sábado, abril 24, 2004

Evolução?

Está previsto que a RTP exiba amanhã o filme "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros, de forma a assinalar a efeméride. O problema é que a estação já faz isso desde 2001...
De facto, não gosto por aí além da obra de Medeiros. O que está em causa não são as dobragens ou um actor estrangeiro a interpretar Salgueiro Maia. Em termos de banda sonora e reconstituição dos anos 70, esta óptimo, mas a credibilidade do enredo é muito reduzida. Muitas vezes Medeiros foi demasiado original em relação ao "guião" escrito pelo MFA e criou uma ficção bastante fraca para servir de base à narração dos eventos históricos. E quando o filme envereda pelo drama ou pelo humor, torna-se exagerado.
Mas enfim, mais vale "Capitães de Abril" que nada, em termos de produção cinematográfica sobre a Revolução (na verdade, a SIC produziu em 1999 um telefilme, "A Hora da Liberdade", bem mais fiel, convincente e interessante, mas esse a RTP não pode exibir). Repetindo o que já se tornou um cliché, a nossa História Contemporânea não tem servido de inspiração para muitas fitas. Porque será?

terça-feira, abril 20, 2004

Lusices

Algo de errado se passa no cinema português. Alguns cineastas produzem bons filmes, mas, geralmente, até mesmo esses têm algum problema, ainda que difícil de identificar, a impedí-los de ser muito bons. É realmente difícil estabelecer empatia com o espectador.
Escolher uns quantos filmes de qualidade portugueses dos últimos anos (custa a acreditar, mas eles existem) é difícil tendo em conta que desconheço o trabalho dos "grandes mestres" (Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Paulo Rocha, etc.) e só de quando em quando vejo uma fita de origem lusitana no cinema ou na televisão. Seja como for, a verdade é que na última década surgiram, entre outras, curtas e longas-metragens como:

5 - "Os Imortais" (2002), de António-Pedro Vasconcelos
A parte boa: Nicolau Breyner, Rui Unas, Joaquim de Almeida; a reconstituição de época; uma abordagem da guerra colonial que foge aos clichés.
O problema: Emmanuelle Seigner; as cenas mais lentas.

4 - "Zona J" (1998), de Leonel Vieira
A parte boa: O eficaz "realismo urbano"; o ritmo do filme; a realização de Leonel Vieira; os actores estreantes.
O problema: Um argumento algo limitado.

3 - "Crónica Feminina" (2002), de Gonçalo Luz
A parte boa: Ana Bustorff e Maria João Luís; o ambiente; a fotografia.
O problema: Alguma dificuldade em combinar drama e comédia.

2 - "Respirar (Debaixo d'Água) (1999), de António Ferreira
A parte boa: A revelação de António Ferreira; uma história passada, para variar, fora de Lisboa; os jovens; Vítor Norte, um dos melhores actores do cinema (não da televisão) em Portugal.
O problema: A dada altura, os desastres na vida do protagonista tornam-se cansativos.

1 - "A Suspeita" (2000), de José Miguel Ribeiro
A parte boa: Humor, "suspense", surpresa, animação excelente, personagens divertidas.
O problema: Sei lá...

domingo, abril 18, 2004

Por aí

Depois de um período de “hibernação”, o Cinema2000 (prestes a efectuar uma renovação gráfica e de conteúdos) ganha cada vez mais interesse (o “sangue novo” de Nuno Antunes e Tiago Pimentel não deixará de ser útil). Os artigos de autor desconhecido acerca da evolução dos dados das bilheteiras portuguesas (a tabela do ICAM começa a tornar-se monótona) e das reacções que “A Paixão de Cristo” tem gerado um pouco por todo o mundo (inclusive nos países islâmicos, onde ocorrem tomadas de posição não propriamente inocentes) merecem destaque.

Na sexta-feira, foram discutidos na Assembleia da República os projectos do Governo e do PS relativos à Lei do Cinema. Prefiro não discutir, por falta de informação, as características específicas das duas propostas, mas parece-me positivo o objectivo de libertar a produção cinematográfica nacional da dependência do Estado e tentar criar uma indústria. Seja como for, a discussão pública provou que os realizadores portugueses não são todos iguais. De um lado, está a ARCA (Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisual), presidida por António-Pedro Vasconcelos (“Os Imortais”) e, do outro, a APR (Associação Portuguesa de Realizadores), sob a liderança de João Mário Grilo (“A Falha”). Enquanto a ARCA parece achar que José Amaral Lopes (secretário de Estado da Cultura) é, apesar de tudo, um tipo porreiro (esteve presente na conferência de imprensa da organização), a APR não o pode ver à frente. A ARCA receia que o apoio a obras designadas oficialmente como “de atractividade comercial” reforce excessivamente a oposição desse tipo de fitas ao “cinema de autor” habitual em Portugal. A APR considera que o cinema “comercial” só deu no nosso país “prejuízo cultural e financeiro” e o Governo quer, perfidamente, transformar artesãos em “medíocres cineastas do entretenimento” (“Público”, 16 de Abril). Perspectivas semelhantes, sem dúvida. Parece haver uma verdadeira “guerra civil” no mundo audiovisual português. Para já, o público não sai vencedor.

Depois de semanas de falatório à volta do corpo ensanguentado do Cristo de Mel Gibson, o debate cinéfilo mediático caiu quase no marasmo. As distribuidoras descarregam nas salas dezenas de longas-metragens tão diferentes como “O Gato” e “Daqui p’rá Alegria” e o entusiasmo crítico em relação a elas é, geralmente, bastante moderado. Nenhum filme parece ganhar destaque entre a multidão de produções que aterra discretamente nos cinemas. Talvez a estreia de “Kill Bill 2”, no final do mês, vá mudar tudo isto.

terça-feira, abril 13, 2004

Comédia involuntária

Inspirado pela lista (relativa à ficção científica) do Royale With Cheese, resolvi enumerar alguns pedaços de fitas que proporcionam ao espectador boas gargalhadas, embora essa não fosse de modo nenhum (acho eu) a intenção. A comédia involuntária atingiu níveis elevados em obras como:

5 - "Comando" (1985): Arnold chega ao covil dos vilões e limita-se a matar toda a (muita) gente que lhe aparece à frente e dispara sobre ele sem lhe provocar a mínima beliscadura. Trata-se de uma cena filmada de forma hilariante, mas o confronto com o principal "mauzão" também é uma verdadeira pérola.
4 - "A Falha" (2002): João Lagarto grita e tem recordações horríveis da guerra colonial enquanto... bem, só visto.
3 - "Desaparecido em Combate 3" (1988): Chuck Norris entra por uma janela (fechada) e metralha dois soldados vietnamitas e um retrato de Ho Chi Minh.
2 - "Bride of the Monster" (1955): Bela Lugosi esperneia aterrorizado em cima de um polvo totalmente imóvel.
1 - "Plan 9 From Outer Space" (1959): O "disco voador" a arder.

sábado, abril 10, 2004

Anonimato

No Cinema2000, um misterioso anónimo (“quem escreve estas linhas”) comentou os números relativos à última semana cinéfila de Março das bilheteiras controladas pelo ICAM. Contrariando as expectativas do escriba, Mel Gibson mostrou à Disney quem é que manda aqui e “A Paixão de Cristo” resistiu facilmente ao assalto de “Kenai e Koda”, atingindo pela terceira vez consecutiva (até agora, um recorde) o primeiro lugar da tabela dos filmes mais vistos, ultrapassando a marca de “Alguém Tem que Ceder” (com uma resistência impressionante). Numa época de imensas estreias em cada quinta e fraco entusiasmo crítico em relação às novidades (com a excepção de “Belleville Rendez-Vous”, com receitas interessantes e candidato a filme de culto), obras como “Tempo Limite” e “Massacre no Texas”alcançaram o top 10. Alguém se lembrará delas daqui a um mês?
O que é certo é que “Agarrado a Ti”, dos irmãos Farrelly, é um fracasso em Portugal (não sei como foi nos EUA). È certo que a promoção da obra foi surpreendentemente discreta, mas o filme anterior da dupla, “O Amor é Cego” (uma boa história), já tinha dado pouco que falar (e “Osmosis Jones” nem chegou às salas portuguesas). Os homens que inspiraram a hilaridade histérica geral com “Doidos por Mary” estão a desaparecer do mapa?

sexta-feira, abril 09, 2004

Pipoca cristã

De acordo com a “Visão” de ontem, “A Paixão de Cristo” foi visto por 427 mil portugueses apenas no mês de Março. Número impressionante, sem dúvida. A obra de Gibson tornou-se o filme da moda em Portugal (e não só) durante a Quaresma deste ano. Além de atrair multidões às salas e ser citada em tudo o que é meio de comunicação social, a fita gera um debate à sua volta como é raro ver. A verdade é que há muito não se falava tanto (bem ou mal) de um filme em cartaz.
A temática de “A Paixão de Cristo” beneficiou fortemente a sua divulgação, ao tornar o visionamento do filme “obrigatório” para os crentes cristãos. Exemplo disso é a edição deste mês da revista católica “Família Cristã”, na qual a obra de Gibson é publicitada e elogiada, nomeadamente na secção de crítica cinematográfica (assinada por Francisco Perestrello), onde se fala de “um filme de alta qualidade capaz de transmitir com muito rigor e elevação a mensagem do Evangelho”, sendo louvada a sua “fidelidade total à realidade”.
Agora que a RTP recorre, para assinalar a quadra pascal, às obras intermináveis do costume (“Ben-Hur”, “Jesus de Nazaré”, “Os Dez Mandamentos”), não deixa de ser curioso pensar que “A Paixão” poderia ser o filme bíblico ideal para a Páscoa televisiva. No entanto, em vez de preencher o horário da tarde, o projecto da Icon teria de ser exibido já bem depois do pôr-do-sol e com uma esclarecedora bola vermelha no canto superior direito do ecrã.
Páscoa Feliz para todos.

terça-feira, abril 06, 2004

Cidade maravilhosa

1. "Cidade de Deus" tornou-se, em Portugal, um exemplo clássico do filme "de culto". Depois das sessões esgotadas no Cine-Estúdio 222 (na época da Zero em Comportamento) aquando da ante-estreia, a obra de Fernando Meirelles, distribuída pela New Age Entertainment, foi exibida em apenas três ou quatro salas de Lisboa. No entanto, permaneceu no UCI-El Corte Inglés durante semanas a fio, recebendo a atenção e o carinho da crítica. Agora em DVD (com uma edição de coleccionador), continua a destacar-se (de acordo com a "Premiere", lidera a tabela de vendas da Fnac). Uma excepção à regra (o cinema brasileiro não tem tido muita visibilidade em Portugal) ou o início de uma tendência que "Carandiru" prolongará?
2. A versão de aluguer tem legendas em português (que, embora não transcrevam rigorosamente todas as frases, são muito úteis para a compreensão do filme, como já disse aqui o Fernando), além de um comentário áudio.
3. Sendo o personagem principal colectivo (a Cidade de Deus e o seu povo), as características individuais das figuras que mais se destacam perdem-se um pouco. À excepção disso, Meirelles apresenta uma autêntica bomba. A montagem, fotografia e realização criam um ambiente inesquecível. O mecanismo através do qual o argumento abandona uma cena ou personagem para a retomar de outra perspectiva mais adiante é brilhante.
4. O problema é que a violência (em grandes doses, mas nunca excessivamente dramatizada) nunca parece exagerada, ou seja, irrealista. O próprio final aberto da história aponta quer para o optimismo (o triunfo de Buscapé) quer para o pessimismo (as crianças assassinas), deixando a escolha ao espectador.

segunda-feira, abril 05, 2004

Belleville

Pois estamos perante o melhor filme de animação dos últimos anos. Possivelmente o toque Europeu faz a diferença isto porque a última vez que fiquei assim foi quando vi as curtas do Wallace and Gromit.
Sem me alongar muito, o filme é um prodigio da animação, um prodigio sonoro e musical e um prodigio daquela força da Natureza que são as velhotas de buço deste Portugal.


