"A Paixão de Cristo", de Mel Gibson
Avaliando a fita como obra artística, "A Paixão de Cristo" é um bom filme? Sim. O realizador Mel Gibson mostra talento (exceptuando o uso por vezes excessivo da câmara lenta), a fotografia e a banda sonora constroem na perfeição o ambiente dramático, o uso do latim e do aramaico, que de início parecia uma excentricidade, revela-se um verdadeiro achado (seria terrível para a credibilidade da produção ouvir actores falar inglês com sotaque italiano) e as interpretações de Jim Caviezel (uma nova estrela?) e Maia Morgenstern são incrivelmente poderosas, dominando a obra do início ao fim (as personagens secundárias são geralmente limitadas). Seguindo à risca as Escrituras (embora ficcionando aqui e ali), Gibson cria um "blockbuster religioso" (Fernando Campos) convincente, embora algo fechado aos não-cristãos.
Outra pergunta corrente é: o filme é anti-semita? Não. Limita-se a seguir os Evangelhos e não distingue claramente os judeus como grupo a acusar e desprezar, mas essa suspeita pode ter sido incentivada pela facilidade irritante com que Gibson identifica os maus da fita (Caifás, Barrabás, os soldados romanos que flagelam Jesus, um dos dois outros crucificados, o próprio Diabo, etc.), desenhados de forma superficial.
O filme é demasiado violento? Sim. É certo que a intenção era mostrar tudo o que Jesus sofreu para remir os pecados humanos, mas durante longos períodos é só isso que "A Paixão..." tem para mostrar: o sofrimento de Cristo, sem nada que o enquadre. As cenas mais chocantes tornam-se aborrecidas. Quanto à função evangelizadora, a verdade é que os "flash-backs" nos quais se recriam as citações mais famosas de Cristo são bem mais comoventes que o corpo do protagonista a escorrer sangue.
Valeu a pena fazer esta nova adaptação dos Evangelhos? Em termos financeiros, claro que valeu. Quanto ao lado artístico, reconheça-se que se produziu uma obra de grande impacto visual e intensidade emocional que é necessário ver, apesar dos seus exageros.
A melhor cena: Maria aproxima-se de Jesus quando este cai ao transportar a cruz.
A pior cena: O "mau ladrão" é bicado por um corvo.
Nota: 6/10.
terça-feira, março 30, 2004
sexta-feira, março 26, 2004
A Paixão segundo o ICAM
O ICAM divulgou a lista dos 20 filmes mais vistos nos cinemas portugueses entre 11 e 17 de Março de 2004, indicando, como é hábito, a receita e o número de espectadores das produções (não deixando de apontar em quantas salas foram exibidas durante a semana). Este período assume particular interesse por ser a primeira semana de “A Paixão de Cristo”, o filme-fenómeno de Mel Gibson, no circuito comercial português. A imprensa já tinha noticiado uma forte afluência de espectadores desejosos de ver se a obra era mesmo muito, muito violenta ou simplesmente muito violenta. O “Diário de Notícias” de 16 de Março anunciava que “O filme de Mel Gibson ‘A Paixão de Cristo’ fez mais de 100 mil espectadores nos primeiros 4 dias de exibição em Portugal”. A 23 de Março, o “Público” afirmava que “Logo na primeira semana, 105 mil espectadores viram o filme”.
Assim, os dados do pdf apresentado pelo ICAM revelam que “A Paixão de Cristo”, exibido em 22 salas, teve nessa semana 84.501 espectadores. Obteve o primeiro lugar da tabela, claro, mas a cifra não é tão esmagadora quanto os jornais citados fazem crer (é verdade que ainda nem todas as salas de cinema portuguesas fornecem as suas estatísticas ao ICAM, mas como se explica que a imprensa tenha dados diferentes?). Quanto ao resto da tabela, destaque para o segundo e terceiro classificado, respectivamente “Alguém Tem que Ceder” (presente em mais salas que a obra de Gibson), líder das duas semanas anteriores, com 36.568 bilhetes vendidos, e esse produto alvo de tanta atenção da crítica, “Torque – A Lei do Mais Rápido” (21.418). A partir daí, os números são modestos (a grande estreia pode ter obscurecido as outras fitas em cartaz). Curioso é o regresso de “Matrix Revolutions” (14º lugar), projectado em duas salas e visto por 3.414 almas (339.158 desde a estreia, já agora). Assim vão as bilheteiras da nossa nação.
Assim, os dados do pdf apresentado pelo ICAM revelam que “A Paixão de Cristo”, exibido em 22 salas, teve nessa semana 84.501 espectadores. Obteve o primeiro lugar da tabela, claro, mas a cifra não é tão esmagadora quanto os jornais citados fazem crer (é verdade que ainda nem todas as salas de cinema portuguesas fornecem as suas estatísticas ao ICAM, mas como se explica que a imprensa tenha dados diferentes?). Quanto ao resto da tabela, destaque para o segundo e terceiro classificado, respectivamente “Alguém Tem que Ceder” (presente em mais salas que a obra de Gibson), líder das duas semanas anteriores, com 36.568 bilhetes vendidos, e esse produto alvo de tanta atenção da crítica, “Torque – A Lei do Mais Rápido” (21.418). A partir daí, os números são modestos (a grande estreia pode ter obscurecido as outras fitas em cartaz). Curioso é o regresso de “Matrix Revolutions” (14º lugar), projectado em duas salas e visto por 3.414 almas (339.158 desde a estreia, já agora). Assim vão as bilheteiras da nossa nação.
segunda-feira, março 22, 2004
E saí um dvd!
Realmente isto dos dvd está a deixar tudo doido. Agora um quiosque tem mais dvds que jornais sendo que em qualquer lugaraparece uma pequena fnac.
