“A Senhora da Água”, de M. Night Shyamalan
Rodeado de um vendaval de críticas negativas (podem encontrar aqui alguns dos impropérios lançados à obra), o novo filme de Shyamalan exige um certo esforço por parte do público, que deve pôr de lado pretensões realistas e deixar-se levar pela fantasia. O cineasta dá mesmo a entender que é precisamente de fantasia que estamos a necessitar para evitar infernos como o Iraque.
Os actores que protagonizam a história de embalar não poderiam ter sido melhor escolhidos. Paul Giamatti mostra as qualidades que o colocaram debaixo dos holofotes, enquanto Bryce Dallas Howard assume convictamente a pureza de alguém que não é deste mundo. A banda sonora alia-se aos desempenhos dos intérpretes na criação das cenas de maior impacto emocional, dando-nos a sensação de que também nós podemos ser salvos.
É pena que esses momentos sejam tão poucos. O esquema no qual se apoia o argumento é tão complexo e as personagens gastam tanto tempo a explicá-lo e a tentar compreendê-lo que só tardiamente nos interessamos pelo destino da narfa e daqueles que a rodeiam. O elemento humorístico (que tão bem funciona em “Sinais”) parece demasiado forçado e raramente diverte. A própria realização de Shyamalan está uns furos abaixo do que se esperaria, não se entendendo o sentido de vários planos.
Apesar de tudo, o realizador-argumentista mostra não ter perdido completamente o seu talento para estabelecer laços entre as suas “criaturas” e os fãs (permitindo leituras bastante subjectivas). A verdade é que isso não impede “A Senhora da Água” de ser o mais fraco dos últimos cinco filmes de Shyamalan.
A melhor cena: Cleveland reanima Story.
A pior cena: Farber agradece a festa.
Nota: 6/10.
Sábado, Setembro 30, 2006
Domingo, Setembro 24, 2006
Avaliação
Um dos aspectos potencialmente mais interessantes do “Cine Guia 2007”, de Miguel Lourenço Pereira (que surgirá no mercado no início de Outubro), é a avaliação qualitativa dos filmes disponíveis em suporte DVD. O comentário e a utilização de uma classificação (restrita na obra do criador do Hollywood a apenas três notas diferentes) são características ausentes no primeiro guia do mercado português de DVD, o “DVD Guia”, cujo primeiro número ainda pode ser encontrado à venda.
A existência de uma apreciação crítica das longas-metragens, seguindo o modelo do “Vídeo 93” de Pedro Garcia Rosado, diferencia o guia da mera enumeração de títulos e sinopses, ao propor desde logo um ponto de partida para o julgamento do espectador (que pode concordar ou discordar da classificação), estimulando a sua capacidade de análise. As estrelas podem ainda ser informativas relativamente aos clássicos de visionamento recomendado ou ao material mais facilmente perecível (é curioso notar que muitos dos títulos a que Garcia Rosado não deu mais que 1/5 não chegaram a fazer a transição do VHS para o DVD).
É claro que isto levanta a questão da possibilidade de expressar o valor de um filme através de um número (ou do nome de um hamburger, ou ainda recorrendo a uma metáfora meteorológica, como acontece no novo semanário “Sol”). Penso que, apesar das múltiplas limitações que essa metodologia possui (nem todos os filmes de 6/10 são idênticos em qualidade…), a classificação permite sintetizar uma crítica e facilita a comparação entre as obras de um cineasta ou de um género. Isto para além de ser conveniente para quem não sabe bem o que escrever sobre um filme e procura expressar rapidamente a sua opinião pessoal.
A existência de uma apreciação crítica das longas-metragens, seguindo o modelo do “Vídeo 93” de Pedro Garcia Rosado, diferencia o guia da mera enumeração de títulos e sinopses, ao propor desde logo um ponto de partida para o julgamento do espectador (que pode concordar ou discordar da classificação), estimulando a sua capacidade de análise. As estrelas podem ainda ser informativas relativamente aos clássicos de visionamento recomendado ou ao material mais facilmente perecível (é curioso notar que muitos dos títulos a que Garcia Rosado não deu mais que 1/5 não chegaram a fazer a transição do VHS para o DVD).
