domingo, abril 06, 2008

Políticas

“Peões em Jogo”, de Robert Redford

O último filme de Redford faz parte de um conjunto de obras surgidas no ano passado visando retratar o estado actual da “guerra contra o terrorismo” e todas as suas implicações na América e na forma como esta se encara. Embora assuma uma perspectiva nitidamente “liberal”, o cineasta evita cair na condenação fácil ou em simplificações abusivas.

O aspecto mais valioso da (pouco) longa-metragem acaba por ser o estímulo feito pelo actor/realizador à participação cívica e a um esforço de politização que impeça a letargia de uma população potencialmente manobrável. A personagem de Tom Cruise (que ainda consegue fugir ao rótulo de estrela doida) representa uma “direita” que pode justificar decisões erradas com as melhores intenções.

È pena que, a nível cinematográfico, a obra não ultrapasse o nível do razoável, com um esquema relativamente simples que fraqueja sobretudo nas cenas militares. O trio de protagonistas não resulta de forma especialmente eficaz (nesse aspecto, já se viu melhor em “Jogos de Poder”), tal como a definição das várias personagens.

Apelando à reflexão de cada espectador e tratando as questões políticas de forma séria mas acessível, “Peões em Jogo” peca apenas por não ser particularmente ousado quer na forma quer no conteúdo.
A melhor cena: Janine recusa noticiar a nova estratégia.
A pior cena: Arian e Ernest fazem a sua comunicação.

Nota: 6/10.

segunda-feira, março 31, 2008

Rádio

Não me parece que “A Estranha em Mim” (um título português que não é mau de todo) seja marcante ou chocante ao nível da excelência. Trata-se “apenas” do regresso de Jodie Foster aos grandes papéis como uma improvável justiceira surpreendida com a sua nova pele, realizado habilmente mas com alguns cortes e movimentos de câmara desnecessários por Neil Jordan. Talvez a relação entre as personagens de Foster e Terrence Howard não seja tão conseguida como poderia ser.

sexta-feira, março 21, 2008

Portar mal

“Alpha Dog”, de Nick Cassavetes

Escrito e realizado por um cineasta que chamou a atenção em festivais dos anos 90 mas tem assinado obras comerciais sem grande relevo, este filme baseado em factos reais retrata o universo de jovens criminosos que procuram viver sempre em festa mas cujo futuro é alterado por uma série de eventos inesperada.

O elenco do filme é geralmente sólido, quer pelas breves mas marcantes participações de Bruce Willis e Sharon Stone quer pelos actores mais novos, como Emile Hirsch, Ben Foster ou Anton Yelchin (e, porque não, Justin Timberlake), que têm aqui prestações de bom nível.

O esquema do argumento é eficaz, contando a história sem falhas de ritmo, embora a profusão de personagens dificulte o seu desenvolvimento. A realização atinge uma qualidade razoável, excepto ao utilizar, sem benefícios visíveis, o ecrã fragmentado. As variações de tom, oscilando entre uma certa leveza (a bizarria da situação de rapto e as explosões nervosas de alguns dos intervenientes chegam a provocar o riso) e o desenlace final, abalam um pouco a coesão deste “drama urbano” que não chega a ser bem o que pretende.

A longa-metragem de Cassavetes não se afunda nem vai muito longe, resultando num produto interessante sem ser viciante.
A melhor cena: Jake atende a chamada de Johnny.
A pior cena: Jake provoca estragos na casa de Johnny.

Nota: 6/10.

segunda-feira, março 17, 2008

Reprodução

“Duas Irmãs, Um Rei”, de Justin Chadwick

Esta produção anglo-americana aborda as intrigas na corte de Henrique VIII focando a rivalidade entre duas irmãs usadas para promover os interesses da sua família junto do monarca que viria a romper com a autoridade do Papado.