Posso afirmar que sou um comprador de dvds bastante regular e tendo em conta o mercado que a internet cada vez mais possibilita asseguro que comprar logo assim que se vê em Portugal é um tremendo erro. Os preços praticados pelas lojas em Portugal (exceptuando as cada vez mais frequentes promoções) são cerca de 1/3 mais caras que no estranjeiro já contando com os portes de correio. E isto assegura qualidade? Pois esse é o grande problema... Dividindo o problema temos:
1) Erros nas capas
2) Pessimos desenhos e montagens para as mesmas
3) Legendagem em Português quase brasileiro (ver por ex. a Alien Quadiology)
4) Extras sem legendas
5) Filmes em Português sem legendas para deficientes auditivos
Para não falar de outros erros pontuais, a diferença de preços não compensa minimante.
Posso afirmar que sou um comprador de dvds bastante regular e tendo em conta o mercado que a internet cada vez mais possibilita asseguro que comprar logo assim que se vê em Portugal é um tremendo erro. Os preços praticados pelas lojas em Portugal (exceptuando as cada vez mais frequentes promoções) são cerca de 1/3 mais caras que no estranjeiro já contando com os portes de correio. E isto assegura qualidade? Pois esse é o grande problema... Dividindo o problema temos:
1) Erros nas capas
2) Pessimos desenhos e montagens para as mesmas
3) Legendagem em Português quase brasileiro (ver por ex. a Alien Quadiology)
4) Extras sem legendas
5) Filmes em Português sem legendas para deficientes auditivos
Para não falar de outros erros pontuais, a diferença de preços não compensa minimante.
domingo, março 21, 2004
Não ver este filme é Pekar!!!!!!!!!!
O filme American Splendor é desde já a maior surpresa do Ano.
Este filme que é um filme de ficção e documentário da mesma "estranha" maneira que a BD, é único, pessimista e obrigatório. Possivelmente a melhor e mais original (possivelmente complexa) adaptação de um comic ao cinema.
O argumento pecou por existir um Senhor dos Aneís em ano de supremacia forçada, uma vez que este é a meu ver o melhor argumento adaptado do ano de 2003.
Tudo é perfeito, desde o magnífico trabalho dos actores ao estranho e genial trabalho de realização.
Nada como ver este filme para respirar um pouco de ar puro e deixar de lado o tradicional blockbuster com a pipoca regada a coca-cola.
Classificação: 5 (0-5)
Este filme que é um filme de ficção e documentário da mesma "estranha" maneira que a BD, é único, pessimista e obrigatório. Possivelmente a melhor e mais original (possivelmente complexa) adaptação de um comic ao cinema.
O argumento pecou por existir um Senhor dos Aneís em ano de supremacia forçada, uma vez que este é a meu ver o melhor argumento adaptado do ano de 2003.
Tudo é perfeito, desde o magnífico trabalho dos actores ao estranho e genial trabalho de realização.
Nada como ver este filme para respirar um pouco de ar puro e deixar de lado o tradicional blockbuster com a pipoca regada a coca-cola.
Classificação: 5 (0-5)
sexta-feira, março 19, 2004
Alternativas
Estreou ontem em Espanha o novo filme de Pedro Almodóvar, "La Mala Educación". O aparecimento de uma obra de um cineasta de culto é sempre de realçar, até porque, politicamente correcto como sempre, Almodóvar aborda desta vez temas como a Igreja Católica e a pedofilia. Em Maio, "La Mala Educación" chega a Portugal. Voltarão os aplausos gerais que acolheram as anteriores duas longas-metragens deste realizador? A propósito de Almodóvar, chegou recentemente ao mercado de vídeo/DVD um dos seus dramas (só são classificados como comédias devido à "anormalidade" das personagens criadas por Almodóvar) mais bizarros, "Kika" (1993). A extravagância da narrativa e da realização é por vezes exagerada (a sequência da violação... só vista) e alguns diálogos arrastam-se um pouco, mas trata-se de uma daquelas obras que, com um ou outro defeito, divertem imenso, precisamente por serem tão diferentes e "alternativas". Há só um momento que, actualmente, não é muito agradável por motivos exteriores ao filme: uma cena filmada na estação de Atocha (um pouco como todas as fitas, sobretudo as mais recentes, que mostram o WTC de pé)...
O cinema Mundial fechou as portas por falta de segurança das salas e, sobretudo, pelas escassas receitas da bilheteira. A diversidade do mercado lisboeta sofreu um golpe e a Lusomundo eliminou a anomalia na sua máquina de venda de pipocas (a qualidade do espaço não era, de facto, impressionante, mas a programação detinha originalidade, obrigando os críticos a suportar o cheiro do milho).
O cinema Mundial fechou as portas por falta de segurança das salas e, sobretudo, pelas escassas receitas da bilheteira. A diversidade do mercado lisboeta sofreu um golpe e a Lusomundo eliminou a anomalia na sua máquina de venda de pipocas (a qualidade do espaço não era, de facto, impressionante, mas a programação detinha originalidade, obrigando os críticos a suportar o cheiro do milho).
quarta-feira, março 17, 2004
Factos e palpites
No meio da blogosfera cinéfila, há espaços que adoptam um conteúdo sobretudo informativo, divulgando as notícias/rumores mais recentes sobre o mundo da 7ª Arte (filmes que irão ser feitos, filmes que talvez venham a ser feitos, filmes que afinal não vão ser feitos, festivais de cinema, Óscares e derivados, etc.), e outros que apostam quase exclusivamente em textos opinativos, dando os seus autores a conhecer o prazer ou a repulsa que determinada obra cinematográfica por eles visionada lhes provocou. O melhor será combinar essas duas tendências, exercendo a doce função da crítica mas mantendo alguma atenção à actualidade da produção de fitas, sempre com uma visão pessoal.
Alguns sites interessantes seguem habilmente essa orientação, como o Cineblog, de JB Martins (actualizado diariamente e com uma pesquisa bastante completa dos últimos "trailers" e novidades disponibilizados ao público, mas também com boas críticas a filmes no cinema ou em vídeo/DVD, além de uma lista útil de "links" para outros blogues da mesma área temática) ou o Cinemaonline, de Tiago Teixeira (aqui valorizando sobretudo a informação, transmitida em artigos extensos, e por isso publicados de forma mais ou menos irregular, mas detendo uma perspectiva crítica acerca de factos como a entrega dos Óscares ou a introdução do "ranking" das bilheteiras portuguesas).
