sábado, fevereiro 28, 2004

Vómito

Um DVD actualmente no mercado de aluguer que merece atenção é o de “O Sentido da Vida”, uma comédia de 1983 que aborda (supostamente) as diferentes fases da vida humana, de acordo com a visão dos Monty Python. Os seis cómicos que revolucionaram o humor televisivo e cinematográfico (constituindo uma referência para as Produções Fictícias, a poderosa empresa que praticamente monopoliza a risota nacional) apresentam uma série de “sketches” em torno da busca do sentido da vida, o que explica a presença de peixes, (muito) vómito, seios nus, extracções de fígado, aulas (enfadonhas) de educação sexual, etc.
“O Sentido da Vida”, realizado por Terry Jones (à excepção da curta-metragem que o precede e das sequências de animação, realizadas por Terry Gilliam), acaba por não ser uma obra genial, devido à sua estrutura algo desconexa e a algumas piadas que passam ao lado. Mas quando os Python (que só redescobri agora, depois de ter visto um pouco do trabalho do grupo já há alguns anos) acertam, acertam em cheio. As canções delirantes e o humor mais violento e “chocante” (trata-se de um filme classificado como para maiores de 18) ficam na memória, distinguindo-se fortemente da comédia feita hoje em dia (pelo menos, fazem rir).
Uma dose de “nonsense” puro que é acompanhada por numerosos extras (o DVD possui dois discos), incluindo cenas cortadas, material publicitário, novas “curtas” humorísticas (sobretudo de auto-sátira, como o prólogo acrescentado ao filme e o novo “trailer”), um documentário nada aborrecido sobre o projecto e outras tralhas (todas legendadas em português) que valem pelo menos o dinheiro do aluguer.
A melhor canção: “Every Sperm is Sacred”.
A pior canção: “The Penis Song”.

Nota: 7/10.

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Fitas na TV

“Sexo, Mentiras e Vídeo”, de Steven Soderbergh (Hollywood)

Ao ganhar a Palma de Ouro de Cannes e sendo nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, Soderbergh irrompeu em 1989 como um dos mais promissores cineastas americanos. A sua primeira longa-metragem tornou-se um clássico do cinema “indie” (e inspirou numerosos títulos jornalísticos), embora o realizador tenha entrado nos anos seguintes numa fase “obscura”, não conseguindo impor o seu nome até finais da década de 90, quando, como se sabe, assinou vários êxitos críticos e comerciais, vindo a receber uma estatueta.
Ainda hoje, “Sexo, Mentiras e Vídeo” constitui um objecto singular. O célebre título indica os ingredientes da história, limitada quase exclusivamente a quatro personagens, que ao longo de hora e meia falam sobre sexualidade, sem quaisquer tabus. Além de falar, fazem (pelo menos duas delas), mas Soderbergh nunca nos mostra órgãos genitais ou outras partes íntimas, limitando-se a sugerir e conseguindo precisamente assim um forte erotismo.
As bizarrias (ou nem tanto) dos protagonistas e a evolução das relações entre eles conferem dinamismo a um argumento simples (e filmado sem grandes recursos), marcado pelos diálogos de elevada qualidade, que nunca caem no mau gosto. A realização de Soderbergh ainda não possui grande arrojo e traços típicos do cinema independente retardam um pouco o ritmo, mas o interesse do espectador nunca se perde. A banda sonora é bastante cuidada e liga-se na perfeição às imagens.
Dos quatro actores principais, destacam-se James Spader (calmo e contido, como em “A Secretária”) e Andie McDowell (anúncios televisivos à parte, o que é feito dela?), os quais constituem a imagem mais forte de uma obra feita a pensar sobretudo na crítica, mas transmitindo uma impressão de talento e qualidade ainda hoje presente no trabalho de Soderbergh.
A melhor cena: Ann beija Graham.
A pior cena: John e Cynthia falam pela última vez.

Nota: 7/10.