Proveniente da televisão britânica, Chadwick parece mover-se com dificuldade no cinema, recorrendo a soluções demasiado óbvias. A fotografia escura da longa-metragem acaba por se tornar excessiva, não sendo devidamente acompanhada por uma história que, embora tome liberdades ficcionais aceitáveis, parece demasiado apressada em contar vários aspectos da vida de Ana Bolena e da sua época.

Concretizando o sonho de muitos “vintões” ao reunir Natalie Portman e Scarlett Johansson, como Ana e Maria Bolena, respectivamente (com a doçura de Johansson, poderia ser ao contrário?), sem que as duas actrizes ultrapassem o seu nível habitual. Eric Bana encarna um Henrique VIII demasiado primário, acabando por ser irrelevante, enquanto as restantes personagens, como o duque de Norfolk, limitam-se a esboços.

Sem ser inteiramente bom nem inteiramente mau, o filme de Chadwick relembra (embora de forma algo superficial) um dos períodos mais célebres da história inglesa não acrescentando muito ao já feito sobre o assunto.
A melhor cena: Ana reencontra Maria após o exílio.
A pior cena: A execução de George.

Nota: 5/10.

domingo, março 09, 2008

Bonecos

“Transformers”, de Michael Bay

O maior perdedor das categorias técnicas dos Óscares deste ano surgiu quando Spielberg disponibilizou a um realizador de “blockbusters” sem grande mérito artístico meios para criar um festival de adrenalina supostamente apelativo para os espectadores jovens e para os fãs da série de animação originada pelos bonecos da Hasbro.

Mais que por espectáculo, grande parte da fita é preenchida por humor sem graça que não vai além da burrice das personagens. Quando Bay resolve introduzir um pouco de sentimento, o resultado é muito forçado e supérfluo.

O falhanço no desenvolvimento das personalidades dos robôs (bem mais interessantes que os humanos) acentua o distanciamento em relação à acção e retira uma certa alma aos combates finais, visualmente ricos mas onde os efeitos visuais se esgotam em si mesmos.

Para além dos avanços tecnológicos, o filme serve para celebrizar Shia LaBoeuf e Megan Fox (por motivos diferentes, diga-se). Para lá disso, faz pensar que produzir uma longa-metragem de animação poderia ter sido uma ideia melhor.
A melhor cena: O Cubo é reduzido.
A pior cena: Mikaela faz Simmons despir-se.

Nota: 4/10.

domingo, março 02, 2008

Gualter

“O Diário de uma Nanny”, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini

Os realizadores de “American Splendor” regressam com a adaptação para o cinema de um “best-seller” que satiriza a vida da elite nova-iorquina a partir do olhar de uma jovem de origem socialmente inferior que testemunha as bizarrias de uma família de Manhattan.

A longa-metragem assenta em grande parte na personagem de Scarlett Johansson, que parece adequar-se bem ao papel mas acaba por deixar saudades de quando a víamos longe de Nova Iorque. O trabalho dos outros actores também não é particularmente cativante, com Laura Linney a um nível razoável e Paul Giamatti a fazer pouco mais que uma voz engraçada.

A indefinição de género prejudica muito o filme, que começa num tom de crítica social mais ou menos corrosiva, vindo a levar-se a sério e a conhecer uma deriva dramática que nunca convence (as relações da “nanny” com a mãe ou com o interesse amoroso são mal exploradas), tal como uma realização surpreendentemente desinteressante. O final acaba por surgir de forma insatisfatória, com um tom moralista despropositado.

Berman e Pulcini cometem um grande deslize com uma fita ineficaz quer no riso quer no coração e demasiado fraca para aspirar a ser mais que um dos muitos episódios da carreira de Johansson.
A melhor cena: Annie voa sobre o Central Park.
A pior cena: A Sra. X no quarto de Annie.

Nota: 4/10.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Óleo

“O Reino”, de Peter Berg

É de louvar a atitude dos responsáveis por este filme de acção ao abordar uma área do globo particularmente sensível (a Arábia Saudita) e explicar claramente a sua importância a nível económico e geopolítico. O que se faz do episódio da guerra ao terrorismo que é mostrado acaba, no entanto, por não servir de muito.