É claro que isto levanta a questão da possibilidade de expressar o valor de um filme através de um número (ou do nome de um hamburger, ou ainda recorrendo a uma metáfora meteorológica, como acontece no novo semanário “Sol”). Penso que, apesar das múltiplas limitações que essa metodologia possui (nem todos os filmes de 6/10 são idênticos em qualidade…), a classificação permite sintetizar uma crítica e facilita a comparação entre as obras de um cineasta ou de um género. Isto para além de ser conveniente para quem não sabe bem o que escrever sobre um filme e procura expressar rapidamente a sua opinião pessoal.
Segunda-feira, Setembro 18, 2006
Sem poder
“A Minha Super Ex”, de Ivan Reitman
Não achei que a premissa do novo filme de Reitman fosse tão estúpida quanto isso (se pretendem algo tão pouco inteligente que se torna repugnante, podem ver o “trailer” de “Minorca”), até porque, de certa maneira, já vimos Uma Thurman a fazer de super-heroína em “Kill Bill”. A questão é saber se os altos e baixos da vida sentimental da G-Girl são convenientemente desenvolvidos e o universo dos “comics” eficazmente caricaturado.
A verdade é que “A Minha Super Ex” não desperdiça uma oportunidade de não ter piada. O argumento de Don Payne não dá espessura a nenhuma das personagens e enreda-se numa série de situações bizarras mal construídas. Chega a ser penoso acompanhar a falta de humor e criatividade que marca a hora e meia de filme.
O conjunto da obra apresenta características que contribuem para o fracasso, como efeitos especiais apenas razoáveis, uma realização que repete ideias em excesso (os planos dos arranha-céus ou dos diálogos em que vemos apenas o cabelo da personagem feminina enquanto a masculina fala são muito gastos) e interpretações entre as quais apenas se salva a de Thurman, com Luke Wilson e Anna Faris (uma boa actriz de comédia) em serviços mínimos.
Se o conceito até tinha potencial, o resultado final do filme é demasiado fraco para o retirar da irrelevância. Diverti-me mais com o “teaser” de “Filme da Treta” que com toda a longa-metragem de Reitman.
A melhor cena: Jenny revela a Matt a sua identidade secreta.
A pior cena: A animação do genérico final.
Nota: 4/10.
Não achei que a premissa do novo filme de Reitman fosse tão estúpida quanto isso (se pretendem algo tão pouco inteligente que se torna repugnante, podem ver o “trailer” de “Minorca”), até porque, de certa maneira, já vimos Uma Thurman a fazer de super-heroína em “Kill Bill”. A questão é saber se os altos e baixos da vida sentimental da G-Girl são convenientemente desenvolvidos e o universo dos “comics” eficazmente caricaturado.
A verdade é que “A Minha Super Ex” não desperdiça uma oportunidade de não ter piada. O argumento de Don Payne não dá espessura a nenhuma das personagens e enreda-se numa série de situações bizarras mal construídas. Chega a ser penoso acompanhar a falta de humor e criatividade que marca a hora e meia de filme.
O conjunto da obra apresenta características que contribuem para o fracasso, como efeitos especiais apenas razoáveis, uma realização que repete ideias em excesso (os planos dos arranha-céus ou dos diálogos em que vemos apenas o cabelo da personagem feminina enquanto a masculina fala são muito gastos) e interpretações entre as quais apenas se salva a de Thurman, com Luke Wilson e Anna Faris (uma boa actriz de comédia) em serviços mínimos.
Se o conceito até tinha potencial, o resultado final do filme é demasiado fraco para o retirar da irrelevância. Diverti-me mais com o “teaser” de “Filme da Treta” que com toda a longa-metragem de Reitman.
A melhor cena: Jenny revela a Matt a sua identidade secreta.
A pior cena: A animação do genérico final.
Nota: 4/10.
Sexta-feira, Setembro 15, 2006
Regressos
“Voltar”, de Pedro Almodóvar
A maior crítica que se pode fazer a “Volver” é a de não surpreender, ou seja, apresentar muito daquilo a que os espectadores do mais conhecido cineasta espanhol estão habituados: mulheres fortes e corajosas, homens perversos, críticas ao telelixo, reviravoltas na história e sobretudo essa fusão entre drama e comédia que funciona de forma simultaneamente eficaz e bizarra.