Classificação 5 (0 - 5)

quinta-feira, abril 01, 2004

Mais três

Três distintas personalidades da blogosfera portuguesa, João Vaz, João Sousa André e Jorge Vaz Nande, uniram-se no projecto inovador de um blogue sobre cinema. A parte da inovação está sobretudo na maneira como funciona o Série B, baseado no diálogo entre os três autores através dos posts, abordando temas cinéfilos bastante diferenciados. Notícias, textos intimistas, efemérides (como o aniversário de Quentin Tarantino) reúnem-se no espaço. São apenas três tipos que desatam a conversar sobre cinema "clássico e moderno" e o fazem de forma bastante interessante.
Agora já com um visual definitivo e um sempre prático serviço de comentários, o Série B é, ao contrário do que o nome indica, a nova estrela da blogosfera cinéfila lusa.

terça-feira, março 30, 2004

Sangue

"A Paixão de Cristo", de Mel Gibson

Avaliando a fita como obra artística, "A Paixão de Cristo" é um bom filme? Sim. O realizador Mel Gibson mostra talento (exceptuando o uso por vezes excessivo da câmara lenta), a fotografia e a banda sonora constroem na perfeição o ambiente dramático, o uso do latim e do aramaico, que de início parecia uma excentricidade, revela-se um verdadeiro achado (seria terrível para a credibilidade da produção ouvir actores falar inglês com sotaque italiano) e as interpretações de Jim Caviezel (uma nova estrela?) e Maia Morgenstern são incrivelmente poderosas, dominando a obra do início ao fim (as personagens secundárias são geralmente limitadas). Seguindo à risca as Escrituras (embora ficcionando aqui e ali), Gibson cria um "blockbuster religioso" (Fernando Campos) convincente, embora algo fechado aos não-cristãos.
Outra pergunta corrente é: o filme é anti-semita? Não. Limita-se a seguir os Evangelhos e não distingue claramente os judeus como grupo a acusar e desprezar, mas essa suspeita pode ter sido incentivada pela facilidade irritante com que Gibson identifica os maus da fita (Caifás, Barrabás, os soldados romanos que flagelam Jesus, um dos dois outros crucificados, o próprio Diabo, etc.), desenhados de forma superficial.
O filme é demasiado violento? Sim. É certo que a intenção era mostrar tudo o que Jesus sofreu para remir os pecados humanos, mas durante longos períodos é só isso que "A Paixão..." tem para mostrar: o sofrimento de Cristo, sem nada que o enquadre. As cenas mais chocantes tornam-se aborrecidas. Quanto à função evangelizadora, a verdade é que os "flash-backs" nos quais se recriam as citações mais famosas de Cristo são bem mais comoventes que o corpo do protagonista a escorrer sangue.
Valeu a pena fazer esta nova adaptação dos Evangelhos? Em termos financeiros, claro que valeu. Quanto ao lado artístico, reconheça-se que se produziu uma obra de grande impacto visual e intensidade emocional que é necessário ver, apesar dos seus exageros.
A melhor cena: Maria aproxima-se de Jesus quando este cai ao transportar a cruz.
A pior cena: O "mau ladrão" é bicado por um corvo.

Nota: 6/10.

sexta-feira, março 26, 2004

A Paixão segundo o ICAM

O ICAM divulgou a lista dos 20 filmes mais vistos nos cinemas portugueses entre 11 e 17 de Março de 2004, indicando, como é hábito, a receita e o número de espectadores das produções (não deixando de apontar em quantas salas foram exibidas durante a semana). Este período assume particular interesse por ser a primeira semana de “A Paixão de Cristo”, o filme-fenómeno de Mel Gibson, no circuito comercial português. A imprensa já tinha noticiado uma forte afluência de espectadores desejosos de ver se a obra era mesmo muito, muito violenta ou simplesmente muito violenta. O “Diário de Notícias” de 16 de Março anunciava que “O filme de Mel Gibson ‘A Paixão de Cristo’ fez mais de 100 mil espectadores nos primeiros 4 dias de exibição em Portugal”. A 23 de Março, o “Público” afirmava que “Logo na primeira semana, 105 mil espectadores viram o filme”.
Assim, os dados do pdf apresentado pelo ICAM revelam que “A Paixão de Cristo”, exibido em 22 salas, teve nessa semana 84.501 espectadores. Obteve o primeiro lugar da tabela, claro, mas a cifra não é tão esmagadora quanto os jornais citados fazem crer (é verdade que ainda nem todas as salas de cinema portuguesas fornecem as suas estatísticas ao ICAM, mas como se explica que a imprensa tenha dados diferentes?). Quanto ao resto da tabela, destaque para o segundo e terceiro classificado, respectivamente “Alguém Tem que Ceder” (presente em mais salas que a obra de Gibson), líder das duas semanas anteriores, com 36.568 bilhetes vendidos, e esse produto alvo de tanta atenção da crítica, “Torque – A Lei do Mais Rápido” (21.418). A partir daí, os números são modestos (a grande estreia pode ter obscurecido as outras fitas em cartaz). Curioso é o regresso de “Matrix Revolutions” (14º lugar), projectado em duas salas e visto por 3.414 almas (339.158 desde a estreia, já agora). Assim vão as bilheteiras da nossa nação.

segunda-feira, março 22, 2004

E saí um dvd!

Realmente isto dos dvd está a deixar tudo doido. Agora um quiosque tem mais dvds que jornais sendo que em qualquer lugaraparece uma pequena fnac.
Posso afirmar que sou um comprador de dvds bastante regular e tendo em conta o mercado que a internet cada vez mais possibilita asseguro que comprar logo assim que se vê em Portugal é um tremendo erro. Os preços praticados pelas lojas em Portugal (exceptuando as cada vez mais frequentes promoções) são cerca de 1/3 mais caras que no estranjeiro já contando com os portes de correio. E isto assegura qualidade? Pois esse é o grande problema... Dividindo o problema temos:

1) Erros nas capas
2) Pessimos desenhos e montagens para as mesmas
3) Legendagem em Português quase brasileiro (ver por ex. a Alien Quadiology)
4) Extras sem legendas
5) Filmes em Português sem legendas para deficientes auditivos

Para não falar de outros erros pontuais, a diferença de preços não compensa minimante.

domingo, março 21, 2004

Não ver este filme é Pekar!!!!!!!!!!

O filme American Splendor é desde já a maior surpresa do Ano.
Este filme que é um filme de ficção e documentário da mesma "estranha" maneira que a BD, é único, pessimista e obrigatório. Possivelmente a melhor e mais original (possivelmente complexa) adaptação de um comic ao cinema.

O argumento pecou por existir um Senhor dos Aneís em ano de supremacia forçada, uma vez que este é a meu ver o melhor argumento adaptado do ano de 2003.
Tudo é perfeito, desde o magnífico trabalho dos actores ao estranho e genial trabalho de realização.

Nada como ver este filme para respirar um pouco de ar puro e deixar de lado o tradicional blockbuster com a pipoca regada a coca-cola.

Classificação: 5 (0-5)

sexta-feira, março 19, 2004

Alternativas

Estreou ontem em Espanha o novo filme de Pedro Almodóvar, "La Mala Educación". O aparecimento de uma obra de um cineasta de culto é sempre de realçar, até porque, politicamente correcto como sempre, Almodóvar aborda desta vez temas como a Igreja Católica e a pedofilia. Em Maio, "La Mala Educación" chega a Portugal. Voltarão os aplausos gerais que acolheram as anteriores duas longas-metragens deste realizador? A propósito de Almodóvar, chegou recentemente ao mercado de vídeo/DVD um dos seus dramas (só são classificados como comédias devido à "anormalidade" das personagens criadas por Almodóvar) mais bizarros, "Kika" (1993). A extravagância da narrativa e da realização é por vezes exagerada (a sequência da violação... só vista) e alguns diálogos arrastam-se um pouco, mas trata-se de uma daquelas obras que, com um ou outro defeito, divertem imenso, precisamente por serem tão diferentes e "alternativas". Há só um momento que, actualmente, não é muito agradável por motivos exteriores ao filme: uma cena filmada na estação de Atocha (um pouco como todas as fitas, sobretudo as mais recentes, que mostram o WTC de pé)...

O cinema Mundial fechou as portas por falta de segurança das salas e, sobretudo, pelas escassas receitas da bilheteira. A diversidade do mercado lisboeta sofreu um golpe e a Lusomundo eliminou a anomalia na sua máquina de venda de pipocas (a qualidade do espaço não era, de facto, impressionante, mas a programação detinha originalidade, obrigando os críticos a suportar o cheiro do milho).

quarta-feira, março 17, 2004

Factos e palpites

No meio da blogosfera cinéfila, há espaços que adoptam um conteúdo sobretudo informativo, divulgando as notícias/rumores mais recentes sobre o mundo da 7ª Arte (filmes que irão ser feitos, filmes que talvez venham a ser feitos, filmes que afinal não vão ser feitos, festivais de cinema, Óscares e derivados, etc.), e outros que apostam quase exclusivamente em textos opinativos, dando os seus autores a conhecer o prazer ou a repulsa que determinada obra cinematográfica por eles visionada lhes provocou. O melhor será combinar essas duas tendências, exercendo a doce função da crítica mas mantendo alguma atenção à actualidade da produção de fitas, sempre com uma visão pessoal.
Alguns sites interessantes seguem habilmente essa orientação, como o Cineblog, de JB Martins (actualizado diariamente e com uma pesquisa bastante completa dos últimos "trailers" e novidades disponibilizados ao público, mas também com boas críticas a filmes no cinema ou em vídeo/DVD, além de uma lista útil de "links" para outros blogues da mesma área temática) ou o Cinemaonline, de Tiago Teixeira (aqui valorizando sobretudo a informação, transmitida em artigos extensos, e por isso publicados de forma mais ou menos irregular, mas detendo uma perspectiva crítica acerca de factos como a entrega dos Óscares ou a introdução do "ranking" das bilheteiras portuguesas).
No nosso caso, vamos fazendo alguns comentários supostamente divertidos acerca do contexto que envolve os últimos filmes (como passar ao lado, por exemplo, da expectativa em torno de "A Paixão de Cristo", que já conta com mais de 100 mil espectadores em Portugal?), mas um pouco ao acaso, reconheço, sendo por isso aconselhável visitar os "links" à direita e blogues como os atrás referidos para ter uma panorâmica actualizada do cinema tal como é visto no nosso país.

sexta-feira, março 12, 2004

Os dez magníficos

Merece aplausos a iniciativa (que só peca por tardia) do ICAM de, através de um acordo estabelecido com as distribuidoras, calcular e divulgar ao público (todas as sextas-feiras, no "site" do ICAM e, espero, na imprensa) as receitas dos filmes mais vistos em Portugal na semana anterior, tal como se faz nos restantes países da UE. O “Público” de hoje apresenta um primeiro exemplo, consistindo no “top 10” do período entre 26 de Fevereiro e 3 de Março deste ano.
Assim, na antepenúltima semana cinéfila, só “Alguém Tem que Ceder” obteve resultados impressionantes (54.748 espectadores e 228.391,45 milhares de euros de receita), ficando bem longe do segundo classificado, “Scary Movie 3 – Outro Susto de Filme”, com apenas 25.148 bilhetes vendidos (embora se deva ter em conta que a obra de David Zucker se encontrava já na sua terceira semana de exibição). A seguir na lista encontram-se, sem grandes surpresas, as fitas estreadas ultimamente nos multiplexes, com “Pago para Esquecer”, projectado em mais salas (39) que qualquer outro dos membros do “top”, na terceira posição e “Cold Mountain” em quarto lugar. Já no final, temos dois casos de cinema americano mais “minoritário”, com “O Amor é um Lugar Estranho” e “Monstro” (exibidos, respectivamente, em 7 e 8 salas). A obra de Sofia Coppola, provavelmente beneficiada pelos Óscares, parece deter uma longevidade nos cinemas digna de registo.
Isto é óptimo. Vamos a ver as semanas seguintes. Só há o problema de passarem a haver provas de que raramente uma longa-metragem portuguesa sai do quase anonimato.

Blockbuster Religioso

Tenho visto com curiosidade os números do filme de Gibson nas bilheteiras americanas e vejo um novo género surgir no cinema Mundial: Blockbuster Religioso.
Depois deste Paixão de Cristo, teremos de esperar para ver o que se seguirá nesta façanha de criar filmes religiosos que ganham 200 milhões de dólares em quinze dias.
Possivelmente uma produção chinesa "A Levitação de Buda" por Jonh Woo e a produção Israelo-Americana "A Montanha de Mahommed" por M. Night Shyamalan.

quarta-feira, março 10, 2004

Opiniões convergentes

Sem nada para criticar de momento, deixo-vos com duas das recensões já publicadas acerca do fenómeno que estreia amanhã. Nuno Centeio e Tiago Pimentel dedicam algumas linhas à obra de Gibson, embora não pareçam falar do mesmo filme. Ao entusiasmo católico de Centeio, provocado pela fidelidade do argumento aos Evangelhos ("Assim diz a Bíblia"), Pimentel responde expressando como se sentiu enojado e insultado pelo simplismo e exagero da longa-metragem protagonizada por Jim Caviezel.

domingo, março 07, 2004

Cotas

“Alguém Tem que Ceder”, de Nancy Meyers

O objectivo de Meyers (também argumentista) é interessante: fazer uma comédia romântica na qual o par protagonista não seja formado por adolescentes ou “jovens adultos” (como a personagem de Amanda Peet neste filme) em plena fase de descoberta dos dramas e alegrias da vida, mas sim por um homem e uma mulher já com idade para ter juízo. A narrativa provaria que as rugas não impedem o estabelecimento de novos e profundos relacionamentos amorosos.
Dificilmente poderiam ter sido escolhidos melhores actores para concretizar esse projecto: Diane Keaton e Jack Nicholson, figuras carregadas de prestígio, actuam bem e possuem química entre si, encarnando personagens divertidas e bem construídas. No elenco restante, destaca-se o subaproveitamento de Frances McDormand e o escasso poder expressivo de Keanu Reeves.
Embora o ponto de partida seja bom e alguns momentos (a cena de sexo, os seios de Keaton e o rabo de Nicholson, por exemplo) provoquem verdadeiras gargalhadas, a evolução da história não é a melhor. O filme torna-se demasiado longo e convencional, deixando o espectador (pelo menos eu, já que esta comédia tem os seus fãs) a esperar ansiosamente o final. Certos mecanismos narrativos parecem forçados e pouco inspirados (como a ida de Erica para Nova Iorque), sendo cansativos os diálogos acerca do amor. Meyers acaba por não surpreender ninguém e repetir-se ao longo da fita.
O visionamento de "Alguém Tem que Ceder" em vídeo/DVD é mais adequado que a ida ao cinema, não só por causa do preço mas por permitir a concentração nas melhores cenas de Keaton e Nicholson e o abreviar das partes mais aborrecidas.
A melhor cena: Erica chora dias a fio.
A pior cena: Harry consulta Julian antes de voltar para Nova Iorque.