Berg exagera no número de planos e no movimento da câmara, mesmo nas cenas mais calmas, dificultando o visionamento da fita. As cenas de combate, que surgem já um pouco tardiamente, revelam uma boa produção mas não são muito diferentes do que já se tenha visto.

Embora se recorra a bons actores (Jamie Foxx, Chris Cooper, Jennifer Garner), nunca lhes é dado espaço para brilhar, com os diálogos entre os agentes do FBI a revelarem-se demasiado fracos. Da mesma forma, os momentos mais emocionais do filme, nomeadamente o final, são pouco convincentes devido à debilidade das relações entre as personagens, dando a impressão de se procurar atingir uma profundidade que não se consegue alcançar.

Interessante apenas pelo contexto em que se situa, “O Reino” não obtém o valor cinematográfico necessário para se destacar ou simplesmente para ser aquilo que pretende.
A melhor cena: O genérico inicial.
A pior cena: Ronnie fala com o filho de Faris.

Nota: 5/10.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Memorando

“Michael Clayton – Uma Questão de Consciência”, de Tony Gilroy

A estreia na realização de Gilroy constitui um “thriller” com “consciência social” que procura destacar a permanência dos valores morais no meio de uma poderosa teia de interesses, evitando limitar-se à luta de um indivíduo contra uma empresa grande e má.

Como cabeça de cartaz, George Clooney tem um dos papéis da sua vida, dando a espessura certa à personagem do título. No entanto, parte importante da eficácia do filme deve-se ao trabalho de Tom Wilkinson, Tilda Swinton (fantástica quer nos ensaios quer no choque final) e dos restantes actores.

O desenvolvimento e tentativa de compreensão das motivações das personagens (mesmo os assassinos são mostrados mais como pessoas que como entidades maléficas) são excepcionais. Gilroy combina um argumento com todas as partes bem unidas e uma realização que, embora exagere um bocado na atenção aos objectos, consegue (juntamente com a fotografia) um aspecto visual bem conseguido e um ritmo mantendo a velocidade certa.

Considerado sem grandes hipóteses de sucesso na cerimónia dos Óscares, devido à forte concorrência, “Michael Clayton” não deixa de ocupar um lugar importante na produção americana recente, aliando a sua crítica dos interesses das corporações a uma solidez de construção quase inabalável.
A melhor cena: Arthur conta a Michael a sua tomada de consciência.
A pior cena: Karen e Michael encontram-se pela primeira vez.

Nota: 8/10.

domingo, fevereiro 17, 2008

There will be no OSCARS!

Cinco anos passados, surge um novo filme de Paul Thomas Anderson, There Will be Blood.


Sou há muito uma daquelas pessoas que não tem dúvidas em afirmar que P.T. Anderson é o melhor cineasta americano em actividade. É um rapaz novo e precoce, fez o genial Magnólia com menos de 30 anos e palavras para quê?

Um puro talento, um génio.

E de onde surge o interesse de PTA em Oil! de Upon Sinclair?

Bem, no Mundo actual, existem duas entidades que para o bem e para o mal, o fazem girar: o petróleo e a religião.

Não existe inocência.

Com interesse no tema e com a forma perfeita como os aborda cria, com Daniel Day-Lewis, um filme a todos os níveis notável e que consegue retratar a sociedade americana na perfeição.

E ao contrário de Gangs of New York, Day-Lewis é verdadeiramente aproveitado pelo seu realizador. Os olhares, os silêncios, os seus pequenos detalhes aproveitados para retirar o seu talento para a estrutura global do filme.

Sim!

Não me resta qualquer dúvida, que os americanos estão exactamente iguais aos de 1900-1920 e que Anderson deixa isso para a nossa análise, sobretudo depois de assistirmos ao magnífico final, em que os diálogos estão tão brilhantemente escritos como interpretados, não deixando espaço para respirarmos, nem para desviar o olhar.