No nosso caso, vamos fazendo alguns comentários supostamente divertidos acerca do contexto que envolve os últimos filmes (como passar ao lado, por exemplo, da expectativa em torno de "A Paixão de Cristo", que já conta com mais de 100 mil espectadores em Portugal?), mas um pouco ao acaso, reconheço, sendo por isso aconselhável visitar os "links" à direita e blogues como os atrás referidos para ter uma panorâmica actualizada do cinema tal como é visto no nosso país.
Alguns sites interessantes seguem habilmente essa orientação, como o Cineblog, de JB Martins (actualizado diariamente e com uma pesquisa bastante completa dos últimos "trailers" e novidades disponibilizados ao público, mas também com boas críticas a filmes no cinema ou em vídeo/DVD, além de uma lista útil de "links" para outros blogues da mesma área temática) ou o Cinemaonline, de Tiago Teixeira (aqui valorizando sobretudo a informação, transmitida em artigos extensos, e por isso publicados de forma mais ou menos irregular, mas detendo uma perspectiva crítica acerca de factos como a entrega dos Óscares ou a introdução do "ranking" das bilheteiras portuguesas).
No nosso caso, vamos fazendo alguns comentários supostamente divertidos acerca do contexto que envolve os últimos filmes (como passar ao lado, por exemplo, da expectativa em torno de "A Paixão de Cristo", que já conta com mais de 100 mil espectadores em Portugal?), mas um pouco ao acaso, reconheço, sendo por isso aconselhável visitar os "links" à direita e blogues como os atrás referidos para ter uma panorâmica actualizada do cinema tal como é visto no nosso país.
sexta-feira, março 12, 2004
Os dez magníficos
Merece aplausos a iniciativa (que só peca por tardia) do ICAM de, através de um acordo estabelecido com as distribuidoras, calcular e divulgar ao público (todas as sextas-feiras, no "site" do ICAM e, espero, na imprensa) as receitas dos filmes mais vistos em Portugal na semana anterior, tal como se faz nos restantes países da UE. O “Público” de hoje apresenta um primeiro exemplo, consistindo no “top 10” do período entre 26 de Fevereiro e 3 de Março deste ano.
Assim, na antepenúltima semana cinéfila, só “Alguém Tem que Ceder” obteve resultados impressionantes (54.748 espectadores e 228.391,45 milhares de euros de receita), ficando bem longe do segundo classificado, “Scary Movie 3 – Outro Susto de Filme”, com apenas 25.148 bilhetes vendidos (embora se deva ter em conta que a obra de David Zucker se encontrava já na sua terceira semana de exibição). A seguir na lista encontram-se, sem grandes surpresas, as fitas estreadas ultimamente nos multiplexes, com “Pago para Esquecer”, projectado em mais salas (39) que qualquer outro dos membros do “top”, na terceira posição e “Cold Mountain” em quarto lugar. Já no final, temos dois casos de cinema americano mais “minoritário”, com “O Amor é um Lugar Estranho” e “Monstro” (exibidos, respectivamente, em 7 e 8 salas). A obra de Sofia Coppola, provavelmente beneficiada pelos Óscares, parece deter uma longevidade nos cinemas digna de registo.
Isto é óptimo. Vamos a ver as semanas seguintes. Só há o problema de passarem a haver provas de que raramente uma longa-metragem portuguesa sai do quase anonimato.
Assim, na antepenúltima semana cinéfila, só “Alguém Tem que Ceder” obteve resultados impressionantes (54.748 espectadores e 228.391,45 milhares de euros de receita), ficando bem longe do segundo classificado, “Scary Movie 3 – Outro Susto de Filme”, com apenas 25.148 bilhetes vendidos (embora se deva ter em conta que a obra de David Zucker se encontrava já na sua terceira semana de exibição). A seguir na lista encontram-se, sem grandes surpresas, as fitas estreadas ultimamente nos multiplexes, com “Pago para Esquecer”, projectado em mais salas (39) que qualquer outro dos membros do “top”, na terceira posição e “Cold Mountain” em quarto lugar. Já no final, temos dois casos de cinema americano mais “minoritário”, com “O Amor é um Lugar Estranho” e “Monstro” (exibidos, respectivamente, em 7 e 8 salas). A obra de Sofia Coppola, provavelmente beneficiada pelos Óscares, parece deter uma longevidade nos cinemas digna de registo.
Isto é óptimo. Vamos a ver as semanas seguintes. Só há o problema de passarem a haver provas de que raramente uma longa-metragem portuguesa sai do quase anonimato.
Blockbuster Religioso
Tenho visto com curiosidade os números do filme de Gibson nas bilheteiras americanas e vejo um novo género surgir no cinema Mundial: Blockbuster Religioso.
Depois deste Paixão de Cristo, teremos de esperar para ver o que se seguirá nesta façanha de criar filmes religiosos que ganham 200 milhões de dólares em quinze dias.
Possivelmente uma produção chinesa "A Levitação de Buda" por Jonh Woo e a produção Israelo-Americana "A Montanha de Mahommed" por M. Night Shyamalan.
Depois deste Paixão de Cristo, teremos de esperar para ver o que se seguirá nesta façanha de criar filmes religiosos que ganham 200 milhões de dólares em quinze dias.