Nota: 5/10.

P.S. Vi os “trailers” de “A Paixão de Cristo” e “Shrek 2”. O primeiro permite compreender as “acusações” de influências de Tarantino na obra de Gibson, devido ao sangue um pouco por toda a parte (se a publicidade impressiona, imagine-se o filme). O segundo é realmente prometedor (“Já não falta muito, muito tempo”).

sábado, março 06, 2004

A Fnac viu e errou

Juntamente com a "Premiere" de Março, é distribuída uma publicação ("Filmes de Culto") da Fnac, com o objectivo de promover alguns dos títulos do "stock" de DVDs desta. As obras referidas encontram-se agrupadas por géneros, sendo apresentadas a capa e a sinopse de seis ou doze filmes de cada um. Tudo estaria quase perfeito (uma ou outra imprecisão nos textos) se não existissem no cabeçalho de cada género referências (limitadas ao título) a fitas que, por falta de espaço ou outro motivo qualquer, não merecem um destaque mais aprofundado.
Assim, em "Blockbuster", ficamos a saber que "A Fnac viu e gostou" de "Missão Impossível 3" (algo muito difícil, uma vez que, por enquanto, a série só conta com dois capítulos) e "Rambo" (é necessário perguntar qual deles, uma vez que o primeiro filme da personagem chama-se simplesmente "A Fúria do Herói"). Mais à frente, não deixa de ser polémica a inclusão de "Aonde é que Pára a Polícia?" em "Polícias" (afinal, trata-se de uma paródia a esse género) e de "Febre de Sábado à Noite" em "X-Rated" (?).
Não é tão grave como a contracapa da edição da Lusomundo de "Apocalypse Now Redux" (ver comentários mais abaixo), mas prova que nem a Fnac está imune a deslizes.

terça-feira, março 02, 2004

Sono

No rescaldo dos Óscares, repetem-se as manifestações de tédio causado pela monotonia e previsibilidade da cerimónia, descrita por espectadores sonolentos como Nuno Centeio, observador atento do vestuário das actrizes presentes, ou Eurico de Barros, desiludido apenas por Michael Moore não ter sido esmagado na vida real (simpático como sempre...). Sem doses significativas de política ou "gaffes" e dominada pela glória da Nova Zelândia, a cerimónia não motivou mais que meia dúzia de frases. Como será para o ano?
Entretanto, "A Paixão de Cristo" converteu-se num enorme sucesso. Neste momento, a concorrência nas salas americanas não parece ser grande coisa, mas as receitas do filme de Gibson não deixam de causar sensação.

segunda-feira, março 01, 2004

A festa de Hallywood

A comunicação social portuguesa não deixou de cobrir a expectativa que rodeou a cerimónia de entrega dos Óscares, inclusive através do trabalho de enviados especiais a Los Angeles. Foi o caso da RTP, que destacou para o local da notícia Pedro Bicudo, o seu correspondente nos EUA. No "Telejornal" de ontem, o diálogo em directo entre Bicudo e a pivô Judite de Sousa permitiu obter informações preciosas (nomeadamente acerca da dificuldade de fugir aos lugares-comuns nestas reportagens rotineiras e "divertidas"). Este ano, a presença da lusofonia entre as nomeações (Eduardo Serra e "Cidade de Deus") mereceu particular destaque. Na sua curiosa pronúncia (referiu-se frequentemente a "Hallywood"), Bicudo relembrou que Serra estava nomeado pelo seu trabalho em "Rapariga do Anel de Pérola" e contradisse Sousa (crente na nomeação do filme de Fernando Meirelles para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro) ao enumerar os quatro prémios que "Cidade de Deus" poderia ganhar, entre eles "Melhor Adaptação". Deslizes...
Quanto às estatuetas em si, vale a pena dizer que se obteve a lista de premiados mais previsível dos últimos anos. O triunfo absoluto da trilogia "O Senhor dos Anéis" acaba por ser justo, tendo em conta a dimensão e a qualidade do projecto coordenado por Peter Jackson. Alguns filmes de menor dimensão poderão, infelizmente, ter sido esquecidos imerecidamente devido ao poder do Anel. Destaque ainda para o prémio de Melhor Argumento Original atribuído a Sofia Coppola, realçando a qualidade de uma nova e brilhante cineasta, autora de uma longa-metragem de sucesso (que, segundo João Lopes assinalou na Antena 1, custou menos que algumas fitas portuguesas). Quanto a Eduardo Serra, fica para uma próxima oportunidade...

sábado, fevereiro 28, 2004

Vómito

Um DVD actualmente no mercado de aluguer que merece atenção é o de “O Sentido da Vida”, uma comédia de 1983 que aborda (supostamente) as diferentes fases da vida humana, de acordo com a visão dos Monty Python. Os seis cómicos que revolucionaram o humor televisivo e cinematográfico (constituindo uma referência para as Produções Fictícias, a poderosa empresa que praticamente monopoliza a risota nacional) apresentam uma série de “sketches” em torno da busca do sentido da vida, o que explica a presença de peixes, (muito) vómito, seios nus, extracções de fígado, aulas (enfadonhas) de educação sexual, etc.
“O Sentido da Vida”, realizado por Terry Jones (à excepção da curta-metragem que o precede e das sequências de animação, realizadas por Terry Gilliam), acaba por não ser uma obra genial, devido à sua estrutura algo desconexa e a algumas piadas que passam ao lado. Mas quando os Python (que só redescobri agora, depois de ter visto um pouco do trabalho do grupo já há alguns anos) acertam, acertam em cheio. As canções delirantes e o humor mais violento e “chocante” (trata-se de um filme classificado como para maiores de 18) ficam na memória, distinguindo-se fortemente da comédia feita hoje em dia (pelo menos, fazem rir).
Uma dose de “nonsense” puro que é acompanhada por numerosos extras (o DVD possui dois discos), incluindo cenas cortadas, material publicitário, novas “curtas” humorísticas (sobretudo de auto-sátira, como o prólogo acrescentado ao filme e o novo “trailer”), um documentário nada aborrecido sobre o projecto e outras tralhas (todas legendadas em português) que valem pelo menos o dinheiro do aluguer.
A melhor canção: “Every Sperm is Sacred”.
A pior canção: “The Penis Song”.

Nota: 7/10.

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Fitas na TV

“Sexo, Mentiras e Vídeo”, de Steven Soderbergh (Hollywood)

Ao ganhar a Palma de Ouro de Cannes e sendo nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, Soderbergh irrompeu em 1989 como um dos mais promissores cineastas americanos. A sua primeira longa-metragem tornou-se um clássico do cinema “indie” (e inspirou numerosos títulos jornalísticos), embora o realizador tenha entrado nos anos seguintes numa fase “obscura”, não conseguindo impor o seu nome até finais da década de 90, quando, como se sabe, assinou vários êxitos críticos e comerciais, vindo a receber uma estatueta.
Ainda hoje, “Sexo, Mentiras e Vídeo” constitui um objecto singular. O célebre título indica os ingredientes da história, limitada quase exclusivamente a quatro personagens, que ao longo de hora e meia falam sobre sexualidade, sem quaisquer tabus. Além de falar, fazem (pelo menos duas delas), mas Soderbergh nunca nos mostra órgãos genitais ou outras partes íntimas, limitando-se a sugerir e conseguindo precisamente assim um forte erotismo.
As bizarrias (ou nem tanto) dos protagonistas e a evolução das relações entre eles conferem dinamismo a um argumento simples (e filmado sem grandes recursos), marcado pelos diálogos de elevada qualidade, que nunca caem no mau gosto. A realização de Soderbergh ainda não possui grande arrojo e traços típicos do cinema independente retardam um pouco o ritmo, mas o interesse do espectador nunca se perde. A banda sonora é bastante cuidada e liga-se na perfeição às imagens.
Dos quatro actores principais, destacam-se James Spader (calmo e contido, como em “A Secretária”) e Andie McDowell (anúncios televisivos à parte, o que é feito dela?), os quais constituem a imagem mais forte de uma obra feita a pensar sobretudo na crítica, mas transmitindo uma impressão de talento e qualidade ainda hoje presente no trabalho de Soderbergh.
A melhor cena: Ann beija Graham.
A pior cena: John e Cynthia falam pela última vez.

Nota: 7/10.

“A Fúria do Herói”, de Ted Kotcheff (TVI)

Seja ou não porque “Rocky” é já demasiado antigo (e as últimas sequelas não tiveram grande impacto), Sylvester Stallone ainda hoje “é” Rambo, mesmo para aqueles que não conhecem os filmes nos quais participou. Um dos maiores ícones do cinema americano surgiu na tela pela primeira vez em “A Fúria do Herói” (“First Blood”), um filme de 1982 que apresenta o veterano do Vietname como um símbolo da inadaptação dos ex-combatentes à vida civil e da hostilidade que lhes é dirigida. Divergindo em relação ao romance que serviu de base à fita, o argumento disponibiliza o herói para aventuras futuras. Por enquanto, Rambo combate a polícia de uma pequena cidade, que embirra com ele e lhe resolve dar caça.
É ao fazer a ligação entre o presente e os traumas do passado do guerreiro, nomeadamente através da intervenção do personagem de Richard Crenna, que a obra de Kotcheff ganha maior valor. A ira e o desespero do protagonista são expressos por Stallone da melhor maneira que consegue (o que não é grande coisa), nas escassas frases que profere. De resto, temos uma fita de acção típica dos anos 80, com abundantes tiros e explosões (embora pouco sangue) à medida que decorre a luta entre Rambo e os personagens secundários estereotipados. A realização e a montagem limitam-se a seguir, sem darem grande sinal de si, as peripécias mais ou menos interessantes que ocorrem.
Dizer que “A Fúria do Herói” é um bom filme é algo exagerado, mas a verdade é que entretém e tem pés e cabeça, satisfazendo as expectativas dos fãs do género. Será que hoje em dia alguém faria uma obra de acção “um-contra-todos” tão “clássica”?
A melhor cena: Trautman apresenta-se ao xerife Teasle.
A pior cena: Rambo é lavado.

Nota: 5/10.

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

A Bíblia no multiplex

O início da Quaresma foi a época do ano escolhida para dar a conhecer ao mundo “The Passion of the Christ”, o (hiper) polémico filme bíblico de Mel Gibson que há quase um ano provoca as mais variadas reacções nos EUA, como se pode ler no "Público" de hoje. As acusações de parcialidade e potencial anti-semitismo da visão da crucificação de Cristo proposta por Gibson, lançadas por associações judaicas e até por alguns clérigos cristãos (embora, de um modo geral, tanto católicos como protestantes que já viram o filme tenham emitido juízos positivos), criaram um ruído tal à volta da película que o interesse e a expectativa dos espectadores americanos são quase comparáveis ao que acontece com as obras de George Lucas (algumas das 4000 salas onde “The Passion” será exibido realizarão sessões às 6:30 da manhã, de modo a satisfazer a procura). As previsões dos grandes estúdios (que rejeitaram apoiar o projecto de Gibson, pouco confiantes na comercialidade de uma longa-metragem com legendas e um tema distante da linha habitual dos “blockbusters”) parecem prestes a ser desmentidas.
Não teremos de esperar muito para ver como é afinal esse regresso do Novo Testamento ao cinema, uma vez que a obra estreará nas salas da Lusomundo em 11 de Março. A intenção dos distribuidores é aproveitar ao máximo a eventual compra maciça de bilhetes, até por parte de gente que não costuma ir muito ao cinema.
Até lá, resta-nos observar a reacção da crítica (supostamente para lá das questões religiosas), avaliando “The Passion” como objecto artístico.

domingo, fevereiro 22, 2004

Imprensa

Enquanto o “Público” vai concluindo a Série Y, o “Diário de Notícias” lança uma nova colecção de DVDs (Cine Clube DNA), com títulos seleccionados (entre as obras do catálogo da Lusomundo?) pelo conceituado João Lopes. As duas primeiras fitas a serem postas a venda (“Apocalypse Now Redux” e “Vigaristas de Bairro”) mostram que acabou de vez a colecção possidónia de 2003. Agora o nível é mais elevado, tanto quanto ao rol de longas-metragens quanto à publicidade (bem melhor que os trocadilhos do “Público”, diga-se).