Para aqueles que não apreciam a filmografia de PTA, este é possivelmente o filme mais fácil de se gostar. É um falso épico igual a tantos outros, com uma mensagem, uma segunda camada tão actual, tão súbtil e tão genialmente transmitida por Plainview.

Quando a cinema, que me recorda este filme?

Bem, lembrar-me-ia de "O Mundo a seus pés", "O Gigante" e fundamentalmente o filme de Huston, o "Tesouro da Sierra Madre".

No entanto, Daniel Day-Lewis não é nenhum Bogart e consegue transformar este filme em mais que uma tentativa de chegar a um mestre. O filme é ele sim, o melhor filme americano que vi depois de Magnólia e tal como o filme de Huston uma verdadeira obra-prima.

E quanto a Óscares?

Fiquei sem qualquer dúvida.

Este filme vai passar ao lado da grande noite de Hollywood, Day-Lewis vai levar para casa o seu mais que merecido Óscar e PTA irá levar o Óscar de melhor argumento adaptado (será?).

Nada mais. O diálogo final mexe tanto com o interior e a consciência americana que um "melhor filme" seria um acontecimento.


Classificação: 20(0-20)

Imobiliário

“Bounce – Um Acaso com Sentido” (2000), de Don Roos

Ben Affleck e Gwyneth Paltrow formam o par protagonista de um drama romântico que aborda o encontro entre uma viúva e o homem inadvertidamente responsável pelo desaparecimento do seu marido num desastre de aviação.

Todo o filme berra “nada de especial”, nunca passando da mediania. Para isso contribui mais um dos desempenhos fracos de Affleck, com alguma química com a sempre agradável Paltrow mas muito débil quando está sozinho. Os actores secundários têm uma participação reduzida.

Apostando tudo no casal, Roos acaba por apresentar um argumento bastante previsível e uma realização sem chama, não transmitindo adequadamente nem sofrimento nem romance. Toda a evolução do relacionamento é frouxa e falha de imaginação.

Sem surpreender ao nível do que oferece, “Bounce” parece obedecer demasiado a uma fórmula previamente concebida para ser levado a sério. Trata-se de um filme feito sobretudo para os fãs dos actores que encabeçam o elenco.
A melhor cena: Abby diz a Buddy que é viúva.
A pior cena: Buddy no tribunal.

Nota: 4/10.

domingo, fevereiro 10, 2008

Violência

“John Rambo”, de Sylvester Stallone

Stallone faz regressar o icónico Rambo arriscando mostrar acção à moda antiga, com sangue, tripas e cadáveres em grande quantidade. Apesar do estilo agressivo, verifica-se uma preocupação em evitar as quedas no ridículo das sequelas anteriores.

Embora não tenha aptidão para momentos mais intimistas, a realização consegue manter constante a intensidade das cenas de acção, quer no resgate quer na batalha final. Para lá da denúncia das atrocidades do exército birmanês, a viagem rio acima serve para fornecer ao herói a redenção possível.

Os fantasmas de Rambo, que constituem a mais-valia da personagem, acabam por parecer insuficientemente explorados. Outro traço habitual da série é a falta de inteligência dos inimigos do guerreiro (que não chegam a explicar porque mantêm os americanos prisioneiros). As falhas não impedem a fita de resultar bem como todo e apresentar aquilo em que Rambo/Stallone é melhor.

Como o próprio Stallone admite, filmes como este não fazem muito sentido no século XXI. No entanto, os fãs do género não ficarão desiludidos.
A melhor cena: Rambo liberta Sarah.
A pior cena: Rambo e Sarah conversam debaixo de chuva.