Possivelmente uma produção chinesa "A Levitação de Buda" por Jonh Woo e a produção Israelo-Americana "A Montanha de Mahommed" por M. Night Shyamalan.
quarta-feira, março 10, 2004
Opiniões convergentes
Sem nada para criticar de momento, deixo-vos com duas das recensões já publicadas acerca do fenómeno que estreia amanhã. Nuno Centeio e Tiago Pimentel dedicam algumas linhas à obra de Gibson, embora não pareçam falar do mesmo filme. Ao entusiasmo católico de Centeio, provocado pela fidelidade do argumento aos Evangelhos ("Assim diz a Bíblia"), Pimentel responde expressando como se sentiu enojado e insultado pelo simplismo e exagero da longa-metragem protagonizada por Jim Caviezel.
domingo, março 07, 2004
Cotas
“Alguém Tem que Ceder”, de Nancy Meyers
O objectivo de Meyers (também argumentista) é interessante: fazer uma comédia romântica na qual o par protagonista não seja formado por adolescentes ou “jovens adultos” (como a personagem de Amanda Peet neste filme) em plena fase de descoberta dos dramas e alegrias da vida, mas sim por um homem e uma mulher já com idade para ter juízo. A narrativa provaria que as rugas não impedem o estabelecimento de novos e profundos relacionamentos amorosos.
Dificilmente poderiam ter sido escolhidos melhores actores para concretizar esse projecto: Diane Keaton e Jack Nicholson, figuras carregadas de prestígio, actuam bem e possuem química entre si, encarnando personagens divertidas e bem construídas. No elenco restante, destaca-se o subaproveitamento de Frances McDormand e o escasso poder expressivo de Keanu Reeves.
Embora o ponto de partida seja bom e alguns momentos (a cena de sexo, os seios de Keaton e o rabo de Nicholson, por exemplo) provoquem verdadeiras gargalhadas, a evolução da história não é a melhor. O filme torna-se demasiado longo e convencional, deixando o espectador (pelo menos eu, já que esta comédia tem os seus fãs) a esperar ansiosamente o final. Certos mecanismos narrativos parecem forçados e pouco inspirados (como a ida de Erica para Nova Iorque), sendo cansativos os diálogos acerca do amor. Meyers acaba por não surpreender ninguém e repetir-se ao longo da fita.
O visionamento de "Alguém Tem que Ceder" em vídeo/DVD é mais adequado que a ida ao cinema, não só por causa do preço mas por permitir a concentração nas melhores cenas de Keaton e Nicholson e o abreviar das partes mais aborrecidas.
A melhor cena: Erica chora dias a fio.
A pior cena: Harry consulta Julian antes de voltar para Nova Iorque.
Nota: 5/10.
P.S. Vi os “trailers” de “A Paixão de Cristo” e “Shrek 2”. O primeiro permite compreender as “acusações” de influências de Tarantino na obra de Gibson, devido ao sangue um pouco por toda a parte (se a publicidade impressiona, imagine-se o filme). O segundo é realmente prometedor (“Já não falta muito, muito tempo”).
O objectivo de Meyers (também argumentista) é interessante: fazer uma comédia romântica na qual o par protagonista não seja formado por adolescentes ou “jovens adultos” (como a personagem de Amanda Peet neste filme) em plena fase de descoberta dos dramas e alegrias da vida, mas sim por um homem e uma mulher já com idade para ter juízo. A narrativa provaria que as rugas não impedem o estabelecimento de novos e profundos relacionamentos amorosos.
Dificilmente poderiam ter sido escolhidos melhores actores para concretizar esse projecto: Diane Keaton e Jack Nicholson, figuras carregadas de prestígio, actuam bem e possuem química entre si, encarnando personagens divertidas e bem construídas. No elenco restante, destaca-se o subaproveitamento de Frances McDormand e o escasso poder expressivo de Keanu Reeves.
Embora o ponto de partida seja bom e alguns momentos (a cena de sexo, os seios de Keaton e o rabo de Nicholson, por exemplo) provoquem verdadeiras gargalhadas, a evolução da história não é a melhor. O filme torna-se demasiado longo e convencional, deixando o espectador (pelo menos eu, já que esta comédia tem os seus fãs) a esperar ansiosamente o final. Certos mecanismos narrativos parecem forçados e pouco inspirados (como a ida de Erica para Nova Iorque), sendo cansativos os diálogos acerca do amor. Meyers acaba por não surpreender ninguém e repetir-se ao longo da fita.
O visionamento de "Alguém Tem que Ceder" em vídeo/DVD é mais adequado que a ida ao cinema, não só por causa do preço mas por permitir a concentração nas melhores cenas de Keaton e Nicholson e o abreviar das partes mais aborrecidas.
A melhor cena: Erica chora dias a fio.
A pior cena: Harry consulta Julian antes de voltar para Nova Iorque.
Nota: 5/10.
P.S. Vi os “trailers” de “A Paixão de Cristo” e “Shrek 2”. O primeiro permite compreender as “acusações” de influências de Tarantino na obra de Gibson, devido ao sangue um pouco por toda a parte (se a publicidade impressiona, imagine-se o filme). O segundo é realmente prometedor (“Já não falta muito, muito tempo”).
sábado, março 06, 2004
A Fnac viu e errou
Juntamente com a "Premiere" de Março, é distribuída uma publicação ("Filmes de Culto") da Fnac, com o objectivo de promover alguns dos títulos do "stock" de DVDs desta. As obras referidas encontram-se agrupadas por géneros, sendo apresentadas a capa e a sinopse de seis ou doze filmes de cada um. Tudo estaria quase perfeito (uma ou outra imprecisão nos textos) se não existissem no cabeçalho de cada género referências (limitadas ao título) a fitas que, por falta de espaço ou outro motivo qualquer, não merecem um destaque mais aprofundado.
Assim, em "Blockbuster", ficamos a saber que "A Fnac viu e gostou" de "Missão Impossível 3" (algo muito difícil, uma vez que, por enquanto, a série só conta com dois capítulos) e "Rambo" (é necessário perguntar qual deles, uma vez que o primeiro filme da personagem chama-se simplesmente "A Fúria do Herói"). Mais à frente, não deixa de ser polémica a inclusão de "Aonde é que Pára a Polícia?" em "Polícias" (afinal, trata-se de uma paródia a esse género) e de "Febre de Sábado à Noite" em "X-Rated" (?).
Não é tão grave como a contracapa da edição da Lusomundo de "Apocalypse Now Redux" (ver comentários mais abaixo), mas prova que nem a Fnac está imune a deslizes.