“A Fúria do Herói”, de Ted Kotcheff (TVI)

Seja ou não porque “Rocky” é já demasiado antigo (e as últimas sequelas não tiveram grande impacto), Sylvester Stallone ainda hoje “é” Rambo, mesmo para aqueles que não conhecem os filmes nos quais participou. Um dos maiores ícones do cinema americano surgiu na tela pela primeira vez em “A Fúria do Herói” (“First Blood”), um filme de 1982 que apresenta o veterano do Vietname como um símbolo da inadaptação dos ex-combatentes à vida civil e da hostilidade que lhes é dirigida. Divergindo em relação ao romance que serviu de base à fita, o argumento disponibiliza o herói para aventuras futuras. Por enquanto, Rambo combate a polícia de uma pequena cidade, que embirra com ele e lhe resolve dar caça.
É ao fazer a ligação entre o presente e os traumas do passado do guerreiro, nomeadamente através da intervenção do personagem de Richard Crenna, que a obra de Kotcheff ganha maior valor. A ira e o desespero do protagonista são expressos por Stallone da melhor maneira que consegue (o que não é grande coisa), nas escassas frases que profere. De resto, temos uma fita de acção típica dos anos 80, com abundantes tiros e explosões (embora pouco sangue) à medida que decorre a luta entre Rambo e os personagens secundários estereotipados. A realização e a montagem limitam-se a seguir, sem darem grande sinal de si, as peripécias mais ou menos interessantes que ocorrem.
Dizer que “A Fúria do Herói” é um bom filme é algo exagerado, mas a verdade é que entretém e tem pés e cabeça, satisfazendo as expectativas dos fãs do género. Será que hoje em dia alguém faria uma obra de acção “um-contra-todos” tão “clássica”?
A melhor cena: Trautman apresenta-se ao xerife Teasle.
A pior cena: Rambo é lavado.

Nota: 5/10.

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

A Bíblia no multiplex

O início da Quaresma foi a época do ano escolhida para dar a conhecer ao mundo “The Passion of the Christ”, o (hiper) polémico filme bíblico de Mel Gibson que há quase um ano provoca as mais variadas reacções nos EUA, como se pode ler no "Público" de hoje. As acusações de parcialidade e potencial anti-semitismo da visão da crucificação de Cristo proposta por Gibson, lançadas por associações judaicas e até por alguns clérigos cristãos (embora, de um modo geral, tanto católicos como protestantes que já viram o filme tenham emitido juízos positivos), criaram um ruído tal à volta da película que o interesse e a expectativa dos espectadores americanos são quase comparáveis ao que acontece com as obras de George Lucas (algumas das 4000 salas onde “The Passion” será exibido realizarão sessões às 6:30 da manhã, de modo a satisfazer a procura). As previsões dos grandes estúdios (que rejeitaram apoiar o projecto de Gibson, pouco confiantes na comercialidade de uma longa-metragem com legendas e um tema distante da linha habitual dos “blockbusters”) parecem prestes a ser desmentidas.
Não teremos de esperar muito para ver como é afinal esse regresso do Novo Testamento ao cinema, uma vez que a obra estreará nas salas da Lusomundo em 11 de Março. A intenção dos distribuidores é aproveitar ao máximo a eventual compra maciça de bilhetes, até por parte de gente que não costuma ir muito ao cinema.
Até lá, resta-nos observar a reacção da crítica (supostamente para lá das questões religiosas), avaliando “The Passion” como objecto artístico.

domingo, fevereiro 22, 2004

Imprensa

Enquanto o “Público” vai concluindo a Série Y, o “Diário de Notícias” lança uma nova colecção de DVDs (Cine Clube DNA), com títulos seleccionados (entre as obras do catálogo da Lusomundo?) pelo conceituado João Lopes. As duas primeiras fitas a serem postas a venda (“Apocalypse Now Redux” e “Vigaristas de Bairro”) mostram que acabou de vez a colecção possidónia de 2003. Agora o nível é mais elevado, tanto quanto ao rol de longas-metragens quanto à publicidade (bem melhor que os trocadilhos do “Público”, diga-se).

