indústria cinematográfica em Portugal) parece completamente insano a Grilo, que aponta a inexistência de um mercado para isso necessário e prova as suas dúvidas com o exemplo do “comercial” “Os Imortais”, de António-Pedro Vasconcelos (“cineasta de exemplar subserviência para com o poder político”, segundo Grilo), com um prejuízo de cerca de 2,8 milhões de euros.
Vasconcelos leu o artigo e sentiu-se ligeiramente incomodado com estas afirmações. Em artigo publicado na edição de hoje da mesma revista, dirige a Grilo simpáticos elogios como “criatura”, “ordinário” e “pantomineiro”. Apresenta custos ligeiramente inferiores do orçamento e um maior impacto público de “Os Imortais” (menos de um milhão de euros e não três milhões de custos, estreia com 30 cópias e não 40, 55 mil espectadores e não 40 mil) e acusa o seu colega de, basicamente, ser um parasita do Estado que produz fitas destinadas apenas a “minorias “cultas””, temendo o escrutínio popular.
No meio desta gritaria, quem devemos apoiar? Comparando “Os Imortais” e “A Falha”, a escolha é óbvia: António-Pedro é fixe. É certo que acaba por revelar que a sua última longa-metragem ficou, em termos de sucesso comercial, bastante aquém da anterior (“Jaime” teve, segundo o seu realizador, 220 925 espectadores). Não parecem haver, de momento, grandes candidatos a “blockbusters” lusitanos (filmes que parecem ser feitos para o grande público, como “Tudo Isto é Fado” e “Maria e as Outras”, passam bastante despercebidos). Mas porque não apostar numa “Revolução Industrial” no cinema português? É difícil ficar pior do que está.

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