Nota: 5/10.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Vídeo

O grande triunfo de "Nome de Código: Cloverfield" é introduzir um conceito (não me interessa se original ou não) e conseguir levá-lo até ao fim sem falhas. Da mesma forma, nunca se perde de vista as relações entre as personagens, algo frágeis mas credíveis, sobretudo em resultado da introdução ao ataque.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Polícia

“A Lei dos Outros”, de Tiago Carvalho

Exibido na SIC Radical, este filme possui um aspecto artesanal (destacando-se uma por vezes difícil coordenação de som e imagem), que procura compensar através do dinamismo da realização e da montagem. Marcantonio del Carlo leva a cabo uma interpretação saborosa do “vilão” (?) da curta-metragem, com os restantes actores a um nível regular. Se Alexandre Borges (o crítico da “Atlântico”) não gostou da abundância de palavrões em “Call Girl”, de António-Pedro Vasconcelos (que também efectua um “cameo” em “A Lei dos Outros”), deve ter ficado aterrado com os diálogos de Carvalho. No entanto, o registo verbal das personagens é o mais adequado ao ambiente que se pretende atingir. O argumento acaba por encontrar o ritmo certo, além de desenvolver correctamente o desvendar do passado realizado simultaneamente por uma das personagens e pelo espectador. No conjunto, trata-se de uma produção competente, dando a conhecer um cineasta com largas possibilidades de evolução.

Nota: 6/10.

sábado, fevereiro 02, 2008

Outro regresso

O novo filme de Aaron Seltzer e Jason Friedberg (os criadores desses clássicos que são "Date Movie" e "Epic Movie"), "Meet the Spartans", baseado numa paródia a "300", alcançou o primeiro lugar na tabela das bilheteiras americanas, ultrapassando "John Rambo", de Sylvester Stallone. A média muito baixa das classificações no IMDB deixa antever que os dois cineastas em nada melhoraram o seu registo humorístico.
Há coisas que não têm explicação, simplesmente existem.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

PREC

Texto de João Lopes sobre “007 e o Homem da Pistola Dourada” (“Vida Mundial”, 09-01-1975):

“Ainda e sempre em defesa do “mundo livre”, James Bond, agente secreto do capital, regressa. Brutal, racista e reaccionário, como é habitual, também ainda não é desta vez que 007 explica qual o “mundo” e qual a “liberdade” que defende. Mas também não é difícil adivinhar.”

Texto de João Lopes sobre “Balbúrdia no Oeste” (“Vida Mundial”, 11-09-1975):

“Um filme sintomático da imagem que a indústria cinematográfica está, hoje em dia, mais interessada em fornecer de si mesma. Todo ele se constrói, afinal, de variações maniqueístas sobre uma única ideia: representar o cinema como uma sucessão de artifícios que se bastam a si próprios, cada qual ocultando e, ao mesmo tempo, anunciando o aparecimento do próximo.
Este trajecto povoado de duplos não conduz senão a um país de fantasmas, onde cada elemento reafirma constantemente uma pretensa auto-suficiência, sistematicamente caucionada pela sua sombra. O espectador é apenas o mais discreto e o mais comprometido desses elementos.”

sábado, janeiro 26, 2008

Escuros

Chegado a Portugal no agitado Agosto de 1975, “Balbúrdia no Oeste” (“Banzé no Oeste”, no Brasil) é um filme certeiro de Mel Brooks que envelheceu bem e ainda hoje se vê com agrado. Comparando com “Spaceballs” (o outro filme de Brooks que vi), é superior, nomeadamente na criação de personagens, e tem um grau menor de estupidez (sem exageros, claro), para alem de possuir uma das poucas cenas de flatulência no cinema com piada.

domingo, janeiro 20, 2008

Casal

“2 Dias em Paris”, de Julie Delpy

A actriz de “Branco” concretiza um projecto bastante pessoal (além de protagonizar o filme, realiza, escreve, produz e compõe a banda sonora) dirigindo a sua primeira longa-metragem, ambientada numa cidade que acaba por não ser exaustivamente filmada (o espectador tanto pode amar como odiar Paris).