O regresso de Ron Howard à realização, com “Desaparecidas”, despertou forte interesse por parte do painel de críticos do diário dirigido por José Manuel Fernandes. Todos os quatro especialistas visionaram a nova obra de Howard. Para além da relativa raridade de um filme americano ser comentado por todos os membros do painel, é de destacar a igual classificação por eles atribuída: bola preta, foi a decisão unânime (dois críticos do DN, mais generosos, concedem a “Desaparecidas” uma modesta estrelinha). Normalmente, apenas um ou dois membros do grupo sacrificam-se e visionam obras comerciais que cheiram de longe a mediocridade, mas desta vez o desanque foi total e impiedoso (o painel do “Público” já se tinha unido antes, mas para elogiar, como aconteceu com “Lost in Translation”). Não sei ainda o que se passou noutras publicações (nomeadamente o “Expresso”), mas não se pode dizer que a última produção do cineasta oscarizado de “Uma Mente Brilhante” tenha sido recebida de braços abertos pela crítica portuguesa.

sábado, fevereiro 21, 2004

Humor cinéfilo

Algures nas profundezas da Net portuguesa existe uma página na qual se encontram alguns textos humorísticos parodiando os clichés do cinema americano (todo o tipo de situações que provocam o comentário "isto só nos filmes"). As recolhas de situações absurdas das longas-metragens de Hollywood são já um pouco antigas ("Independence Day" é um dos principais alvos) e as anedotas do último texto nem sempre são hilariantes, mas ainda é interessante ler enumerações de tudo aquilo que nunca acontece na vida real mas faz parte do dia-a-dia dos heróis e vilões de além-Atlântico. As cenas mais dramáticas das fitas têm quase sempre um lado ridículo.

Qual o valor de 21 gramas?

Sem me alongar demais posso afirmar que este será um dos melhores filmes estreados em 2004. Realmente um magnífico filme em que o efeito especial são os actores. O argumento é simples mas permite aos actores a criação de personagens reais que vivem numa teia de angústia criada pela vida.

Del Toro é um actor do outro Mundo. Cria uma personagem de conflito, de redenção e de dúvida de um modo brilhante, desde a actuação ao seu trabalho físico e mesmo no seu aspecto físico. Penn surge novamente a um nível alto, tal como em Mystic River e a sua personagem tem o peso do fim da vida. Watts é uma guerreira nata, nunca caí no lugar comum de coitadinha e assume sempre o lugar de lutadora.

O realizador mexicano constroi a narrativa de maneira certa, uma vez que o argumento é muito simples e mesmo linear. A montagem e a realização é que o torna intenso, único e fazem com que o filme tenha duas horas sempre a um nível intenso, alto e colocando o espectador na dúvida do que virá a seguir ou como é que se chegou a este ponto?

Resumidamente 21 gramas valem 5 lindas estrelas.

A Cidade de Deus: discriminação

Sinceramente mais uma vez os editores de dvd em Portugal esquecem-se de fazer uma versão dos filmes com legendas em Português. Será que não conseguem perceber que a vantagem deste formato é poder facilmente ser alterado consoante o espectador que está a ver o filme? Uma coisa é ter legendas no cinema outra é ter legendas num formato em que facilmente se tiram.
Podem pensar que é caro fazer a legendagem. Se se pensar um pouco, estando já em Region 2 há algum tempo existem versões em inglês. Então é somente o trabalho de ver o filme e guardar as "falas" pois o estudo da altura em que elas entram está já feito para outras línguas. E como é traduzir de português para português é um trabalho rápido.

Um público que não oiça que filme poderá ver?
E ainda melhor. Eu compro filmes americanos e gosto mais quando os vejo com legendas para "apanhar" mesmo tudo. Os filmes de Region 1/2 têm quase sempre legendas. Visão comercial? Sim e também visão social.

Portugal tão pequenino nós somos

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

As piores pipocas

E já foram divulgadas as escolhas do site The Stinkers quanto ao pior que o cinema americano ofereceu em 2003. O filme mais premiado foi esse mesmo que imaginam, com Affleck e Lopez a verem a qualidade dos seus desempenhos reconhecida. Nem todas as decisões da lista são incontestáveis (não me parece que os efeitos de "Hulk" sejam assim tão maus), até porque, na categoria "Filme Mais Sobrestimado", seria impossível não ofender ninguém. Enfim, sempre é uma alternativa à avalanche de comentários acerca das estatuetas (os prémios de The Stinkers são simbolizados por sanitas, se não me engano).