O regresso de Ron Howard à realização, com “Desaparecidas”, despertou forte interesse por parte do painel de críticos do diário dirigido por José Manuel Fernandes. Todos os quatro especialistas visionaram a nova obra de Howard. Para além da relativa raridade de um filme americano ser comentado por todos os membros do painel, é de destacar a igual classificação por eles atribuída: bola preta, foi a decisão unânime (dois críticos do DN, mais generosos, concedem a “Desaparecidas” uma modesta estrelinha). Normalmente, apenas um ou dois membros do grupo sacrificam-se e visionam obras comerciais que cheiram de longe a mediocridade, mas desta vez o desanque foi total e impiedoso (o painel do “Público” já se tinha unido antes, mas para elogiar, como aconteceu com “Lost in Translation”). Não sei ainda o que se passou noutras publicações (nomeadamente o “Expresso”), mas não se pode dizer que a última produção do cineasta oscarizado de “Uma Mente Brilhante” tenha sido recebida de braços abertos pela crítica portuguesa.

sábado, fevereiro 21, 2004

Humor cinéfilo

Algures nas profundezas da Net portuguesa existe uma página na qual se encontram alguns textos humorísticos parodiando os clichés do cinema americano (todo o tipo de situações que provocam o comentário "isto só nos filmes"). As recolhas de situações absurdas das longas-metragens de Hollywood são já um pouco antigas ("Independence Day" é um dos principais alvos) e as anedotas do último texto nem sempre são hilariantes, mas ainda é interessante ler enumerações de tudo aquilo que nunca acontece na vida real mas faz parte do dia-a-dia dos heróis e vilões de além-Atlântico. As cenas mais dramáticas das fitas têm quase sempre um lado ridículo.

Qual o valor de 21 gramas?

Sem me alongar demais posso afirmar que este será um dos melhores filmes estreados em 2004. Realmente um magnífico filme em que o efeito especial são os actores. O argumento é simples mas permite aos actores a criação de personagens reais que vivem numa teia de angústia criada pela vida.

Del Toro é um actor do outro Mundo. Cria uma personagem de conflito, de redenção e de dúvida de um modo brilhante, desde a actuação ao seu trabalho físico e mesmo no seu aspecto físico. Penn surge novamente a um nível alto, tal como em Mystic River e a sua personagem tem o peso do fim da vida. Watts é uma guerreira nata, nunca caí no lugar comum de coitadinha e assume sempre o lugar de lutadora.

O realizador mexicano constroi a narrativa de maneira certa, uma vez que o argumento é muito simples e mesmo linear. A montagem e a realização é que o torna intenso, único e fazem com que o filme tenha duas horas sempre a um nível intenso, alto e colocando o espectador na dúvida do que virá a seguir ou como é que se chegou a este ponto?

Resumidamente 21 gramas valem 5 lindas estrelas.

A Cidade de Deus: discriminação

Sinceramente mais uma vez os editores de dvd em Portugal esquecem-se de fazer uma versão dos filmes com legendas em Português. Será que não conseguem perceber que a vantagem deste formato é poder facilmente ser alterado consoante o espectador que está a ver o filme? Uma coisa é ter legendas no cinema outra é ter legendas num formato em que facilmente se tiram.
Podem pensar que é caro fazer a legendagem. Se se pensar um pouco, estando já em Region 2 há algum tempo existem versões em inglês. Então é somente o trabalho de ver o filme e guardar as "falas" pois o estudo da altura em que elas entram está já feito para outras línguas. E como é traduzir de português para português é um trabalho rápido.

Um público que não oiça que filme poderá ver?
E ainda melhor. Eu compro filmes americanos e gosto mais quando os vejo com legendas para "apanhar" mesmo tudo. Os filmes de Region 1/2 têm quase sempre legendas. Visão comercial? Sim e também visão social.

Portugal tão pequenino nós somos

sexta-feira, fevereiro 20, 2004

As piores pipocas

E já foram divulgadas as escolhas do site The Stinkers quanto ao pior que o cinema americano ofereceu em 2003. O filme mais premiado foi esse mesmo que imaginam, com Affleck e Lopez a verem a qualidade dos seus desempenhos reconhecida. Nem todas as decisões da lista são incontestáveis (não me parece que os efeitos de "Hulk" sejam assim tão maus), até porque, na categoria "Filme Mais Sobrestimado", seria impossível não ofender ninguém. Enfim, sempre é uma alternativa à avalanche de comentários acerca das estatuetas (os prémios de The Stinkers são simbolizados por sanitas, se não me engano).

terça-feira, fevereiro 17, 2004

Ainda não

Examinando o cartaz desta semana dos cinemas da região de Lisboa, verifica-se que "Portugal SA", de Ruy Guerra, nunca ocupa todas as sessões diárias das várias salas nas quais é exibido (sendo limitado frequentemente a uma ou duas projecções). A fita, produzida por Tino Navarro, vai apenas na sua terceira semana no circuito comercial. Parece que ainda não é desta que Navarro volta aos grandes êxitos dos anos 90.
Não vi ainda "Portugal SA" (nestas condições, vai ser difícil), por isso não posso julgar a sua qualidade, mas é curioso notar o aparente insucesso da película, tendo em conta que, ao contrário do que é habitual com o cinema português, a obra foi amplamente publicitada antes da sua estreia, nas salas, na imprensa (a Lusomundo, distribuidora do filme, possui várias publicações), na televisão ("teasers" exibidos na RTP) e até nas ruas e subterrâneos de Lisboa. O conteúdo da obra é claramente comercial e legível pelo grande público.
No entanto, os artigos acerca do último trabalho de Guerra foram poucos e a crítica esteve longe de o receber com carinho e compreensão. Nos "sites" especializados (7ª Arte, Cinema2000, C7nema), os comentários são escassos ou geralmente negativos (mesmo muito negativos, em alguns casos). Não existem, por enquanto, estatísticas, mas certamente que "Portugal SA" será um dos filmes portugueses mais vistos em 2004. O que não é nada de fantástico.
Com publicidade, distribuição e actores conhecidos (nomeadamente Diogo Infante), o que falhou? Em 2003, "A Mulher que Acreditava...", de João Botelho (esse inimigo férreo do actual cinema anglo-saxónico), esteve envolvido em circunstâncias semelhantes (incluindo os cartazes no Metro, com a fotografia da protagonista) e acabou por não gerar barulho ou simpatias. Que força invisível impossibilita o aparecimento de "blockbusters" portugueses? Mistério...

Spielberg tricampeão

Finalmente foram divulgados os resultados da votação na qual os visitantes do Cinema2000 puderam selecccionar os melhores filmes estreados em Portugal no ano de 2003. E o vencedor é, tal como em 2001 ("AI - Inteligência Artificial") e 2002 ("Relatório Minoritário"), Steven Spielberg, com "Apanha-me se Puderes" (em 2000, ao não estrear qualquer filme, Spielberg deixou o caminho livre para "Magnólia", o vencedor desse ano).
O povo português (mais exactamente, 122 dos seus membros) decidiu. A sua escolha revela poucas surpresas (Eastwood, Lee, Von Trier, Van Sant, Tarantino entre os primeiros), não havendo grandes concessões ao cinema "comercial" nem à produção lusitana. Será esta amostra representativa do que se passa nas bilheteiras (sobretudo nas bilheteiras de cinemas fora de Lisboa e não pertencentes ao grupo Medeia), ainda para mais quando o número de votantes diminuiu em relação ao ano anterior? Ou sou só eu que estou chateado porque os filmes que prefiro nunca ganham? Certo é que os detractores incondicionais do realizador de "Tubarão" parecem constituir um grupúsculo minoritário incapaz de lutar contra a tirania da maioria. Spielberg não só é o realizador americano mais famoso como é aquele cuja obra alcança um público maior e mais heterogéneo.
A nível dos piores filmes (desta vez também contemplados pelo Cinema2000) do ano passado, o mais mencionado nas escassas listas foi "Matrix Revolutions" ("Matrix Reloaded" não ficou entre os 20 mais), provavelmente por ter sido aquele que muitos foram "forçados" a ver e que defraudou profundamente as expectativas do público. Quem imaginaria esse fracasso há um ano?

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Tóquio

“Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho”

O que há de errado, mal feito, tremendamente ofensivo no segundo filme de Sofia Coppola? Ao contrário do que muita gente pensa, não é a sua falta de “verbalidade racional intrínseca”. É… bem… nada de importante (o ritmo da fita é por vezes lento, mas não é propriamente o tipo de história que envolva sexo, tiros e explosões). Acima de tudo, é uma obra de imenso bom gosto e por isso conquistou a admiração da crítica e do público. A nível de Óscares, não seria disparatado se ganhasse as estatuetas de Melhor Actor e Melhor Realizador.
“O Amor é um Lugar Estranho” (que poético) conta com uma banda sonora espantosamente envolvente combinada de forma bastante hábil com as imagens. As cenas de humor fogem ao exagero (nada de gritar aos espectadores: “Agora riam-se às gargalhadas”) e ao despropósito (não me parece que exista a intenção de caricaturar a cultura japonesa, mas apenas de destacar a inadaptação dos dois americanos ao ambiente local), com Anna Faris, agora sim, a divertir com a sua personagem. Bill Murray e Scarlett Johansson são inesquecíveis, tal como numerosos planos de Tóquio, captados com mão de mestre por Coppola. E o final, claro, só podia ser aquele. Nada a acrescentar.
Eis um filme que pode agradar quer aos fãs do cinema “intelectual” e inteligente quer a qualquer um que não se importe de assistir a uma história romântica (?) sem clichés. “O Amor é um Lugar Estranho” tornou Sofia Coppola uma cineasta de culto.
A melhor cena: Um táxi transporta Bob para o aeroporto.
A pior cena: Bob faz a barba.

Nota: 8/10.

P.S. Foi difícil, mas atingimos as 5000 visitas. Àqueles que (ainda) não nos abandonaram para sempre durante este difícil período de crise, o nosso muito obrigado.

sábado, fevereiro 14, 2004

Urina

“Scary Movie 3 – Outro Susto de Filme”

Se bem se lembram, em 2000 os irmãos Wayans, um grupo de actores e cineastas praticamente desconhecidos até então, fizeram sensação nas bilheteiras americanas com o seu “Scary Movie – Um Susto de Filme” (realizado por Keenan Ivory), uma comédia parodiando os filmes de terror adolescente (com “Gritos” como principal fonte de inspiração) e muitos outros, recorrendo a um humor nada subtil que fez os Farrelly parecer uns caretas. Em Portugal, o filme teve boa recepção, a avaliar pelas reacções do público que assistiu à sessão a que eu fui (uma cena envolvendo imenso esperma gerou uma manifestação única de histeria colectiva). Os Wayans lançaram-se imediatamente na produção de uma sequela, mas em 2001 o êxito não os bafejou da mesma forma. A direcção do projecto “Scary Movie 3” foi por isso entregue a novos argumentistas e ao realizador David Zucker, que não era propriamente um estreante na comédia. Com o irmão Jerry e Jim Abrahams, tinha formado o trio ZAZ, criador de “Aeroplano” (1980) e “Aonde é que Pára a Polícia” (1988), clássicos do género “comédia “nonsense” a gozar com os clichés de outros filmes a um ritmo de trinta “gags” por segundo”. Seria de esperar, portanto, uma renovação da série e uma abordagem divertida das produções recentes de Hollywood.
A verdade é que o terceiro “Scary Movie” deixa saudades do esperma dos Wayans (aqui substituído pela urina). A ligação com os outros filmes da série é feita pela protagonista, Anna Faris, e pelo tipo de humor predominante (piadas sobre órgãos sexuais masculinos e femininos, flatulência, negros, homossexuais, etc.). As obras que servem de referência ao filme de Zucker incluem, entre outras, “The Ring – O Aviso”, “Sinais”, “8 Mile” e os dois primeiros capítulos da saga “Matrix” (tendo em conta que “Matrix Reloaded” estreou em Maio e “Scary Movie 3” em Outubro do ano passado, é de destacar a actualidade do argumento), cujas cenas mais marcantes os actores recriam. É divertido? Nem por isso. Contam-se pelos dedos de uma mão as gargalhadas que a obra proporciona. A fita acaba por ser vítima da quantidade tremenda de piadas que apresenta sem um fio condutor decente que as ligue.
Leslie Nielsen procura remeter para o passado de Zucker e existem algumas ideias interessantes (as cenas com chamadas telefónicas, o padre pedófilo, Michael Jackson, etc.), mas são escassas num conjunto que simplesmente não funciona e é frequentemente previsível. O filme vê-se num abrir e fechar de olhos, mas não é por falta de tempo que não agarra o espectador. O primeiro “Scary Movie” ao menos ficou na história recente do cinema graças ao esperma. O terceiro tem pouco ou nada que o salve do esquecimento. Ah, sim, esperem, há a madre Teresa (numa cena mais absurda que provocadora), mas não é a mesma coisa.
A melhor cena: Michael Jackson é atacado por Tom Logan.
A pior cena: A tentativa de ressurreição.