A comédia romântica procura fugir aos clichés, apoiando-se nas dificuldades da relação entre as personagens de Delpy e Adam Goldberg, que descobrem mais do que esperavam sobre si. A química entre os actores e a credibilidade dos sentimentos que expressam (excepto talvez nas explosões de fúria de Delpy) favorecem a solidez do projecto, embora a realização exagere no aspecto “amador”.

A coexistência das línguas inglesa e francesa proporciona divertidas falhas de comunicação, servindo-se o humor igualmente do choque cultural. Para além de algumas provocações políticas, os diálogos recorrem a uma linguagem sexual directa que evita a grosseria. No geral, as piadas obtêm resultados razoáveis, sem se tornarem particularmente marcantes.

Trata-se de uma obra de estreia que revela várias fragilidades, mas recusa a facilidade e consegue mostrar uma perspectiva convincente dos problemas de um casal que procura, nem sempre com êxito, superar as diferenças entre os seus membros.
A melhor cena: Jack consulta o dicionário.
A pior cena: Jack é confundido com um assaltante.

Nota: 6/10.

Armas

“Jogos de Poder”, de Mike Nichols

O Afeganistão passou a ser alvo das atenções mundiais ao converter-se num campo de batalha da Guerra Fria. O envolvimento americano no apoio aos adversários da URSS (que mais tarde voltar-se-iam contra os EUA), para lá do envio de Rambo ao território afegão, é retratado por um filme que mostra as consequências decisivas da acção de um grupo reduzido de pessoas.

O argumento acerta com precisão no tom necessário, apostando no humor sem deixar de ser sério (e até um pouco amargo) e desenvolvendo a trama de forma bem construída. Os diálogos, por vezes de grande nível, são acompanhados pela mestria da realização de Nichols.

O elenco é já (mais de) meio caminho andado para o êxito da película, com Tom Hanks, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman (além de Amy Adams, já agora) a entregarem-se aos seus papéis com o brilhantismo habitual. Falta talvez uma caracterização mais aprofundada das personagens, o que é compreensível tendo em conta o carácter verídico da história.

Não chegando à genialidade, “Jogos de Poder” tem tudo no lugar certo e consegue abordar assuntos muito sérios sem perder uma saudável leveza, assumindo-se como uma sátira política certeira.
A melhor cena: Gust discute com o seu chefe.
A pior cena: A evolução das perdas soviéticas.

Nota: 7/10.

P.S. Continuo por aqui, pelo menos por enquanto…

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Memória

No ano passado, os dez filmes mais vistos nos cinemas portugueses foram, segundo a informação divulgada pelo ICA:

1. “Shrek o Terceiro”
2. “Ratatui”
3. “Piratas das Caraíbas: Nos Confins do Mundo”
4. “Mr. Bean em Férias”
5. “Harry Potter e a Ordem da Fénix”
6. “Homem-Aranha 3”
7. “Diamante de Sangue”
8. “Os Simpsons: O Filme”
9. “Ocean’s 13”
10. “A História de uma Abelha”

Tratou-se de um ano favorável à animação, com quatro longas-metragens desse género a constituírem êxitos de público, ao atrair tanto adultos como crianças (o filme com a voz de Jerry Seinfeld/Nuno Markl é um exemplo claro dessa abrangência, dominando as últimas semanas de 2007). As sequelas de obras de sucesso são igualmente uma aposta segura. Com os resultados limitados de “Corrupção” e a estreia tardia de “Call Girl”, frustra-se a expectativa de ver novamente um filme português entre os “grandes” do mercado.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Pavor

“Scary Movie 2” é semelhante às outras sequelas do êxito de 2000: um filme estúpido (sem pretender ser outra coisa, claro) com piadas disparatadas que só por acaso acertam no alvo muito de vez em quando e uma Anna Faris subaproveitada.

Feliz 2008 para todos!