A intensidade dramática das personagens nunca se perde, graças à sensibilidade do realizador-argumentista e à sua capacidade de obter o melhor das actrizes, nomeadamente Penélope Cruz e (a grande) Cármen Maura. Ao mesmo tempo, são introduzidos na trama, sem a prejudicar, elementos bem conseguidos de crítica social. Particularmente brilhante é a parte em que um telemóvel toca incessantemente sem ninguém o atender (não, esperem, isso aconteceu apenas no cinema onde eu estava).
Mesmo não alcançando o nível atingido em obras como “Tudo Sobre a Minha Mãe” e “Fala com Ela”, Almodóvar dá-nos mais um exemplo de bom cinema, baseando-se sobretudo nos sentimentos das “suas” mulheres.
A melhor cena: Raimunda reencontra Irene.
A pior cena: Paco revela o seu despedimento.
Nota: 7/10.
A maior crítica que se pode fazer a “Volver” é a de não surpreender, ou seja, apresentar muito daquilo a que os espectadores do mais conhecido cineasta espanhol estão habituados: mulheres fortes e corajosas, homens perversos, críticas ao telelixo, reviravoltas na história e sobretudo essa fusão entre drama e comédia que funciona de forma simultaneamente eficaz e bizarra.
A intensidade dramática das personagens nunca se perde, graças à sensibilidade do realizador-argumentista e à sua capacidade de obter o melhor das actrizes, nomeadamente Penélope Cruz e (a grande) Cármen Maura. Ao mesmo tempo, são introduzidos na trama, sem a prejudicar, elementos bem conseguidos de crítica social. Particularmente brilhante é a parte em que um telemóvel toca incessantemente sem ninguém o atender (não, esperem, isso aconteceu apenas no cinema onde eu estava).
Mesmo não alcançando o nível atingido em obras como “Tudo Sobre a Minha Mãe” e “Fala com Ela”, Almodóvar dá-nos mais um exemplo de bom cinema, baseando-se sobretudo nos sentimentos das “suas” mulheres.
A melhor cena: Raimunda reencontra Irene.
A pior cena: Paco revela o seu despedimento.
Nota: 7/10.
Sábado, Setembro 09, 2006
Sonho
“O Meu Encontro com Drew”, de Jon Gunn, Brian Herzlinger e Brett Winn
Este documentário (com uma passagem bastante discreta pelos cinemas portugueses) segue uma fórmula algo semelhante à de “Super Size Me”. Brian Herzlinger, sem experiência anterior na realização, procura concretizar, em 30 dias e com um orçamento de 1100 dólares, o seu sonho de se encontrar com a actriz Drew Barrymore. A longa-metragem, filmada com a ajuda de amigos, segue as diversas peripécias e fracassos que Herzlinger conhece ao longo de um mês.
As condições amadoras em que a obra é concebida (com apenas uma câmara de vídeo) traduzem-se na sua evidente debilidade técnica. Perante esta fraqueza, seria necessária uma boa premissa para responder afirmativamente à dúvida (levantada a certa altura na própria fita) acerca da possibilidade de atrair público com o projecto. De facto, a perspectiva de um homem banal como Brian que tenta contactar uma estrela de Hollywood aproxima o protagonista do espectador, com o qual estabelece uma empatia necessária para garantir o interesse pelo desenrolar da aventura.
Apesar de algumas quebras de ritmo, a leveza e simplicidade da história, tal como a abundância de momentos divertidos (expressando o gozo sentido pelos realizadores durante a experiência), conferem ao filme uma dose significativa de boa-disposição e criam expectativa acerca do desenlace (não estrago muito ao revelar que é feliz, pois dificilmente de outra maneira teríamos oportunidade de visionar a obra).
Embora não tenha uma mensagem particularmente importante para transmitir, para além da óbvia (persigam os vossos sonhos), “O Meu Encontro com Drew” é ideal para descontrair. Existe, no entanto, o risco de Herzlinger ficar associado exclusivamente a este filme e não satisfazer a curiosidade por novos projectos.
A melhor cena: Brian impacienta-se antes do encontro.
A pior cena: A limpeza facial de Brian.
Nota: 6/10.