Nota: 4/10.

P.S. A avaliar pela publicidade que antecedeu a projecção, o futuro próximo das salas da Lusomundo não é muito risonho. Os “trailers” de “A Filha do Meu Patrão”, “Pago para Esquecer” e “Desaparecidas” são de fugir.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Pipocas rascas

Enquanto as nomeações para os Óscares causam forte debate, decorre nos EUA uma análise ligeiramente diferente da produção cinematográfica de 2003. Assim, vários filmes condenados ao esquecimento perpétuo recebem a oportunidade de um instante de glória através da nomeação para listas das piores "coisas" projectadas nas salas americanas no ano passado.
Além dos Razzies, existe The Stinkers, uma iniciativa promovida por um grupo de cinéfilos sempre atentos ao pior que Hollywood tem para oferecer. Os prémios por eles atribuídos incluem, além das categorias habituais (Pior Filme, Pior Actor Principal, etc.), inovações como Pior Falso Sotaque, Personagem Não-Humano Mais Irritante ou o polémico Filme Mais Sobrestimado. Além do rol de nomeados relativo a 2003, o site inclui as escolhas dos últimos 25 anos e as últimas novidades no que toca a longas-metragens de qualidade duvidosa.
As opiniões do grupo são sempre contestáveis, mas, avaliando pelas descrições dos filmes seleccionados, sente-se alívio por muitas fitas americanas não chegarem a Portugal ou ficarem confinadas aos videoclubes.

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Palmadas

“A Secretária”, de Steven Shainberg

É isto o cinema "indie"? Poucos cenários e personagens, ritmo sem pressas, diálogos acompanhados por silêncio, temas politicamente incorrectos, nus (femininos) integrais... Não é melhor ou pior que o convencional, é sobretudo diferente. Com estes elementos, é possível produzir um disparate completo, mas não é esse o caso de "A Secretária".
Contado depressa, o argumento da fita não parece excessivamente original: trata-se da história da relação entre um advogado (James Spader) e a sua secretária (Maggie Gyllenhaal) e os avanços e retrocessos que conhece até ao final feliz. Enfim, uma comédia romântica. Visto de perto, é no mínimo curioso, não só por causa da abundância de cenas de sexo (não pensem, no entanto, que a obra se aproxima do porno), mas acima de tudo pelo seu conteúdo sado-masoquista (uma palavra que chama a atenção). Pronto, foi isso que retirou o filme do anonimato. Mas o realizador nunca nos mostra a acção de forma obscena ou desastrada (o erotismo é aqui, geralmente, mais subtil que explícito), construindo uma verdadeira história de amor, para lá da sua bizarria.
Maggie Gyllenhaal (fixem o nome) tem um desempenho fabuloso, quanto mais não seja pela maneira como se expõe. Spader também merece elogios (a serenidade aparente é a imagem de marca da sua personagem).
Apesar da sua evolução por vezes vagarosa e de personagens secundárias mal exploradas, temos aqui uma história com pés e cabeça. "A Secretária" (dificilmente exibível nas tardes televisivas de domingo) constitui uma alternativa credível aos "blockbusters".
A melhor cena: Várias pessoas visitam Lee durante a sua "greve".
A pior cena: Mulheres conversam à beira da piscina.

Nota: 7/10.



sexta-feira, janeiro 30, 2004

Autoria e comércio

Sem receio da polémica, Anabela Mota Ribeiro, depois de experiências traumáticas passadas num centro comercial, defende a distinção clara entre as salas que exibem cinema de autor, independente, ou simplesmente de qualidade e aquelas que divulgam obras comerciais e banais, normalmente americanas.
Os ambientes vividos nestes dois tipos de cinemas são muito diferentes, sobretudo quanto ao comportamento do público. O alvo de Ribeiro são, assim, os espaços que procuram combinar obras puramente artísticas com "blockbusters". Em Lisboa, que eu conheça, podem ser citados os exemplos dos multiplexes Alvaláxia, Monumental e Mundial, que misturam na sua programação longas-metragens dos dois géneros.
Parece-me exagerada a separação radical entre "bom" cinema, proveniente de todo o mundo, e "mau" cinema, produzido em Hollywood. É possível gostar tanto de um como de outro, até porque o cinema-pipoca, procurando sobretudo falar ao público e distraí-lo, pode também deter qualidade técnica e narrativa aceitável. Nem sempre nos apetece ver uma história profunda. É verdade que é muito positiva a diversificação da oferta cinéfila, mas não faz sentido pôr de lado o cinema "dependente" da terra dos Bush. Quanto ao espírito "futebolístico" de certos espectadores, não tem muito a ver com o cartaz das salas, mas sobretudo com hábitos culturais. Há cromos por toda a parte.
Não faz sentido barricarmo-nos no King ou no Nimas. Um multiplex como o Monumental oferece tanto do melhor (ou perto disso) que chega de terras europeias ou asiáticas como do hediondo cinema comercial americano (no qual Ribeiro parece incluir cineastas de talento como Spielberg ou Soderbergh). Quanto à barbárie das multidões pipoqueiras, o melhor é afastarem-se das salas da Lusomundo (excepto no caso de uma fita interessante que só esteja lá, é claro).

domingo, janeiro 25, 2004

O que ficou perdido em traduções?

O último filme de Sofia Coppola é algo que tem de ser descoberto. Um filme com um sentido de humor tão minimalista quanto genial. O argumento assenta sobre os pequenos elementos, sobre os pequenos detalhes dos rostos, dos corpos e sobretudo de Tokyo, aqui possivelmente retratada com há muito não se via uma metrópole num filme.
Os actores são a força do filme. Bill Murray é genial, minimalista e oferece uma força dramática ao que não diz, fazendo a sua interpretação dos olhares e à sua linguagem corporal.
Scarlett Johansson é tal como Murray soberba, tanto mais quando se pensa que ela tem dezanove anos. Consegue dar à sua personagem uma maturidade invulgar e ao mesmo tempo uma fragilidade que possibilita que as duas personagens combinem.
Sofia Coppola é talentosa, filma tudo com planos belissímos, é vai do mais arrojado ao mais minimalista com a segurança dos grandes mestres.
O primeiro clássico do ano que poderia naturalmente concorrer aos prémios principais como Filme, Realizador, Actor e Actriz Principal e argumento, mas o seu cariz independente feito em 27 dias não o vai permitir.

5- (0-5)

Resposta:
Possivelmente foi o amor

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Estrelas

Ao que parece, Scarlett Johansson, a jovem actriz de "Lost in Translation" e "A Rapariga do Brinco de Pérola", está a causar forte sensação em Hollywood. E isso quer dizer chuva de projectos, cobertura mediática, etc. Parece ter sido criada uma nova estrela.
O que é uma estrela de cinema? Dispensando interpretações sociológicas, trata-se de um homem ou uma mulher, com beleza e talento para representar (consensual ou não) que dá nas vistas através de um trabalho esforçado numa ou mais fitas de média dimensão que se tornam êxitos surpreendentes. Despertada a atenção do público e da crítica, o indivíduo passa a obter papéis de peso crescente, até se tornar o centro gravitacional das fitas em que participa, ocupando o seu rosto não menos de 87% do espaço do cartaz publicitário. Conhecida por todos através da reprodução do seu nome e da sua imagem em revistas especializadas e, depois, em todo o tipo de publicações, que seguem a sua vida privada, a criatura torna-se uma fonte tremenda de receitas para os estúdios, confiantes na multidão de fãs, que podem mesmo salvar do fracasso projectos medíocres nos quais se enfie o ídolo.
Este modelo, do qual são Tom Cruise e Julia Roberts são os máximos representantes nos EUA, acaba por não ser reproduzido com excessiva frequência. Nos últimos quatro anos, ao lote de actores "pesados" da indústria americana acrescentaram-se, em ritmo moderado, nomes como Halle Berry, Vin Diesel, Kirsten Dunst ou Reese Witherspoon. Talvez uns dois actores por ano entrem para a nossa memória comum. A renovação não é, assim, demasiado visível nos "blockbusters".
Em Portugal, um país pequenino e sem indústria cinematográfica, as caras que surgem no grande ecrã não são, geralmente, diferentes das que aparecem no pequeno. No que ao cinema diz respeito, nesse período de quatro anos, irrompeu, talvez, Beatriz Batarda (acarinhada por alguma imprensa), mas o tipo de filmes em que entra por cá leva a que ainda esteja longe de se ver numa fotografia de corpo inteiro com o seu nome por cima da cabeça e o título colorido de uma fita à frente.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Novidades, nem só no Continente

Depois de muito tempo sem postar, aproveito para chamar a atenção para dois novos (ou, pelo menos, infelizmente só agora os descobri) blogues portugueses sobre cinema (com espaço para comentários) que prometem dar que falar, pela informação contida nos textos e pelo recurso frequente a imagens e meios audiovisuais.
O Divã do Cinéfilo, filial de um blogue generalista, apresenta-nos alguns "posts" do misterioso PM (que teve a gentileza de se lembrar de nós), abordando quer apreciações críticas de longas-metragens (neste caso, "O Último Samurai", alvo de fortes elogios) quer notícias (e conjecturas) sobre os "blockbusters" aracnídeos que aí vêm.
Depois da obscuridade do seu anterior espaço, Tiago Costa ressurge em força através de About Movies, com um visual e conteúdos mais atractivos e completos, sendo de destacar não só o "top 2003" ilustrado como as novidades sobre "The Passion of Christ". Todos ficaremos a ganhar com uma participação mais frequente do bloguista.


quinta-feira, janeiro 15, 2004

Censura: sim ou não?

É uma boa notícia que a obra integral de Tex Avery seja editada em DVD. Eu vi (quando a RTP2 as exibia) algumas das curtas-metragens de animação produzidas nos anos 40 e 50 por esse realizador e posso garantir que se tratam das comédias mais originais e divertidas já produzidas em cinema, bem melhores que as dos Looney Tunes (em cuja criação Avery colaborou). O ritmo alucinante, o humor "nonsense" e o conteúdo politicamente incorrecto dos argumentos, em que os próprios heróis nem sempre são impolutos, resultam numa obra de génio (muito apreciada pela crítica). O problema é que a Warner recorreu à censura para impedir que as fitas mais marcadas pelo "espírito do tempo" surgissem na colectânea. Para além de os delírios de Avery não serem 100% destinados às crianças, não seria melhor integrar as situações mais polémicas no seu contexto histórico e mostrar não só as qualidades mas também os defeitos do cineasta, de forma a que possa ser plenamente compreendido?

P.S. A revista C de Crítica, de que já aqui falei, regressou finalmente.

terça-feira, janeiro 13, 2004

Toneladas de pipocas vendidas

A Lusomundo revelou a lista das dez longas-metragens mais vistas nas suas salas (grande parte da oferta em Portugal) no passado ano de 2003. Que dizer? É certo que a Lusomundo não exibe todos os filmes que chegam a Portugal (evitando o mais possível aqueles que poderão ser elogiados pela crítica), mas este rol não deixa de constituir uma amostra importante. O êxito de "À Procura de Nemo" está longe de surpreender, o mesmo já não acontecendo com "Johnny English" (Portugal ama Rowan "Bean" Atkinson) ou com obras que foram fuziladas nos poucos artigos sobre elas escritas, como "Velocidade Mais Furiosa" e "Lara Croft: O Berço da Vida".
Sequelas de grandes sucessos costumam ser grandes sucessos também. O público é menos exigente que os críticos que o "representam". A publicidade é mais importante que as referências na imprensa (especializada ou não). Uma boa distribuição é decisiva para que uma fita chegue a muita gente. Os jovens são reis e senhores nas bilheteiras. Há mais conclusões óbvias e simples que se possam tirar?

P.S. Não sei como, mas ontem ultrapassámos as 4000 visitas. Obrigado a quem costuma parar por cá uns segundos.

O início da 2:

Na sua primeira semana de emissão, a 2: exibiu dois filmes portugueses, um na rubrica "Grande Ecrã" e outro no já clássico "Onda Curta". Essas obras foram, respectivamente...