Assim, em "Blockbuster", ficamos a saber que "A Fnac viu e gostou" de "Missão Impossível 3" (algo muito difícil, uma vez que, por enquanto, a série só conta com dois capítulos) e "Rambo" (é necessário perguntar qual deles, uma vez que o primeiro filme da personagem chama-se simplesmente "A Fúria do Herói"). Mais à frente, não deixa de ser polémica a inclusão de "Aonde é que Pára a Polícia?" em "Polícias" (afinal, trata-se de uma paródia a esse género) e de "Febre de Sábado à Noite" em "X-Rated" (?).
Não é tão grave como a contracapa da edição da Lusomundo de "Apocalypse Now Redux" (ver comentários mais abaixo), mas prova que nem a Fnac está imune a deslizes.
terça-feira, março 02, 2004
Sono
No rescaldo dos Óscares, repetem-se as manifestações de tédio causado pela monotonia e previsibilidade da cerimónia, descrita por espectadores sonolentos como Nuno Centeio, observador atento do vestuário das actrizes presentes, ou Eurico de Barros, desiludido apenas por Michael Moore não ter sido esmagado na vida real (simpático como sempre...). Sem doses significativas de política ou "gaffes" e dominada pela glória da Nova Zelândia, a cerimónia não motivou mais que meia dúzia de frases. Como será para o ano?
Entretanto, "A Paixão de Cristo" converteu-se num enorme sucesso. Neste momento, a concorrência nas salas americanas não parece ser grande coisa, mas as receitas do filme de Gibson não deixam de causar sensação.
Entretanto, "A Paixão de Cristo" converteu-se num enorme sucesso. Neste momento, a concorrência nas salas americanas não parece ser grande coisa, mas as receitas do filme de Gibson não deixam de causar sensação.
segunda-feira, março 01, 2004
A festa de Hallywood
A comunicação social portuguesa não deixou de cobrir a expectativa que rodeou a cerimónia de entrega dos Óscares, inclusive através do trabalho de enviados especiais a Los Angeles. Foi o caso da RTP, que destacou para o local da notícia Pedro Bicudo, o seu correspondente nos EUA. No "Telejornal" de ontem, o diálogo em directo entre Bicudo e a pivô Judite de Sousa permitiu obter informações preciosas (nomeadamente acerca da dificuldade de fugir aos lugares-comuns nestas reportagens rotineiras e "divertidas"). Este ano, a presença da lusofonia entre as nomeações (Eduardo Serra e "Cidade de Deus") mereceu particular destaque. Na sua curiosa pronúncia (referiu-se frequentemente a "Hallywood"), Bicudo relembrou que Serra estava nomeado pelo seu trabalho em "Rapariga do Anel de Pérola" e contradisse Sousa (crente na nomeação do filme de Fernando Meirelles para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro) ao enumerar os quatro prémios que "Cidade de Deus" poderia ganhar, entre eles "Melhor Adaptação". Deslizes...
Quanto às estatuetas em si, vale a pena dizer que se obteve a lista de premiados mais previsível dos últimos anos. O triunfo absoluto da trilogia "O Senhor dos Anéis" acaba por ser justo, tendo em conta a dimensão e a qualidade do projecto coordenado por Peter Jackson. Alguns filmes de menor dimensão poderão, infelizmente, ter sido esquecidos imerecidamente devido ao poder do Anel. Destaque ainda para o prémio de Melhor Argumento Original atribuído a Sofia Coppola, realçando a qualidade de uma nova e brilhante cineasta, autora de uma longa-metragem de sucesso (que, segundo João Lopes assinalou na Antena 1, custou menos que algumas fitas portuguesas). Quanto a Eduardo Serra, fica para uma próxima oportunidade...
Quanto às estatuetas em si, vale a pena dizer que se obteve a lista de premiados mais previsível dos últimos anos. O triunfo absoluto da trilogia "O Senhor dos Anéis" acaba por ser justo, tendo em conta a dimensão e a qualidade do projecto coordenado por Peter Jackson. Alguns filmes de menor dimensão poderão, infelizmente, ter sido esquecidos imerecidamente devido ao poder do Anel. Destaque ainda para o prémio de Melhor Argumento Original atribuído a Sofia Coppola, realçando a qualidade de uma nova e brilhante cineasta, autora de uma longa-metragem de sucesso (que, segundo João Lopes assinalou na Antena 1, custou menos que algumas fitas portuguesas). Quanto a Eduardo Serra, fica para uma próxima oportunidade...
sábado, fevereiro 28, 2004
Vómito
Um DVD actualmente no mercado de aluguer que merece atenção é o de “O Sentido da Vida”, uma comédia de 1983 que aborda (supostamente) as diferentes fases da vida humana, de acordo com a visão dos Monty Python. Os seis cómicos que revolucionaram o humor televisivo e cinematográfico (constituindo uma referência para as Produções Fictícias, a poderosa empresa que praticamente monopoliza a risota nacional) apresentam uma série de “sketches” em torno da busca do sentido da vida, o que explica a presença de peixes, (muito) vómito, seios nus, extracções de fígado, aulas (enfadonhas) de educação sexual, etc.
“O Sentido da Vida”, realizado por Terry Jones (à excepção da curta-metragem que o precede e das sequências de animação, realizadas por Terry Gilliam), acaba por não ser uma obra genial, devido à sua estrutura algo desconexa e a algumas piadas que passam ao lado. Mas quando os Python (que só redescobri agora, depois de ter visto um pouco do trabalho do grupo já há alguns anos) acertam, acertam em cheio. As canções delirantes e o humor mais violento e “chocante” (trata-se de um filme classificado como para maiores de 18) ficam na memória, distinguindo-se fortemente da comédia feita hoje em dia (pelo menos, fazem rir).
Uma dose de “nonsense” puro que é acompanhada por numerosos extras (o DVD possui dois discos), incluindo cenas cortadas, material publicitário, novas “curtas” humorísticas (sobretudo de auto-sátira, como o prólogo acrescentado ao filme e o novo “trailer”), um documentário nada aborrecido sobre o projecto e outras tralhas (todas legendadas em português) que valem pelo menos o dinheiro do aluguer.