terça-feira, fevereiro 17, 2004

Ainda não

Examinando o cartaz desta semana dos cinemas da região de Lisboa, verifica-se que "Portugal SA", de Ruy Guerra, nunca ocupa todas as sessões diárias das várias salas nas quais é exibido (sendo limitado frequentemente a uma ou duas projecções). A fita, produzida por Tino Navarro, vai apenas na sua terceira semana no circuito comercial. Parece que ainda não é desta que Navarro volta aos grandes êxitos dos anos 90.
Não vi ainda "Portugal SA" (nestas condições, vai ser difícil), por isso não posso julgar a sua qualidade, mas é curioso notar o aparente insucesso da película, tendo em conta que, ao contrário do que é habitual com o cinema português, a obra foi amplamente publicitada antes da sua estreia, nas salas, na imprensa (a Lusomundo, distribuidora do filme, possui várias publicações), na televisão ("teasers" exibidos na RTP) e até nas ruas e subterrâneos de Lisboa. O conteúdo da obra é claramente comercial e legível pelo grande público.
No entanto, os artigos acerca do último trabalho de Guerra foram poucos e a crítica esteve longe de o receber com carinho e compreensão. Nos "sites" especializados (7ª Arte, Cinema2000, C7nema), os comentários são escassos ou geralmente negativos (mesmo muito negativos, em alguns casos). Não existem, por enquanto, estatísticas, mas certamente que "Portugal SA" será um dos filmes portugueses mais vistos em 2004. O que não é nada de fantástico.
Com publicidade, distribuição e actores conhecidos (nomeadamente Diogo Infante), o que falhou? Em 2003, "A Mulher que Acreditava...", de João Botelho (esse inimigo férreo do actual cinema anglo-saxónico), esteve envolvido em circunstâncias semelhantes (incluindo os cartazes no Metro, com a fotografia da protagonista) e acabou por não gerar barulho ou simpatias. Que força invisível impossibilita o aparecimento de "blockbusters" portugueses? Mistério...

Spielberg tricampeão

Finalmente foram divulgados os resultados da votação na qual os visitantes do Cinema2000 puderam selecccionar os melhores filmes estreados em Portugal no ano de 2003. E o vencedor é, tal como em 2001 ("AI - Inteligência Artificial") e 2002 ("Relatório Minoritário"), Steven Spielberg, com "Apanha-me se Puderes" (em 2000, ao não estrear qualquer filme, Spielberg deixou o caminho livre para "Magnólia", o vencedor desse ano).
O povo português (mais exactamente, 122 dos seus membros) decidiu. A sua escolha revela poucas surpresas (Eastwood, Lee, Von Trier, Van Sant, Tarantino entre os primeiros), não havendo grandes concessões ao cinema "comercial" nem à produção lusitana. Será esta amostra representativa do que se passa nas bilheteiras (sobretudo nas bilheteiras de cinemas fora de Lisboa e não pertencentes ao grupo Medeia), ainda para mais quando o número de votantes diminuiu em relação ao ano anterior? Ou sou só eu que estou chateado porque os filmes que prefiro nunca ganham? Certo é que os detractores incondicionais do realizador de "Tubarão" parecem constituir um grupúsculo minoritário incapaz de lutar contra a tirania da maioria. Spielberg não só é o realizador americano mais famoso como é aquele cuja obra alcança um público maior e mais heterogéneo.
A nível dos piores filmes (desta vez também contemplados pelo Cinema2000) do ano passado, o mais mencionado nas escassas listas foi "Matrix Revolutions" ("Matrix Reloaded" não ficou entre os 20 mais), provavelmente por ter sido aquele que muitos foram "forçados" a ver e que defraudou profundamente as expectativas do público. Quem imaginaria esse fracasso há um ano?