"A Falha", de João Mário Grilo

Adaptando um romance (a estrutura cheia de analepses e prolepses do filme é mais comum na literatura que no cinema) de Luís Carmelo, o crítico e cineasta João Mário Grilo recrutou um grupo de actores de primeira (Alexandra Lencastre, Rogério Samora, Rita Blanco, Adriano Luz, João Lagarto, etc.), entregou-lhes as personagens de um grupo de antigos colegas de liceu que se reúnem após um longo período de afastamento e procurou que exprimissem as marcas e desilusões do pós-25 de Abril através das reacções das criaturas após um acidente numa pedreira (filmado com os efeitos especiais possíveis...) que praticamente as isola do mundo.
Mas, tal como o título indica, a ideia falhou. Não se pode dizer que a narrativa evolua mal até à tragédia (à excepção dos "flashbacks" supérfluos), mas a partir daí tudo o que vemos são os actores a debitar diálogos terríveis e a comportar-se de forma incompreensível. O conteúdo político-social da obra é difícil de descortinar (há uma referência forçada e despropositada à guerra colonial) e o desfecho insólito só confirma a impressáo de que estiveram a gozar connosco durante quase hora e meia.
A melhor cena: O depoimento de Elsa.
A pior cena: Um crime horrendo é cometido.

Nota: 4/10.

"Crónica Feminina", de Gonçalo Luz

Protagonizada pelas magníficas Ana Bustorff e Maria João Luís, esta curta-metragem (26 minutos) chegou ao circuito comercial graças à Zero em Comportamento, que a exibiu sem o complemento de qualquer "longa" (uma ideia rara mas adequada à qualidade do objecto).
Vagamente inspirado em duas crónicas de António Lobo Antunes, "Crónica Feminina" é uma história de mulheres urbanas (a bela fotografia reforça o ambiente citadino) com sérios problemas sentimentais, apresentados geralmente em tom de comédia. A obra é prejudicada pela sua duração (havia material para mais tempo), sucedendo-se as peripécias de forma algo apressada. No entanto, a dinâmica e comicidade do argumento, a repulsa de Gonçalo Luz pelos planos fixos e o aspecto "moderno" da fita resultam numa obra bem interessante.
A melhor cena: Branca e Sónia confessam amargamente os seus males.
A pior cena: O "monologo romântico" no restaurante.

Nota: 7/10.

domingo, janeiro 11, 2004

Darkman - O Homem das Trevas

Realmente após um grande zapping Sábado encontrei uma preciosidade no Canal Hollywood, Darkman de Sam Raimi. Este filme de 1990 é prodígio do cinema de entertenimento, com uma realização inspirada, personagens bem desenvolvidas e uma banda sonora muito interessante de Danny Elfman que Raimi posteriormente repescou para o seu "Homem-Aranha".
Sendo eu um grande fã de comics, este filme que foi realizado porque Sam Raimi gostava de realizar "The Shadow" mas não conseguiu os direitos dos Comics. Assim fez o que ninguém faz actualmente, imaginou um novo (anti)herói assustador e cujo poder é somente substituir a cara com proteses que duram 99 minutos e a ausencia de dores nos seus braços provocada por grandes queimaduras.
A quem procura boas adaptações de comics digo para darem uma vista de olhos a este filme cujo maior problema é estar editado numa edição de Dvd antiga, muito cara e pobrezinha.

Ao lado de Unbreakable como o melhor filme de comics.

sexta-feira, janeiro 09, 2004

Coisas

a) De acordo com o 7ª Arte, "Lost in Translation" será exibido em Portugal com o subtítulo "O Amor é um Lugar Estranho". De facto, fica muito mais no ouvido que o título original do filme de Sofia Coppola... A febre dos subtítulos continua a afectar Portugal, onde, pelos vistos, a imaginação (e a sensibilidade poética) é muito maior que nos EUA.

b) A estreia de "Kill Bill 2" foi adiada para Abril ou Maio. Nessa altura, já estará no mercado o DVD do volume I. Faria muito mais sentido vender os dois filmes em conjunto, mas não seria tão rentável.

c) Um pouco tardiamente, destaco a intenção altruísta de Tino Navarro: com obras como "Portugal S.A." (que está a ser bem publicitado), não pretende apenas enriquecer mas também alertar o público para o que se passa no seu país (crise de valores, excessivo poder da Igreja, etc.) e motivá-lo a mudar a situação. Nada má ideia, essa de fazer cinema de intervenção, mas, pelo que aparece nos "teasers", a longa-metragem de Ruy Guerra parece ter sobretudo muito sexo (bom para estimular a revolta popular) e alguns estereótipos.

d) A propósito da estreia de "O Fascínio", Mário Jorge Torres escreveu no "Público" que não vale a pena os cineastas lusitanos tentarem adequar os seus filmes ao gosto do público (fazendo "Preto e Branco", por exemplo) porque este rejeita-os imediatamente, motivado pelo preconceito. Ou seja, é como dar pérolas a porcos. É verdade que essas ideias preconcebidas sobre as longas-metragens nacionais existem (e eu também sou influenciado por elas, admito-o), mas dizer que assim não vale a pena é um exagero simplista. Alguns projectos "comerciais" como "Os Imortais" possuem de facto algum impacto.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Larry Clark e mundo adolescente

Nestes tempos difíceis para a sociedade Portuguesa estrea o segundo filme em menos de seis meses de Larry Clark, Bully (já tinha estreado em Agosto Ken Park).
Sei que vou tocar num assunto delicado mas não quero fugir a uma dúvida que me perturba e que me ocorre de cada vez que um filme deste realizador estreia e é aclamado por generalidade da crítica. Passo a perguntar:
- Que devo pensar de um cineasta que em entrevista diz que os actores de Ken Park nunca tinham tido experiências sexuais e que a primeira vez que tiveram foi no filme e pelo que me parece em manage e sexo oral? Pior que isso ,disse que os actores se apaixonaram pela rapariga. Será que os actores foram alertados que a vida real poderá ser diferem que aquela situação aberrante vinda da mente do Clark? Questiono-me que sociedade temos nós que consegue idolatrar este realizador e que "alimenta" o público cinéfilo com estreias dos seus filmes mesmo repescando aqueles mais esquecidos? Não estaremos já fartos de ver pessoas com realidades sexuais bastante más nos telejornais para alimentar o ego de um cineasta que disse ainda que ficou contente por ter conseguido o plano da ejaculação do jovem? Será que eu é que só um retrogado e que vale tudo para se criar arte?

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Mais uma lista...

OK. Chegou a minha vez. Mas o problema é que (oh, vergonha!) ainda não vi alguns dos filmes mais elogiados de 2003 ("O Regresso do Rei", "Cidade de Deus", "Mystic River", etc.). Portanto, a lista apresentada será necessariamente provisória. Com as minhas mais sinceras desculpas, aqui vai:

1 - "Embriagado de Amor", de Paul Thomas Anderson
2 - "À Procura de Nemo", de Andrew Stanton
3 - "A Última Hora", de Spike Lee
4 - "Kill Bill" (vol. I), de Quentin Tarantino
5 - "Apanha-me se Puderes", de Steven Spielberg
6 - "Bowling for Columbine", de Michael Moore
7 - "Adeus Lenine", de Wolfgang Becker
8 - "Longe do Paraíso", de Todd Haynes
9 - "Solaris", de Steven Soderbergh
10 - "As Confissões de Schmidt", de Alexander Payne

Merecem também menção títulos como "Matrix Reloaded", de Andy e Larry Wachowski, "Inadaptado", de Spike Jonze, "As Horas", de Stephen Daldry, "Cabine Telefónica", de Joel Schumacher, e outros não tão bons mas que valeu a pena terem sido feitos, como "Os Imortais", de António-Pedro Vasconcelos.
Sim, foi bom ir ao cinema em 2003. Para dizer a verdade, não me lembro de nenhuma obra que tenha realmente odiado (não vejo tantos filmes como o Duarte Oliveira...), pelo menos vista numa sala escura.
2003 acabou e 2004 será o grande ano do cinema português, que atrairá centenas de milhares de cidadãos ansiosos pela reconciliação definitiva com o que se faz no seu país... ou não? Bem, dêem uma última hipótese às fitas lusas...

domingo, janeiro 04, 2004

De onde és? De Grandola terra da liberdade

Não sei se viram a versão portuguesa da Fuga das Galinhas? O Galo nesta versão tinha vindo de Grandola e não da América mas uma coisa tinha em comum, vinha da terra da liberdade...
Este é o ponto de partida para "Na´América" apontado como um dos candidatos aos óscares, o que me parece pouco provável dado o tom do filme. Parece demasiado independente para que a Academia o possa premiar. Não é impossível mas espero para ver...

Bem o filme é baseado na vida complicada do realizador do filme e da sua família, os actores são notáveis no seu todo, a realização penso que é calorosa sendo por vezes demasiado melósa o que se compreenda dada a proximidade da história e do cineasta.

Numa primeira leitura um filme humano, com desempenhos notáveis e uma realização calorosa.

Classificação 4 (0-5)

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Pessoal, tenham medo muito MEDO

Vai estrear o novo filme de Tom Cruise, O Último Samurai.
Tenho amigos que estão cheios de pica para ver o filme mas eu estou com medo de ir para uma sala escura e estar durante 2h e meia com o tio Tom. Sinceramente um filme 100 % centrado no actor assusta um pouco. E pensar que é do mesmo realizador de "Lendas de Paixão" faz-me pensar em fugir.
Parece-me um daqueles "Chick-Flick Movie" que por vezes se produzem e que surgem como um "One Men Show" dirigido para os adolescentes e sobretudo para as adolescentes.
Vendo o trailer parece que tudo acontece ao pobre Tom: as velhas questões de herói honrado, herói apaixonado, herói lutador, herói herói e blá, blá, blá e fico com a sensação do trailer deixar pouca mais história para o próprio filme contar.

Além do mais, nada vai tirar o Óscar ao tio Tom mas por muito bom que seja o seu papel nada será como o seu brilhantismo no "Magnolia". E acho que se é para dar um prémio a um épico coisa que a Acamedia gosta, onde está o justo prémio para o "Senhor dos Anéis" e para Peter Jackson?

segunda-feira, dezembro 29, 2003

O futuro próximo

O que irá estrear em Portugal nas quintas-feiras de 2004?
Não é difícil responder a esta pergunta (o 7ª Arte já tem uma longa lista), mas alguns títulos merecem particular atenção por uma razão ou outra. No campo do cinema português, iremos ter (se tudo correr bem, porque com os nossos filmes nunca se sabe: vejam-se os casos de "Xavier" ou "A Mulher Polícia") duas produções de Tino Navarro, "Portugal S.A.", de Ruy Guerra, e "Um Tiro no Escuro", o regresso de Leonel Vieira (esperemos que mostre a sua melhor forma no género de acção), além de "Lá Fora", de Fernando Lopes, que filma novamente Rogério Samora e Alexandra Lencastre. Alem destes produtos virados para o grande público, devem também aparecer as obras de autor do costume.
Examinando o ficheiro "Sequelas", temos um Cody Banks 2 (o primeiro filme não é já de 2003? A isto chama-se não perder tempo), mais um Harry Potter (iupiii... confesso que tenho passado ao lado deste fenómeno) e, claro, o segundo Homem-Aranha (uma oportunidade para Raimi corrigir os clichés que apareciam aqui e além na fita de 2002). Numa quinta-feira qualquer, deve aparecer "Scary Movie 3" (com David Zucker, será desta?). O volume II de "Kill Bill" não é bem uma sequela, mas parece ser a proposta mais interessante deste Inverno.
Outras novidades são a tão anunciada viagem de Tom Cruise ao Japão ("O Último Samurai"), a adaptação da "Ilíada" com Brad Pitt ("Troy") e a voz de Bill Murray em "Garfield". Mas talvez o melhor de tudo seja... aquilo que ainda ninguém fala. As surpresas vindas de onde menos se espera (como "Adeus Lenine" ou "Cidade de Deus") costumam incluir-se entre as obras mais marcantes...

domingo, dezembro 28, 2003

Factos de 2003 - Parte 1

Tal como outros anos, 2003 tem motivos de orgulho cinematográfico e também de decepção. Em termos de cinema americano 2003 foi sem qualquer dúvida o ano das sequelas na altura do Verão fundamentalmente. Então vejamos:

- Jeepers Creepers 2
- Terminator 3
- Bad Boys 2
- Tomb Raider 2
- American Wedding AKA American Pie 3
- X-Men 2
- Legally Blonde 2
- Final Destination 2
- Livro da Selva 2
- 2 Fast 2 Furious
- Charlie's Angels: Full Throttle
- Matrix Revolutions
- Matrix Reloaded
- Spy Kid 3d
- Freddy vs. Jason
- Era uma vez no Mexico (Desesperado 2)
- Scary Movie 3

E foi também o ano dos heróis de BD aprovarem que estão de pedra e cal nas bilheteiras:

Hulk
X-Men 2
Demolidor
LOXG

E os produtos que mais sucesso deram nas bilheteiras não são sequelas tal como os Piratas das Caraíbas e Finding Nemo.
Além do mais, nos meses de Verão os Norte-Americano não tiveram aquele filme, foram tantos os blockbusters que se dispersou o mal pelas aldeias e muitos acabaram por ser flop.
Será este um ano para as produtoras pensarem?

quinta-feira, dezembro 25, 2003

Os meus Melhores de 2003

É hora para os habituais balanços do ano. Depois de consultar uma enorme lista com os filmes estreados entre nós, aqui está o meu top 10:

Top 10
Posso dizer que um ano em que todos os filmes do top 10 tem classificação (*****) foi um ano de grandes produções cinematográficas.