A melhor canção: “Every Sperm is Sacred”.
A pior canção: “The Penis Song”.
Nota: 7/10.
“O Sentido da Vida”, realizado por Terry Jones (à excepção da curta-metragem que o precede e das sequências de animação, realizadas por Terry Gilliam), acaba por não ser uma obra genial, devido à sua estrutura algo desconexa e a algumas piadas que passam ao lado. Mas quando os Python (que só redescobri agora, depois de ter visto um pouco do trabalho do grupo já há alguns anos) acertam, acertam em cheio. As canções delirantes e o humor mais violento e “chocante” (trata-se de um filme classificado como para maiores de 18) ficam na memória, distinguindo-se fortemente da comédia feita hoje em dia (pelo menos, fazem rir).
Uma dose de “nonsense” puro que é acompanhada por numerosos extras (o DVD possui dois discos), incluindo cenas cortadas, material publicitário, novas “curtas” humorísticas (sobretudo de auto-sátira, como o prólogo acrescentado ao filme e o novo “trailer”), um documentário nada aborrecido sobre o projecto e outras tralhas (todas legendadas em português) que valem pelo menos o dinheiro do aluguer.
A melhor canção: “Every Sperm is Sacred”.
A pior canção: “The Penis Song”.
Nota: 7/10.
quinta-feira, fevereiro 26, 2004
Fitas na TV
“Sexo, Mentiras e Vídeo”, de Steven Soderbergh (Hollywood)
Ao ganhar a Palma de Ouro de Cannes e sendo nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, Soderbergh irrompeu em 1989 como um dos mais promissores cineastas americanos. A sua primeira longa-metragem tornou-se um clássico do cinema “indie” (e inspirou numerosos títulos jornalísticos), embora o realizador tenha entrado nos anos seguintes numa fase “obscura”, não conseguindo impor o seu nome até finais da década de 90, quando, como se sabe, assinou vários êxitos críticos e comerciais, vindo a receber uma estatueta.
Ainda hoje, “Sexo, Mentiras e Vídeo” constitui um objecto singular. O célebre título indica os ingredientes da história, limitada quase exclusivamente a quatro personagens, que ao longo de hora e meia falam sobre sexualidade, sem quaisquer tabus. Além de falar, fazem (pelo menos duas delas), mas Soderbergh nunca nos mostra órgãos genitais ou outras partes íntimas, limitando-se a sugerir e conseguindo precisamente assim um forte erotismo.
As bizarrias (ou nem tanto) dos protagonistas e a evolução das relações entre eles conferem dinamismo a um argumento simples (e filmado sem grandes recursos), marcado pelos diálogos de elevada qualidade, que nunca caem no mau gosto. A realização de Soderbergh ainda não possui grande arrojo e traços típicos do cinema independente retardam um pouco o ritmo, mas o interesse do espectador nunca se perde. A banda sonora é bastante cuidada e liga-se na perfeição às imagens.
Dos quatro actores principais, destacam-se James Spader (calmo e contido, como em “A Secretária”) e Andie McDowell (anúncios televisivos à parte, o que é feito dela?), os quais constituem a imagem mais forte de uma obra feita a pensar sobretudo na crítica, mas transmitindo uma impressão de talento e qualidade ainda hoje presente no trabalho de Soderbergh.
A melhor cena: Ann beija Graham.
A pior cena: John e Cynthia falam pela última vez.
Nota: 7/10.
“A Fúria do Herói”, de Ted Kotcheff (TVI)
Seja ou não porque “Rocky” é já demasiado antigo (e as últimas sequelas não tiveram grande impacto), Sylvester Stallone ainda hoje “é” Rambo, mesmo para aqueles que não conhecem os filmes nos quais participou. Um dos maiores ícones do cinema americano surgiu na tela pela primeira vez em “A Fúria do Herói” (“First Blood”), um filme de 1982 que apresenta o veterano do Vietname como um símbolo da inadaptação dos ex-combatentes à vida civil e da hostilidade que lhes é dirigida. Divergindo em relação ao romance que serviu de base à fita, o argumento disponibiliza o herói para aventuras futuras. Por enquanto, Rambo combate a polícia de uma pequena cidade, que embirra com ele e lhe resolve dar caça.
É ao fazer a ligação entre o presente e os traumas do passado do guerreiro, nomeadamente através da intervenção do personagem de Richard Crenna, que a obra de Kotcheff ganha maior valor. A ira e o desespero do protagonista são expressos por Stallone da melhor maneira que consegue (o que não é grande coisa), nas escassas frases que profere. De resto, temos uma fita de acção típica dos anos 80, com abundantes tiros e explosões (embora pouco sangue) à medida que decorre a luta entre Rambo e os personagens secundários estereotipados. A realização e a montagem limitam-se a seguir, sem darem grande sinal de si, as peripécias mais ou menos interessantes que ocorrem.
Dizer que “A Fúria do Herói” é um bom filme é algo exagerado, mas a verdade é que entretém e tem pés e cabeça, satisfazendo as expectativas dos fãs do género. Será que hoje em dia alguém faria uma obra de acção “um-contra-todos” tão “clássica”?
A melhor cena: Trautman apresenta-se ao xerife Teasle.
A pior cena: Rambo é lavado.
Nota: 5/10.
Ao ganhar a Palma de Ouro de Cannes e sendo nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, Soderbergh irrompeu em 1989 como um dos mais promissores cineastas americanos. A sua primeira longa-metragem tornou-se um clássico do cinema “indie” (e inspirou numerosos títulos jornalísticos), embora o realizador tenha entrado nos anos seguintes numa fase “obscura”, não conseguindo impor o seu nome até finais da década de 90, quando, como se sabe, assinou vários êxitos críticos e comerciais, vindo a receber uma estatueta.