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Tóquio

“Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho”

O que há de errado, mal feito, tremendamente ofensivo no segundo filme de Sofia Coppola? Ao contrário do que muita gente pensa, não é a sua falta de “verbalidade racional intrínseca”. É… bem… nada de importante (o ritmo da fita é por vezes lento, mas não é propriamente o tipo de história que envolva sexo, tiros e explosões). Acima de tudo, é uma obra de imenso bom gosto e por isso conquistou a admiração da crítica e do público. A nível de Óscares, não seria disparatado se ganhasse as estatuetas de Melhor Actor e Melhor Realizador.
“O Amor é um Lugar Estranho” (que poético) conta com uma banda sonora espantosamente envolvente combinada de forma bastante hábil com as imagens. As cenas de humor fogem ao exagero (nada de gritar aos espectadores: “Agora riam-se às gargalhadas”) e ao despropósito (não me parece que exista a intenção de caricaturar a cultura japonesa, mas apenas de destacar a inadaptação dos dois americanos ao ambiente local), com Anna Faris, agora sim, a divertir com a sua personagem. Bill Murray e Scarlett Johansson são inesquecíveis, tal como numerosos planos de Tóquio, captados com mão de mestre por Coppola. E o final, claro, só podia ser aquele. Nada a acrescentar.
Eis um filme que pode agradar quer aos fãs do cinema “intelectual” e inteligente quer a qualquer um que não se importe de assistir a uma história romântica (?) sem clichés. “O Amor é um Lugar Estranho” tornou Sofia Coppola uma cineasta de culto.
A melhor cena: Um táxi transporta Bob para o aeroporto.
A pior cena: Bob faz a barba.

Nota: 8/10.

P.S. Foi difícil, mas atingimos as 5000 visitas. Àqueles que (ainda) não nos abandonaram para sempre durante este difícil período de crise, o nosso muito obrigado.

sábado, fevereiro 14, 2004

Urina

“Scary Movie 3 – Outro Susto de Filme”

Se bem se lembram, em 2000 os irmãos Wayans, um grupo de actores e cineastas praticamente desconhecidos até então, fizeram sensação nas bilheteiras americanas com o seu “Scary Movie – Um Susto de Filme” (realizado por Keenan Ivory), uma comédia parodiando os filmes de terror adolescente (com “Gritos” como principal fonte de inspiração) e muitos outros, recorrendo a um humor nada subtil que fez os Farrelly parecer uns caretas. Em Portugal, o filme teve boa recepção, a avaliar pelas reacções do público que assistiu à sessão a que eu fui (uma cena envolvendo imenso esperma gerou uma manifestação única de histeria colectiva). Os Wayans lançaram-se imediatamente na produção de uma sequela, mas em 2001 o êxito não os bafejou da mesma forma. A direcção do projecto “Scary Movie 3” foi por isso entregue a novos argumentistas e ao realizador David Zucker, que não era propriamente um estreante na comédia. Com o irmão Jerry e Jim Abrahams, tinha formado o trio ZAZ, criador de “Aeroplano” (1980) e “Aonde é que Pára a Polícia” (1988), clássicos do género “comédia “nonsense” a gozar com os clichés de outros filmes a um ritmo de trinta “gags” por segundo”. Seria de esperar, portanto, uma renovação da série e uma abordagem divertida das produções recentes de Hollywood.
A verdade é que o terceiro “Scary Movie” deixa saudades do esperma dos Wayans (aqui substituído pela urina). A ligação com os outros filmes da série é feita pela protagonista, Anna Faris, e pelo tipo de humor predominante (piadas sobre órgãos sexuais masculinos e femininos, flatulência, negros, homossexuais, etc.). As obras que servem de referência ao filme de Zucker incluem, entre outras, “The Ring – O Aviso”, “Sinais”, “8 Mile” e os dois primeiros capítulos da saga “Matrix” (tendo em conta que “Matrix Reloaded” estreou em Maio e “Scary Movie 3” em Outubro do ano passado, é de destacar a actualidade do argumento), cujas cenas mais marcantes os actores recriam. É divertido? Nem por isso. Contam-se pelos dedos de uma mão as gargalhadas que a obra proporciona. A fita acaba por ser vítima da quantidade tremenda de piadas que apresenta sem um fio condutor decente que as ligue.
Leslie Nielsen procura remeter para o passado de Zucker e existem algumas ideias interessantes (as cenas com chamadas telefónicas, o padre pedófilo, Michael Jackson, etc.), mas são escassas num conjunto que simplesmente não funciona e é frequentemente previsível. O filme vê-se num abrir e fechar de olhos, mas não é por falta de tempo que não agarra o espectador. O primeiro “Scary Movie” ao menos ficou na história recente do cinema graças ao esperma. O terceiro tem pouco ou nada que o salve do esquecimento. Ah, sim, esperem, há a madre Teresa (numa cena mais absurda que provocadora), mas não é a mesma coisa.
A melhor cena: Michael Jackson é atacado por Tom Logan.
A pior cena: A tentativa de ressurreição.