Este documentário (com uma passagem bastante discreta pelos cinemas portugueses) segue uma fórmula algo semelhante à de “Super Size Me”. Brian Herzlinger, sem experiência anterior na realização, procura concretizar, em 30 dias e com um orçamento de 1100 dólares, o seu sonho de se encontrar com a actriz Drew Barrymore. A longa-metragem, filmada com a ajuda de amigos, segue as diversas peripécias e fracassos que Herzlinger conhece ao longo de um mês.
As condições amadoras em que a obra é concebida (com apenas uma câmara de vídeo) traduzem-se na sua evidente debilidade técnica. Perante esta fraqueza, seria necessária uma boa premissa para responder afirmativamente à dúvida (levantada a certa altura na própria fita) acerca da possibilidade de atrair público com o projecto. De facto, a perspectiva de um homem banal como Brian que tenta contactar uma estrela de Hollywood aproxima o protagonista do espectador, com o qual estabelece uma empatia necessária para garantir o interesse pelo desenrolar da aventura.
Apesar de algumas quebras de ritmo, a leveza e simplicidade da história, tal como a abundância de momentos divertidos (expressando o gozo sentido pelos realizadores durante a experiência), conferem ao filme uma dose significativa de boa-disposição e criam expectativa acerca do desenlace (não estrago muito ao revelar que é feliz, pois dificilmente de outra maneira teríamos oportunidade de visionar a obra).
Embora não tenha uma mensagem particularmente importante para transmitir, para além da óbvia (persigam os vossos sonhos), “O Meu Encontro com Drew” é ideal para descontrair. Existe, no entanto, o risco de Herzlinger ficar associado exclusivamente a este filme e não satisfazer a curiosidade por novos projectos.
A melhor cena: Brian impacienta-se antes do encontro.
A pior cena: A limpeza facial de Brian.
Nota: 6/10.
Quinta-feira, Setembro 07, 2006
Dois terços
Entre 1 de Janeiro e 30 de Agosto de 2006, as dez longas-metragens mais vistas nos cinemas portugueses foram (assim o diz o ICAM):
1. “O Código Da Vinci”
2. “Piratas das Caraíbas – O Cofre do Homem Morto”
3. “A Idade do Gelo 2: Descongelados”
4. “Pular a Cerca”
5. “Missão Impossível III”
6. “Infiltrado”
7. “Miami Vice”
8. “Munique”
9. “Separados de Fresco”
10. “Dick e Jane – Ladrões sem Jeito”
Apesar de ter vendido quase 600 mil bilhetes até ao final do mês passado, a obra de Gore Verbinski parece já não ter fôlego para assaltar a primeira posição da tabela. Entretanto, “Pular a Cerca” afirma-se como o novo sucesso do cinema de animação, superiorizando-se à mais recente produção da Pixar (“Carros” não consegue melhor que o décimo segundo lugar da lista). Destaquem-se ainda os bons resultados do filme de Michael Mann, que, em menos salas, faz melhor que “Super-Homem: O Regresso” e pode ainda atingir o grupo dos cinco mais vistos.
1. “O Código Da Vinci”
2. “Piratas das Caraíbas – O Cofre do Homem Morto”
3. “A Idade do Gelo 2: Descongelados”
4. “Pular a Cerca”
5. “Missão Impossível III”
6. “Infiltrado”
7. “Miami Vice”
8. “Munique”
9. “Separados de Fresco”
10. “Dick e Jane – Ladrões sem Jeito”
Apesar de ter vendido quase 600 mil bilhetes até ao final do mês passado, a obra de Gore Verbinski parece já não ter fôlego para assaltar a primeira posição da tabela. Entretanto, “Pular a Cerca” afirma-se como o novo sucesso do cinema de animação, superiorizando-se à mais recente produção da Pixar (“Carros” não consegue melhor que o décimo segundo lugar da lista). Destaquem-se ainda os bons resultados do filme de Michael Mann, que, em menos salas, faz melhor que “Super-Homem: O Regresso” e pode ainda atingir o grupo dos cinco mais vistos.
Domingo, Setembro 03, 2006
Dúvida
Sem nada de especial para dizer, prefiro recomendar um texto sobre "Munique" que expressa as questões levantadas pelo filme melhor do que eu poderia fazer. Henrique Raposo destaca a rejeição do fanatismo (de um sinal ou outro) que a obra revela, mostrando uma lucidez que escapa a alguns detractores da longa-metragem de Spielberg (como Luciano Amaral).
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