Ainda hoje, “Sexo, Mentiras e Vídeo” constitui um objecto singular. O célebre título indica os ingredientes da história, limitada quase exclusivamente a quatro personagens, que ao longo de hora e meia falam sobre sexualidade, sem quaisquer tabus. Além de falar, fazem (pelo menos duas delas), mas Soderbergh nunca nos mostra órgãos genitais ou outras partes íntimas, limitando-se a sugerir e conseguindo precisamente assim um forte erotismo.
As bizarrias (ou nem tanto) dos protagonistas e a evolução das relações entre eles conferem dinamismo a um argumento simples (e filmado sem grandes recursos), marcado pelos diálogos de elevada qualidade, que nunca caem no mau gosto. A realização de Soderbergh ainda não possui grande arrojo e traços típicos do cinema independente retardam um pouco o ritmo, mas o interesse do espectador nunca se perde. A banda sonora é bastante cuidada e liga-se na perfeição às imagens.
Dos quatro actores principais, destacam-se James Spader (calmo e contido, como em “A Secretária”) e Andie McDowell (anúncios televisivos à parte, o que é feito dela?), os quais constituem a imagem mais forte de uma obra feita a pensar sobretudo na crítica, mas transmitindo uma impressão de talento e qualidade ainda hoje presente no trabalho de Soderbergh.
A melhor cena: Ann beija Graham.
A pior cena: John e Cynthia falam pela última vez.
Nota: 7/10.
“A Fúria do Herói”, de Ted Kotcheff (TVI)
Seja ou não porque “Rocky” é já demasiado antigo (e as últimas sequelas não tiveram grande impacto), Sylvester Stallone ainda hoje “é” Rambo, mesmo para aqueles que não conhecem os filmes nos quais participou. Um dos maiores ícones do cinema americano surgiu na tela pela primeira vez em “A Fúria do Herói” (“First Blood”), um filme de 1982 que apresenta o veterano do Vietname como um símbolo da inadaptação dos ex-combatentes à vida civil e da hostilidade que lhes é dirigida. Divergindo em relação ao romance que serviu de base à fita, o argumento disponibiliza o herói para aventuras futuras. Por enquanto, Rambo combate a polícia de uma pequena cidade, que embirra com ele e lhe resolve dar caça.
É ao fazer a ligação entre o presente e os traumas do passado do guerreiro, nomeadamente através da intervenção do personagem de Richard Crenna, que a obra de Kotcheff ganha maior valor. A ira e o desespero do protagonista são expressos por Stallone da melhor maneira que consegue (o que não é grande coisa), nas escassas frases que profere. De resto, temos uma fita de acção típica dos anos 80, com abundantes tiros e explosões (embora pouco sangue) à medida que decorre a luta entre Rambo e os personagens secundários estereotipados. A realização e a montagem limitam-se a seguir, sem darem grande sinal de si, as peripécias mais ou menos interessantes que ocorrem.
Dizer que “A Fúria do Herói” é um bom filme é algo exagerado, mas a verdade é que entretém e tem pés e cabeça, satisfazendo as expectativas dos fãs do género. Será que hoje em dia alguém faria uma obra de acção “um-contra-todos” tão “clássica”?
A melhor cena: Trautman apresenta-se ao xerife Teasle.
A pior cena: Rambo é lavado.
Nota: 5/10.
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
A Bíblia no multiplex
O início da Quaresma foi a época do ano escolhida para dar a conhecer ao mundo “The Passion of the Christ”, o (hiper) polémico filme bíblico de Mel Gibson que há quase um ano provoca as mais variadas reacções nos EUA, como se pode ler no "Público" de hoje. As acusações de parcialidade e potencial anti-semitismo da visão da crucificação de Cristo proposta por Gibson, lançadas por associações judaicas e até por alguns clérigos cristãos (embora, de um modo geral, tanto católicos como protestantes que já viram o filme tenham emitido juízos positivos), criaram um ruído tal à volta da película que o interesse e a expectativa dos espectadores americanos são quase comparáveis ao que acontece com as obras de George Lucas (algumas das 4000 salas onde “The Passion” será exibido realizarão sessões às 6:30 da manhã, de modo a satisfazer a procura). As previsões dos grandes estúdios (que rejeitaram apoiar o projecto de Gibson, pouco confiantes na comercialidade de uma longa-metragem com legendas e um tema distante da linha habitual dos “blockbusters”) parecem prestes a ser desmentidas.
Não teremos de esperar muito para ver como é afinal esse regresso do Novo Testamento ao cinema, uma vez que a obra estreará nas salas da Lusomundo em 11 de Março. A intenção dos distribuidores é aproveitar ao máximo a eventual compra maciça de bilhetes, até por parte de gente que não costuma ir muito ao cinema.
Até lá, resta-nos observar a reacção da crítica (supostamente para lá das questões religiosas), avaliando “The Passion” como objecto artístico.
Não teremos de esperar muito para ver como é afinal esse regresso do Novo Testamento ao cinema, uma vez que a obra estreará nas salas da Lusomundo em 11 de Março. A intenção dos distribuidores é aproveitar ao máximo a eventual compra maciça de bilhetes, até por parte de gente que não costuma ir muito ao cinema.
Até lá, resta-nos observar a reacção da crítica (supostamente para lá das questões religiosas), avaliando “The Passion” como objecto artístico.
domingo, fevereiro 22, 2004
Imprensa
Enquanto o “Público” vai concluindo a Série Y, o “Diário de Notícias” lança uma nova colecção de DVDs (Cine Clube DNA), com títulos seleccionados (entre as obras do catálogo da Lusomundo?) pelo conceituado João Lopes. As duas primeiras fitas a serem postas a venda (“Apocalypse Now Redux” e “Vigaristas de Bairro”) mostram que acabou de vez a colecção possidónia de 2003. Agora o nível é mais elevado, tanto quanto ao rol de longas-metragens quanto à publicidade (bem melhor que os trocadilhos do “Público”, diga-se).