1 - A Última Hora
1 - Embriagado de Amor
1 - Mystic River
4 - Herói
5 - Kill Bill
6 - A Cidade de Deus
7 - Longe do Paraíso
8 - Apanha-me se Puderes
9 - Elefante
10 - Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei

Como podem ver não consigo dizer qual gostei mais...

Top Maiores Decepções

1 - Extreminador Implacável 3 - Ascenção das Máquinas (0)
2 - Matrix Revolutions (**)
3 - Cubo 2 - HyperCube (*)


Prémio "Perdeu-se a oportunidade de fazer algo muito bom"
O Amor Acontece (**) - menos mel, sem Natal e Richard Curtis tinha feito uma comédia 100%

Prémio "Pior Filme de 2003"
Extreminador Implacável 3 - A Ascenção da Máquinas

Prémio "Maior Surpresa"
Herói - realmente estreou sem se falar e é um dos mais belos filmes estreados

Melhor filme "Fora do Top 10"
Dogville (*****) - será o 11 mas só podem ser 10 :-(

Melhor BlockBuster de Verão
Hulk (****,5) - demasiado incompreendida a visão de Ang Lee que a meu ver é a melhor adaptação
de bd desde os Batmans de Tim Burton

Melhor Sequela
Não considerando o Senhor dos Anéis visto ser uma obra única com três volumes
X-Men 2 (****)

terça-feira, dezembro 23, 2003

O que fica de 2003?

O que irá permanecer a longo prazo deste ano cinéfilo prestes a terminar na cabeça dos espectadores lusitanos? Daqui a dez anos, provavelmente (nisto da futurologia há que ser cauteloso) até os mais jovens e desatentos associarão 2003 a "O Regresso do Rei", "À Procura de Nemo" e às sequelas de "Matrix". Mas haverão decerto grupos minoritários que se lembrarão de obras de peso financeiro menos colossal. Um eventual inquérito realizado em 2013 poderá recolher respostas como estas:
"2003? Ah, sim, foi quando chegou cá o "Bowling for Columbine", do Michael Moore, o grande herói da luta contra o tenebroso imperialismo americano."
"Lembro-me da primeira parte do "Kill Bill"... ou isso foi já em 2004?"
"Foi o ano entre os dois primeiros Homens-Aranhas".
"Nesse ano fui ver "Adeus Lenine". Os sacanas dos comunas devem ter odiado essa fita, eh, eh."
"Chegou a Portugal uma das minhas obras preferidas do venerando Mestre Spielberg, "Catch Me if You Can"."
"Nesse tempo ainda estreavam filmes portugueses, veja lá como o tempo passa... Se bem me lembro, houve um, "Os Imortais" ou lá o que era."
"Os Óscares desse ano foram para... "Chicago", "As Horas", "O Pianista" e "Mystic River", acho eu. Não, espera, o do Eastwood só ganhou no ano seguinte."
"O ano de "Legalmente Loura 2", claro! Fartei-me de rir quando vi isso. Foi sem dúvida a grande comédia da década."
"Em termos de cinema, o acontecimento mais importante foi o aparecimento do Pipoca Rasca. Eh pá, ninguém imaginava o fenómeno que aquilo ia ser..."

Feliz Natal e, já agora, bom 2004 para os nossos amados leitores.

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Nostalgia dos anos 90

Na década passada (quando éramos jovens e ingénuos), algumas mentes brilhantes, apoiadas paternalmente por Pinto Balsemão, procuraram popularizar o cinema português. Esse objectivo implicava não só histórias com acção e palavrões mas também canções pop/rock de artistas na berra que ficassem no ouvido e servissem para a promoção dos filmes. Assim, Pedro Abrunhosa ("Adão e Eva"), Delfins ("Adeus Pai" e "Zona J"), Xutos e Pontapés ("Tentação" e "Inferno"), Rui Veloso ("Jaime") ou GNR ("Amo-te Teresa") criaram temas a acompanhar as cenas do novo e arrojado cinema luso.
No século XXI, isso acabou. Para já, porque a intenção de fazer os portugueses verem cinema na sua língua acabou por chocar com a realidade. A SIC ficou em dificuldades e abandonou, por muito tempo, os cineastas à sua sorte. A RTP apoia sobretudo os "velhos" realizadores. Os Delfins passaram de moda. Actualmente, recorre-se a reportório mais "clássico" ou a canções giras mas de grupos desconhecidos (como acontece com "Esquece Tudo o que Te Disse"). Isso é bom ou mau? Bem, não deixa de ser pena que o interesse dos produtores e o esforço dos músicos na década anterior tenha sido apenas passageiro... Cinema e rádio constituem mundos praticamente à parte no nosso país.

Um 007 desastrado

"Johnny English", o último veículo para Rowan Atkinson (que apareceu, mais recentemente, em "O Amor Acontece"), é claramente direccionado aos fãs do actor britânico. Em Portugal, tornou-se um sucesso de bilheteira, ou não fosse a popularidade de Rowan preservada ano após ano pela série "Mr. Bean", que a RTP agora exibe pela enésima vez.
Na verdade, "Johnny English" não é (felizmente) uma cópia da adaptação do mais famoso personagem da TV britânica à 7ª Arte, mas, embora Rowan fale frequentemente, continua a ser nele que praticamente tudo assenta. Os seus esgares e expressões agradam ao espectador mais exigente. Contracenando com o mestre, passam pela tela John Malkovich (interpretando o vilão, com um sotaque francês ultra-irritante), a estreante Natalie Imbruglia (que parece sempre uma cantora a tentar ser actriz) e o interessante Ben Miller.
Parodiando a série James Bond, não possui a imaginação e o estilo próprio de "Austin Powers", o que é compreensível, tendo em conta que dois dos argumentistas escreveram antes "O Mundo não Chega" e "Morre Noutro Dia". É apenas uma comédia simples de hora e meia (alguém conhece uma comédia pura que dure mais de duas horas?), que procura distrair o público com uns quantos "gags" (alguns previsíveis), e de facto consegue-o. A história tem ritmo e hilaridade de qualidade aceitável (é um dos primeiros filmes, pelo menos de que eu me lembre, a referir-se abundantemente à tecnologia do DVD).
Vale, pelo menos, o dinheiro do aluguer (o mais interessante dos extras são as cenas cortadas, visíveis após a realização de um pequeno teste). Quem não gostou de "Bean" pode ver aqui que Rowan pode ser grande também em cinema.
A melhor cena: Johnny revela o seu plano para capturar Sauvage.
A pior cena: Johnny no hospital.

Nota: 6/10.

domingo, dezembro 21, 2003

LOTR: The end

Mais um Natal e a trilogia do Senhor dos Anéis chegou ao fim.
E ao contrário de outras trilogias o final é um ponto alto ao contrário do habitual, uma perda de força.
Peter Jackson consegue arrebatar-nos mais uma vez do ponto de vista visual, consegue com a preciosa ajuda de Alan Lee e Jonh Howe (muito esquecidos) fazer uma obra visualmente esmagadora. Alan Lee, Jonh Howe estudaram durante anos a obra de Tolkien e trouxeram-na para o mundo das imagens. Peter Jackson tem mérito na realização, no suberbo trabalho de casting mas os dois artistas fizeram o mais importante, a credibilidade da Terra Média baseada nas descrições de Tolkien.

E o que dizer deste último filme que ainda não tenha sido dito? Gostei mais deste episódio que do anterior "As Duas Torres" e penso que Peter Jackson fundou um reino semelhante ao que George Lucas alcançou com o Star Wars. Criou uma empresa de efeitos visual, transformou em filme o impossível e conquistou críticos e fãs três vezes seguidas.

Não me quero alongar mais. Posso mesmo dizer que em relação a estes filmes a velha frase:

- Uma imagem vale por mil palavras!

Irmandade do Anel: 5 (0-5)
As Duas Torres 4(0-5) (versão extendida) 5 (0-5)
O Regresso do Rei 5(0-5)

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Miramax

Pelas nomeações de ontem para os Globos de Ouro parece que o factor Miramax voltou a atacar. Oito nomeações para um filme da editora, outrora independente.
Nos últimos anos viram-se fenómenos muito estranhoas. O número de vezes que um filme não ganhou óscar de melhor filme e de melhor realizador foi maior nos úlrimos dez anos que no resto da História dos Óscares da Academia. Parece que este ano nhão foge à regra.
No ano passado dos nomeados para melhor filme quatro tinham o envolvimento dos patrões da Miramax e dos quais acho que verdadeiramente bom só o Senhor dos Anéis. Depois de estarem bem nas bilheteiras a Academia lá dá um óscar de melhor filme para não assustar nínguem, distribuindo os restantes prémios.

Por estas e outras o desacreditar dos prémios Made in America
Espero que "Cold Mountain" seja verdadeiramente bom

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Roma diz "OK"

Segundo o Imdb, o Vaticano (diz-se que até o próprio João Paulo II) já pôde ver o novo filme de Mel Gibson, "The Passion of Christ". O veredicto é positivo: a fita não possui qualquer elemento anti-semita. Será mesmo assim? A avaliação da poderosa comunidade judaica de Hollywood não parece ser a mesma... De qualquer maneira, virão as eventuais reacções do público a este filme tão polémico (esperemos que a sua qualidade mereça tanto barulho...) e anti-comercial (agora nem tanto, graças à curiosidade provocada pela "guerra religiosa" que o rodeia) a ser influenciadas sobretudo pelas suas opiniões religiosas? Os espectadores que duvidarem da verosimilhança do argumento acharão tudo ridiculamente exagerado? Os crentes arrebatados ficarão maravilhados com a visão de Gibson? Seja como for, o melhor será evitar reacções exageradas. É só um filme, não é para ser levado a sério...

quarta-feira, dezembro 17, 2003

Alguém deu por eles?

A febre da listagem começa a instalar-se. A selecção furiosa e incontrolável dos melhores filmes, actores, realizadores ou cenas de 2003 iniciou-se e, mesmo antes da cerimónia dos Óscares, dominará a Internet cinéfila. Mas nem todas as longas-metragens que estreiam em Portugal recebem a mesma atenção. Algumas não são capa de jornal, vêem a sua publicidade na imprensa reduzida a um espacinho na edição de sexta-feira (ou quinta-feira, como parece que acontecerá em 2004), recebem atenção escassa ou nula da crítica e, geralmente, ficam em exibição num número reduzido de salas durante duas ou, com sorte, três semanas. Em resumo, quase ninguém dá por elas. A recolha de alguns destes casos é fortemente subjectiva (na Europa, não existem ainda dados sobre receitas de bilheteira a oeste de Badajoz), mas não me parece que (seja isso justo ou injusto), excepto em caso de sucesso no circuito vídeo/DVD (cada vez mais só DVD), muita gente se lembre de incluir estes títulos no seu "top" mais das fitas estreadas em Portugal em 2003:

"Altar", de Rita Azevedo Gomes
"Altos Voos", de Bruno Barreto
"Amores de Verão", de Jim Fall
"Bela Marta", de Sandra Nettelbeck
"Below-Maldição Submersa", de David Twohy
"Blanche", de Bernie Bonvoisin
"Blue Car", de Karen Moncrieff
"O Clube do Imperador", de Michael Hoffman
"Duro Amor", de Martin Brest
"Encontros Fatídicos", de Brian Gilbert
"Encurralada", de Luis Mandoki
"A Filha", de Solveig Nordlund
"A Flor do Mal", de Peter Kosminsky
"Gente Conhecida", de Dan Algrant
"Kangaroo Jack", de David McNally
"Matar o Rei", de Mike Barker
"Os Náufragos da D17", de Luc Moulet
"O Que Uma Rapariga Quer", de Dennie Gordon
"O Rapaz do Trapézio Voador", de Fernando Matos Silva
"Regressão", de Stephen Gaghan
"Relações Imprevistas", de Lisa Cholodenko
"The Touch - O Talismã", de Peter Pau
"Tudo a Roubar!", de Gavin Grazer

terça-feira, dezembro 16, 2003

Piada fácil do dia

A operação militar americana que capturou Saddam Hussein recebeu o nome de código de "Red Dawn". Tal como o "Público" de ontem lembrava, trata-se do mesmo nome de um filme rasca (realizado por John Milius) de 1984, no qual um grupo de jovens americanos (os "Wolverines", termo também utilizado na operação) enfrentam uma invasão cubano-soviética. "Red Dawn" ("Amanhecer Violento" em português, talvez por receio dos tradutores de parecerem anticomunistas) é muito mau, mas teve algum sucesso e talvez tenha agradado vivamente a algum oficial que planeou a acção. Só espero que a moda das fitas de baixa qualidade dos anos 80 não pegue e não surja nenhuma Operação "Missing in Action".