Nota: 4/10.

P.S. A avaliar pela publicidade que antecedeu a projecção, o futuro próximo das salas da Lusomundo não é muito risonho. Os “trailers” de “A Filha do Meu Patrão”, “Pago para Esquecer” e “Desaparecidas” são de fugir.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Pipocas rascas

Enquanto as nomeações para os Óscares causam forte debate, decorre nos EUA uma análise ligeiramente diferente da produção cinematográfica de 2003. Assim, vários filmes condenados ao esquecimento perpétuo recebem a oportunidade de um instante de glória através da nomeação para listas das piores "coisas" projectadas nas salas americanas no ano passado.
Além dos Razzies, existe The Stinkers, uma iniciativa promovida por um grupo de cinéfilos sempre atentos ao pior que Hollywood tem para oferecer. Os prémios por eles atribuídos incluem, além das categorias habituais (Pior Filme, Pior Actor Principal, etc.), inovações como Pior Falso Sotaque, Personagem Não-Humano Mais Irritante ou o polémico Filme Mais Sobrestimado. Além do rol de nomeados relativo a 2003, o site inclui as escolhas dos últimos 25 anos e as últimas novidades no que toca a longas-metragens de qualidade duvidosa.
As opiniões do grupo são sempre contestáveis, mas, avaliando pelas descrições dos filmes seleccionados, sente-se alívio por muitas fitas americanas não chegarem a Portugal ou ficarem confinadas aos videoclubes.

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Palmadas

“A Secretária”, de Steven Shainberg

É isto o cinema "indie"? Poucos cenários e personagens, ritmo sem pressas, diálogos acompanhados por silêncio, temas politicamente incorrectos, nus (femininos) integrais... Não é melhor ou pior que o convencional, é sobretudo diferente. Com estes elementos, é possível produzir um disparate completo, mas não é esse o caso de "A Secretária".
Contado depressa, o argumento da fita não parece excessivamente original: trata-se da história da relação entre um advogado (James Spader) e a sua secretária (Maggie Gyllenhaal) e os avanços e retrocessos que conhece até ao final feliz. Enfim, uma comédia romântica. Visto de perto, é no mínimo curioso, não só por causa da abundância de cenas de sexo (não pensem, no entanto, que a obra se aproxima do porno), mas acima de tudo pelo seu conteúdo sado-masoquista (uma palavra que chama a atenção). Pronto, foi isso que retirou o filme do anonimato. Mas o realizador nunca nos mostra a acção de forma obscena ou desastrada (o erotismo é aqui, geralmente, mais subtil que explícito), construindo uma verdadeira história de amor, para lá da sua bizarria.
Maggie Gyllenhaal (fixem o nome) tem um desempenho fabuloso, quanto mais não seja pela maneira como se expõe. Spader também merece elogios (a serenidade aparente é a imagem de marca da sua personagem).
Apesar da sua evolução por vezes vagarosa e de personagens secundárias mal exploradas, temos aqui uma história com pés e cabeça. "A Secretária" (dificilmente exibível nas tardes televisivas de domingo) constitui uma alternativa credível aos "blockbusters".
A melhor cena: Várias pessoas visitam Lee durante a sua "greve".
A pior cena: Mulheres conversam à beira da piscina.