O regresso de Ron Howard à realização, com “Desaparecidas”, despertou forte interesse por parte do painel de críticos do diário dirigido por José Manuel Fernandes. Todos os quatro especialistas visionaram a nova obra de Howard. Para além da relativa raridade de um filme americano ser comentado por todos os membros do painel, é de destacar a igual classificação por eles atribuída: bola preta, foi a decisão unânime (dois críticos do DN, mais generosos, concedem a “Desaparecidas” uma modesta estrelinha). Normalmente, apenas um ou dois membros do grupo sacrificam-se e visionam obras comerciais que cheiram de longe a mediocridade, mas desta vez o desanque foi total e impiedoso (o painel do “Público” já se tinha unido antes, mas para elogiar, como aconteceu com “Lost in Translation”). Não sei ainda o que se passou noutras publicações (nomeadamente o “Expresso”), mas não se pode dizer que a última produção do cineasta oscarizado de “Uma Mente Brilhante” tenha sido recebida de braços abertos pela crítica portuguesa.
O regresso de Ron Howard à realização, com “Desaparecidas”, despertou forte interesse por parte do painel de críticos do diário dirigido por José Manuel Fernandes. Todos os quatro especialistas visionaram a nova obra de Howard. Para além da relativa raridade de um filme americano ser comentado por todos os membros do painel, é de destacar a igual classificação por eles atribuída: bola preta, foi a decisão unânime (dois críticos do DN, mais generosos, concedem a “Desaparecidas” uma modesta estrelinha). Normalmente, apenas um ou dois membros do grupo sacrificam-se e visionam obras comerciais que cheiram de longe a mediocridade, mas desta vez o desanque foi total e impiedoso (o painel do “Público” já se tinha unido antes, mas para elogiar, como aconteceu com “Lost in Translation”). Não sei ainda o que se passou noutras publicações (nomeadamente o “Expresso”), mas não se pode dizer que a última produção do cineasta oscarizado de “Uma Mente Brilhante” tenha sido recebida de braços abertos pela crítica portuguesa.
sábado, fevereiro 21, 2004
Humor cinéfilo
Algures nas profundezas da Net portuguesa existe uma página na qual se encontram alguns textos humorísticos parodiando os clichés do cinema americano (todo o tipo de situações que provocam o comentário "isto só nos filmes"). As recolhas de situações absurdas das longas-metragens de Hollywood são já um pouco antigas ("Independence Day" é um dos principais alvos) e as anedotas do último texto nem sempre são hilariantes, mas ainda é interessante ler enumerações de tudo aquilo que nunca acontece na vida real mas faz parte do dia-a-dia dos heróis e vilões de além-Atlântico. As cenas mais dramáticas das fitas têm quase sempre um lado ridículo.
Qual o valor de 21 gramas?
Sem me alongar demais posso afirmar que este será um dos melhores filmes estreados em 2004. Realmente um magnífico filme em que o efeito especial são os actores. O argumento é simples mas permite aos actores a criação de personagens reais que vivem numa teia de angústia criada pela vida.
Del Toro é um actor do outro Mundo. Cria uma personagem de conflito, de redenção e de dúvida de um modo brilhante, desde a actuação ao seu trabalho físico e mesmo no seu aspecto físico. Penn surge novamente a um nível alto, tal como em Mystic River e a sua personagem tem o peso do fim da vida. Watts é uma guerreira nata, nunca caí no lugar comum de coitadinha e assume sempre o lugar de lutadora.
O realizador mexicano constroi a narrativa de maneira certa, uma vez que o argumento é muito simples e mesmo linear. A montagem e a realização é que o torna intenso, único e fazem com que o filme tenha duas horas sempre a um nível intenso, alto e colocando o espectador na dúvida do que virá a seguir ou como é que se chegou a este ponto?
Resumidamente 21 gramas valem 5 lindas estrelas.
Del Toro é um actor do outro Mundo. Cria uma personagem de conflito, de redenção e de dúvida de um modo brilhante, desde a actuação ao seu trabalho físico e mesmo no seu aspecto físico. Penn surge novamente a um nível alto, tal como em Mystic River e a sua personagem tem o peso do fim da vida. Watts é uma guerreira nata, nunca caí no lugar comum de coitadinha e assume sempre o lugar de lutadora.
O realizador mexicano constroi a narrativa de maneira certa, uma vez que o argumento é muito simples e mesmo linear. A montagem e a realização é que o torna intenso, único e fazem com que o filme tenha duas horas sempre a um nível intenso, alto e colocando o espectador na dúvida do que virá a seguir ou como é que se chegou a este ponto?
Resumidamente 21 gramas valem 5 lindas estrelas.
A Cidade de Deus: discriminação
Sinceramente mais uma vez os editores de dvd em Portugal esquecem-se de fazer uma versão dos filmes com legendas em Português. Será que não conseguem perceber que a vantagem deste formato é poder facilmente ser alterado consoante o espectador que está a ver o filme? Uma coisa é ter legendas no cinema outra é ter legendas num formato em que facilmente se tiram.
Podem pensar que é caro fazer a legendagem. Se se pensar um pouco, estando já em Region 2 há algum tempo existem versões em inglês. Então é somente o trabalho de ver o filme e guardar as "falas" pois o estudo da altura em que elas entram está já feito para outras línguas. E como é traduzir de português para português é um trabalho rápido.
Um público que não oiça que filme poderá ver?
E ainda melhor. Eu compro filmes americanos e gosto mais quando os vejo com legendas para "apanhar" mesmo tudo. Os filmes de Region 1/2 têm quase sempre legendas. Visão comercial? Sim e também visão social.
Portugal tão pequenino nós somos
Podem pensar que é caro fazer a legendagem. Se se pensar um pouco, estando já em Region 2 há algum tempo existem versões em inglês. Então é somente o trabalho de ver o filme e guardar as "falas" pois o estudo da altura em que elas entram está já feito para outras línguas. E como é traduzir de português para português é um trabalho rápido.
Um público que não oiça que filme poderá ver?
E ainda melhor. Eu compro filmes americanos e gosto mais quando os vejo com legendas para "apanhar" mesmo tudo. Os filmes de Region 1/2 têm quase sempre legendas. Visão comercial? Sim e também visão social.
Portugal tão pequenino nós somos
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