P.S. Infelizmente, ainda tenho de recorrer a computadores públicos...

domingo, dezembro 14, 2003

Cegos e Samurais

O novo filme de Kitano apresenta-se como um filme de época muito interessante. Não se pense que Kitano leva esta coisa de época muito a sério, o filme é um entreternimento muito interessante, melhor que muita coisa que vem dos lados americanos.
Sendo um filme baseado numa personagem que teve direito a 27 filmes e que o último apareceu em 1989, Kitano soube dar a uma obra que não lhe dizia nada em especial, um cunho pessoal muito interessante, capaz de lhe dar um interesse adicional.
A nível técnico o realizador soube utilizar a violência brutal muito bem, completamente diluida na acção e na história, esta sim surpreendeu-me pois esperava algo muito mais linear o que não é o caso.
Kitano sabe dosear o humor muito bem, com sequências que mostram um à vontade a toda a prova fazendo com que o filme nunca se leve muito a sério.
Sem me alongar muito mais recomendo vivamente para que quiser um bom entreternimento.

Classificação: 4 (0-5)

sábado, dezembro 13, 2003

Vida Díficil esta de "Bloguista"

O meu colega do blogue sofreu um pequeno problema com o seu computador e nos próximos tempos serei eu a colocar todas as novidades no blogue. Os computadores quando pifam, pifam mesmo.

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Notas

Na última edição, "O Independente" mostrava serem verdadeiros os boatos que recentemente corriam à boca pequena em alguns círculos restritos: o Estado português gasta fortunas a apoiar filmes que ninguém vê. Entre 1997 e 2002, longas-metragens de realizadores como João César Monteiro ou Rita Azevedo Gomes tiveram um custo de mais de 200 euros por cada espectador. Só cineastas chamados Leonel Vieira, Joaquim Leitão ou Maria de Medeiros obtém lucros de bilheteira que reduzem esse valor a menos de quatro euros.
É certo que o ICAM deveria aperfeiçoar os seus critérios de atribuição dos preciosos subsídios e a indústria cinematográfica portuguesa (caso existisse) deveria possuir muito maiores apoios privados, mas, como escreve Inês Serra Lopes, a culpa também é dos nossos realizadores, que tomam sempre precauções para que o número de espectadores das suas obras seja bastante reduzido. Apoiado pelos fundos públicos, o pérfido e tenebroso Paulo Branco (que "O Independente" reconhece como o produtor de maior estatuto internacional com que Portugal conta) lança películas de autor que pouco ou nada contribuem para a evolução do nosso cinema. Cinema-espectáculo ou cinema de autor: o grande drama português. Até agora, tem prevalecido o segundo, com os resultados que se conhecem.

Devido a um problema do servidor, não têm aparecido abaixo dos textos deste blogue referências à existência de postas de pescada. Cliquem no local indicado na mesma, pois há muito que ler.

Sim, ultrapassámos na segunda-feira as 3000 visitas. Obrigado Sara, Tiago, Frederico, Anónimo, José, Duarte, fatchary, Cristina, Nuno, Christopher e todos os leitores cujo nome não sabemos.

terça-feira, dezembro 09, 2003

O melhor crítico Português: Eurico Lopes

Perguntam-me vocês quem é Eurico Lopes?
Muitos são os sites de cinema onde vezes sem conta os fóruns são bombardeados com comentários de mau nível sobre cinema. E a discussão é sempre sobre o valor do crítico que proferiu tal sentença.
Sou um leitor frequente das críticas de João Lopes e de Eurico de Barros e acho que sendo João Lopes um crírico que gosta de Spielberg, Lynch e a linha mais clássica Eurico de Barros gosta de uma boa sessão de Carpenter, com sangue, balas e ferro torcido.
Sinceramente acho que o leitor deve antes de criticar um crítico (passo a redundãncia) ler frequentemente as suas opiniões e percebê-lo. Perceber um crítico é perceber as suas sensibilidades e aí poderemos pensar: O Eurico de Barros deu 5 estrelas ao Lord of the Rings: FOTR e o João Lopes deu 2 estrelas... hummm acho que EU vou gostar. Agora aquele BLOG do boi... NÃO HAVIA NECESSIDADE

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Os críticos são nossos amigos

Não direi que a Kathleen Gomes (ou qualquer outro crítico alérgico a Spielberg) é um boi, até porque costumo registar sobretudo as impressões gerais dos especialistas na 7ª Arte que publicam recensões na imprensa ou na Internet sobre determinado filme. Normalmente, estão de acordo quanto ao elevado mérito ou à monstruosidade de uma longa-metragem. Mesmo quando as opiniões se dividem (como aconteceu com “Kill Bill”), costuma haver uma tendência dominante. Mesmo que não me guie estritamente pelas estrelinhas atribuídas pelos críticos, eles acabam por criar, pelo seu aplauso ou repulsa (ou ainda pior, indiferença), uma ideia prévia sobre as fitas que pode ser prejudicial.
É difícil (felizmente) ler tudo o que se publica em Portugal sobre o cinema em exibição. Ainda assim, nos espaços que consulto mais frequentemente, costumam-se destacar alguns nomes cujos textos possuem determinadas características especiais. Quem pode passar ao lado das reflexões elaboradas e intelectuais de João Lopes, da brutalidade (ou polémica) de Eurico de Barros, da snobice q.b. do painel do “Público”, dos intermináveis (mas claros e directos) ensaios de Nuno Antunes (Cinema2000), da paixão pela comédia romântica inglesa de Rui Pedro Tendinha, da tendência para dizer bem de João Antunes, da tendência para desancar de Francisco Ferreira, da atracção pela Ásia de Luís Canau (CineDie), da abundância da produção de Jorge Pereira (C7nema), do sarcasmo e das piadas extra-cinema de John Snow (“O Inimigo Público”), da capacidade de síntese de JP Machado (7ª Arte), etc.?
De uma forma geral, acho que em Portugal se escreve bem sobre cinema em folhas de papel e no ciberespaço. De resto, os articulistas especializados não são muitos (se excluirmos a “democratização” da função crítica proporcionada por fóruns e blogues), são quase todos homens (sabe-se lá porquê) e renovam-se apenas de vez em quando (foi bom terem surgido “novos valores” na Net, como Joaquim Lucas e Tiago Pimentel, ou mesmo na imprensa, como Vasco Menezes). Os críticos portugueses são inofensivos para a saúde ou gente muito perigosa? O certo é que não podemos passar sem eles.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Um actor fascinante

É bom saber que estreará ná última sexta-feira de 2003 "O Fascínio" (de José Fonseca e Costa) uma longa-metragem protagonizada por Vítor Norte e Sylvie Rocha. Embora a sinopse disponibilizada contenha alguns pontos suspeitos (uma herdade alentejana? Uma metáfora de Portugal?), pode tratar-se de uma boa aposta, ainda que as suas receitas de bilheteira devam ficar bastante aquém das de "Os Imortais". Sobretudo, é positivo que volte às salas Vítor Norte, um dos melhores actores do cinema nacional. Ultimamente (como já lembrou a "Visão"), Norte anda perdido em produções de qualidade duvidosa da TVI.
Nos últimos anos da década passada, Norte brilhou em sucessivas experiências na 7ª Arte. Quer como protagonista como secundário, deu outra dimensão a obras como "Sapatos Pretos", "A Sombra dos Abutres", "Jaime", "Tarde Demais", "Respirar (Debaixo d'Água)" ou os telefilmes "Monsanto" e "Mustang" (neste caso, sem salvar o filme). O sucesso destes últimos (sim, e aquilo em que se meteu depois) garantiu-lhe popularidade suficiente para ganhar um Globo de Ouro pela sua participação numa fita que ninguém viu ("O Gotejar da Luz"). É certo que costuma interpretar personagens com características semelhantes (uma imagem de duro ou mesmo rude), mas fá-lo com uma força que agarra o espectador. Quando está em cena, o ecrã é dele.
Esperemos assim que nos próximos anos Norte faça mais filmes, voltando a atingir o nível que possuiu no seu auge (a "Premiere" portuguesa considerou-o uma das figuras de 2000). Nas telenovelas, não só recebe papéis mais fracos como passa quase despercebido.

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Mistérios

As minhas piores suspeitas parecem concretizar-se. Lembram-se de quando, no passado mês de Setembro, elogiei a mudança de visual da revista "Primeiras Imagens" (PI) e reflecti seriamente sobre a existência ou não de Nuno Ferreira, o director da publicação? Não? Bem, o certo é que desta vez interrogo-me sobre a existência ou não da própria PI, que parece ter desaparecido sem deixar rasto. Nunca mais apareceu nas bancas, sem qualquer aviso ou explicação dada aos leitores. Durante quase um ano de actividade, a PI queixou-se continuamente da falta de meios, apoios e tempo para realizar os seus projectos. Por vezes demorou imenso tempo a sair, mas mais de dois meses é demais.
Filipe Lopes, que prometia nos editoriais da revista amanhãs que cantavam, contra ventos e marés, ainda anda por aí (faz parte de júris de festivais de animação). Poderá ele contar a história do fim da PI?
É pena que desapareça uma alternativa à poderosa "Premiere". Enfim, guardei quase todos os números. Na próxima década, quando a memória da PI se desvanecer de vez, podem vir a ter algum valor histórico e monetário...

"Camarate", de Luís Filipe Rocha, é exibido hoje (mais uma vez) na RTP1 e vendido amanhã com o "Público", assinalando o 23º aniversário do desastre. O filme não é mau e serve para esclarecer rapidamente o espectador sobre aquele que era o processo mais polémico da justiça portuguesa até Novembro de 2002. O início (a reconstituição dos últimos momentos dos ocupantes do Cessna) e o fim (a defesa da tese de atentado) são o mais interessante. O resto, nomeadamente a ficção amorosa que envolve a personagem de Maria João Luís, chega, infelizmente, a aborrecer imenso.
Lembro-me que, quando vi a fita no cinema, a esmagadora maioria da plateia era constituída por gente que já devia ser bem crescida em 1980. Os eventos que dão origem à história serão demasiado distantes para os jovens ou semi-jovens (este não é, de resto, um filme português que os vá atrair)?

segunda-feira, dezembro 01, 2003

007 em Portugal?

"007 - Ao Serviço de Sua Majestade" (1969) é uma espécie de "filme maldito" da série já quarentona (outro capítulo geralmente ostracizado é "Vive e Deixa Morrer", o primeiro com Roger Moore, que eu ainda não vi). George Lazenby foi James Bond por uma única vez (achou que o papel não tinha grande futuro) e, embora os resultados de bilheteira não tenham sido tão maus quanto isso, a popularidade de Connery e Moore tornou o actor australiano irrelevante. A verdade é que o sexto filme de Bond é tão diferente de todos os outros que só pode despertar reacções radicais. Eu não gostei (prefiro o estilo Connery, que o inexpressivo Lazenby tenta por vezes imitar sem qualquer sucesso, e a realização e montagem não convencem, além da história ser algo ridícula demais, para não falar dos diálogos), mas outros afirmam que se trata da melhor adaptação da obra de Fleming e dá ao personagem um lado sentimental que só lhe fica bem. O certo é que ficou como um OVNI na lista das aventuras do espião.
É habitual lembrar-se que parte de "007 - Ao Serviço de Sua Majestade" foi filmada em Portugal. Na verdade, a acção centra-se na Suíça e são poucas as cenas que mostram o nosso país (com imagens de Estoril, Sintra e Lisboa, creio), que curiosamente nunca é identificado. Pelo sotaque dos personagens que Bond encontra por cá, parece mais Espanha. No entanto, é possível ver, no casamento do herói, crianças a executar uma suposta dança tradicional lusitana e, a seguir, 007 a conduzir nas imediações da então Ponte Salazar. Parece que a representação deficiente de Portugal e do seu povo no cinema anglo-saxónico não é de hoje.

Realizadores de 007

Não posso estar totalmente de acordo com o Pedro no que diz respeito ao que ele disse sobre os realizadores dos filmes do 007. Existe um que é para mim o responsável pelo sucesso dos 007 dos anos 80/90 e sobretudo dos de Roger Moore. Acho que o único dos realizadores que deixou um cunho foi John Glen. Possivelmente foi mais pela insistência, afinal fez 5 filmes e posso dizer que muito mais giros do que os actuais.
O hábito de colocar sequências de engenhocas de 4 rodas começou com este realizador que coloca sempre sequências frenéticas de caça ao agente por paisagens europeias. E culmina com o melhor 007 que me lembro "007 - Operação Tentáculo".