Nota: 7/10.



sexta-feira, janeiro 30, 2004

Autoria e comércio

Sem receio da polémica, Anabela Mota Ribeiro, depois de experiências traumáticas passadas num centro comercial, defende a distinção clara entre as salas que exibem cinema de autor, independente, ou simplesmente de qualidade e aquelas que divulgam obras comerciais e banais, normalmente americanas.
Os ambientes vividos nestes dois tipos de cinemas são muito diferentes, sobretudo quanto ao comportamento do público. O alvo de Ribeiro são, assim, os espaços que procuram combinar obras puramente artísticas com "blockbusters". Em Lisboa, que eu conheça, podem ser citados os exemplos dos multiplexes Alvaláxia, Monumental e Mundial, que misturam na sua programação longas-metragens dos dois géneros.
Parece-me exagerada a separação radical entre "bom" cinema, proveniente de todo o mundo, e "mau" cinema, produzido em Hollywood. É possível gostar tanto de um como de outro, até porque o cinema-pipoca, procurando sobretudo falar ao público e distraí-lo, pode também deter qualidade técnica e narrativa aceitável. Nem sempre nos apetece ver uma história profunda. É verdade que é muito positiva a diversificação da oferta cinéfila, mas não faz sentido pôr de lado o cinema "dependente" da terra dos Bush. Quanto ao espírito "futebolístico" de certos espectadores, não tem muito a ver com o cartaz das salas, mas sobretudo com hábitos culturais. Há cromos por toda a parte.
Não faz sentido barricarmo-nos no King ou no Nimas. Um multiplex como o Monumental oferece tanto do melhor (ou perto disso) que chega de terras europeias ou asiáticas como do hediondo cinema comercial americano (no qual Ribeiro parece incluir cineastas de talento como Spielberg ou Soderbergh). Quanto à barbárie das multidões pipoqueiras, o melhor é afastarem-se das salas da Lusomundo (excepto no caso de uma fita interessante que só esteja lá, é claro).

domingo, janeiro 25, 2004

O que ficou perdido em traduções?

O último filme de Sofia Coppola é algo que tem de ser descoberto. Um filme com um sentido de humor tão minimalista quanto genial. O argumento assenta sobre os pequenos elementos, sobre os pequenos detalhes dos rostos, dos corpos e sobretudo de Tokyo, aqui possivelmente retratada com há muito não se via uma metrópole num filme.
Os actores são a força do filme. Bill Murray é genial, minimalista e oferece uma força dramática ao que não diz, fazendo a sua interpretação dos olhares e à sua linguagem corporal.
Scarlett Johansson é tal como Murray soberba, tanto mais quando se pensa que ela tem dezanove anos. Consegue dar à sua personagem uma maturidade invulgar e ao mesmo tempo uma fragilidade que possibilita que as duas personagens combinem.
Sofia Coppola é talentosa, filma tudo com planos belissímos, é vai do mais arrojado ao mais minimalista com a segurança dos grandes mestres.
O primeiro clássico do ano que poderia naturalmente concorrer aos prémios principais como Filme, Realizador, Actor e Actriz Principal e argumento, mas o seu cariz independente feito em 27 dias não o vai permitir.

5- (0-5)

Resposta:
Possivelmente foi o amor

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Estrelas

Ao que parece, Scarlett Johansson, a jovem actriz de "Lost in Translation" e "A Rapariga do Brinco de Pérola", está a causar forte sensação em Hollywood. E isso quer dizer chuva de projectos, cobertura mediática, etc. Parece ter sido criada uma nova estrela.
O que é uma estrela de cinema? Dispensando interpretações sociológicas, trata-se de um homem ou uma mulher, com beleza e talento para representar (consensual ou não) que dá nas vistas através de um trabalho esforçado numa ou mais fitas de média dimensão que se tornam êxitos surpreendentes. Despertada a atenção do público e da crítica, o indivíduo passa a obter papéis de peso crescente, até se tornar o centro gravitacional das fitas em que participa, ocupando o seu rosto não menos de 87% do espaço do cartaz publicitário. Conhecida por todos através da reprodução do seu nome e da sua imagem em revistas especializadas e, depois, em todo o tipo de publicações, que seguem a sua vida privada, a criatura torna-se uma fonte tremenda de receitas para os estúdios, confiantes na multidão de fãs, que podem mesmo salvar do fracasso projectos medíocres nos quais se enfie o ídolo.
Este modelo, do qual são Tom Cruise e Julia Roberts são os máximos representantes nos EUA, acaba por não ser reproduzido com excessiva frequência. Nos últimos quatro anos, ao lote de actores "pesados" da indústria americana acrescentaram-se, em ritmo moderado, nomes como Halle Berry, Vin Diesel, Kirsten Dunst ou Reese Witherspoon. Talvez uns dois actores por ano entrem para a nossa memória comum. A renovação não é, assim, demasiado visível nos "blockbusters".
Em Portugal, um país pequenino e sem indústria cinematográfica, as caras que surgem no grande ecrã não são, geralmente, diferentes das que aparecem no pequeno. No que ao cinema diz respeito, nesse período de quatro anos, irrompeu, talvez, Beatriz Batarda (acarinhada por alguma imprensa), mas o tipo de filmes em que entra por cá leva a que ainda esteja longe de se ver numa fotografia de corpo inteiro com o seu nome por cima da cabeça e o título colorido de uma fita à frente.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Novidades, nem só no Continente

Depois de muito tempo sem postar, aproveito para chamar a atenção para dois novos (ou, pelo menos, infelizmente só agora os descobri) blogues portugueses sobre cinema (com espaço para comentários) que prometem dar que falar, pela informação contida nos textos e pelo recurso frequente a imagens e meios audiovisuais.
O Divã do Cinéfilo, filial de um blogue generalista, apresenta-nos alguns "posts" do misterioso PM (que teve a gentileza de se lembrar de nós), abordando quer apreciações críticas de longas-metragens (neste caso, "O Último Samurai", alvo de fortes elogios) quer notícias (e conjecturas) sobre os "blockbusters" aracnídeos que aí vêm.
Depois da obscuridade do seu anterior espaço, Tiago Costa ressurge em força através de About Movies, com um visual e conteúdos mais atractivos e completos, sendo de destacar não só o "top 2003" ilustrado como as novidades sobre "The Passion of Christ". Todos ficaremos a ganhar com uma participação mais frequente do bloguista.


quinta-feira, janeiro 15, 2004

Censura: sim ou não?

É uma boa notícia que a obra integral de Tex Avery seja editada em DVD. Eu vi (quando a RTP2 as exibia) algumas das curtas-metragens de animação produzidas nos anos 40 e 50 por esse realizador e posso garantir que se tratam das comédias mais originais e divertidas já produzidas em cinema, bem melhores que as dos Looney Tunes (em cuja criação Avery colaborou). O ritmo alucinante, o humor "nonsense" e o conteúdo politicamente incorrecto dos argumentos, em que os próprios heróis nem sempre são impolutos, resultam numa obra de génio (muito apreciada pela crítica). O problema é que a Warner recorreu à censura para impedir que as fitas mais marcadas pelo "espírito do tempo" surgissem na colectânea. Para além de os delírios de Avery não serem 100% destinados às crianças, não seria melhor integrar as situações mais polémicas no seu contexto histórico e mostrar não só as qualidades mas também os defeitos do cineasta, de forma a que possa ser plenamente compreendido?

P.S. A revista C de Crítica, de que já aqui falei, regressou finalmente.

terça-feira, janeiro 13, 2004

Toneladas de pipocas vendidas

A Lusomundo revelou a lista das dez longas-metragens mais vistas nas suas salas (grande parte da oferta em Portugal) no passado ano de 2003. Que dizer? É certo que a Lusomundo não exibe todos os filmes que chegam a Portugal (evitando o mais possível aqueles que poderão ser elogiados pela crítica), mas este rol não deixa de constituir uma amostra importante. O êxito de "À Procura de Nemo" está longe de surpreender, o mesmo já não acontecendo com "Johnny English" (Portugal ama Rowan "Bean" Atkinson) ou com obras que foram fuziladas nos poucos artigos sobre elas escritas, como "Velocidade Mais Furiosa" e "Lara Croft: O Berço da Vida".
Sequelas de grandes sucessos costumam ser grandes sucessos também. O público é menos exigente que os críticos que o "representam". A publicidade é mais importante que as referências na imprensa (especializada ou não). Uma boa distribuição é decisiva para que uma fita chegue a muita gente. Os jovens são reis e senhores nas bilheteiras. Há mais conclusões óbvias e simples que se possam tirar?

P.S. Não sei como, mas ontem ultrapassámos as 4000 visitas. Obrigado a quem costuma parar por cá uns segundos.