sábado, outubro 06, 2007
México
Ben Stiller volta a trabalhar com os irmãos Farrelly uma década depois de “Doidos por Mary”, aproveitando uma premissa interessante e uma personagem adequada ao seu registo, tal como a oportunidade de contracenar com o pai (Jerry Stiller é sempre divertido como “cota maluco”).
Tal como em “Fanaticamente Apaixonado”, os Farrelly deixam escassas marcas pessoais no resultado final, surgindo apenas uma vez ou outra o humor directo e grosseiro que os celebrizou. Aliada à reduzida qualidade técnica da realização, esta assepsia torna o filme algo insosso e sem grandes momentos.
Começando de forma razoável, o argumento perde-se progressivamente num emaranhado de clichés, equívocos batidos e soluções óbvias, com as piadas a desgastar-se (como os “mariachis”) e a expressão dos sentimentos dos personagens a revelar-se aborrecida. Stiller e os actores secundários são convencionais, não desiludindo mas também não acrescentando muito à longa-metragem.
Esta comédia romântica acaba por não passar da mediania, apesar da bizarria (mais embaraçosa que engraçada) de algumas situações. Desde “O Amor é Cego” que os Farrelly não fazem um filme realmente divertido, o que é desapontante tendo em conta o talento e a irreverência de que outrora deram sinais.
A melhor cena: Eddie tenta voltar à Califórnia.
A pior cena: Eddie pensa que Miranda o compreende.
Nota: 5/10.
terça-feira, outubro 02, 2007
Chato
Para lá do julgamento subjectivo (embora o artigo não se alongue muito acerca das falhas da longa-metragem) sobre o valor de “As Vidas dos Outros”, surge a questão do rigor histórico no cinema. Deverá a fidelidade ao que realmente aconteceu (?) sobrepor-se às necessidades das histórias contadas pelos cineastas, nomeadamente nos casos em que sem um pouco de ficção não havia argumento (como acontece em “Gladiador”)? Quando não são abordados episódios verídicos, a obsessão com a verosimilhança parece-me dispensável, quanto mais não seja porque as histórias com maior interesse costumam ser precisamente aquelas que fogem à norma e ao que deveria ter acontecido.
Vasco Pulido Valente cumpre a função habitual do chato que não se deslumbra facilmente e põe tudo em causa, esclarecendo a ralé. É desconcertante, mas quem mais desempenharia esse papel?
segunda-feira, setembro 24, 2007
Álcool
O novo filme de Judd Apatow (aqui produtor) e Seth Rogen (actor e argumentista, protagonizando o ansiado “Um Azar do Caraças”) retrata uma fase de transição no percurso de dois jovens, entre o liceu e a faculdade, ou, noutro plano, entre a virgindade e a vida sexual. O maior trunfo da obra é precisamente o cuidado na descrição dessa encruzilhada, vivida por personagens bem construídas.
Como em “Virgem aos 40 Anos”, surge aqui a questão de como falar de sexo sem cair na vulgaridade ou na pura estupidez. Esta é combatida por um humor atrevido mas não grosseiro. Quanto à sexualidade, opta-se por dizer e mostrar tudo de forma descarada sem esquecer os sentimentos e recorrendo a provocações divertidas (como a série de desenhos exibida no final).
Apesar da fuga à asneira, o argumento nunca chega a ser brilhante, prolongando demais a história. A identificação com os jovens leva-nos a partilhar o embaraço destes com situações que caem no absurdo sem serem particularmente engraçadas. O trabalho eficaz dos actores sobressai devido à fraqueza da realização.
“Super Baldas” vale sobretudo pelo que não é, escapando a clichés e obscenidades frequentes no tipo de comédias em que se insere. O espírito do filme é um pouco aquele que é traduzido nos descontraídos polícias: diversão despretensiosa, fazendo disparates de vez em quando mas sem perder a sensibilidade.
A melhor cena: Seth explica porque não gosta de Becca.
A pior cena: Fogell dispara contra o carro.
Nota: 6/10.
terça-feira, setembro 18, 2007
Fim
Seria bom que surgisse uma nova publicação que preenchesse o vazio deixado pela “Premiere” e prosseguisse a tradição de revistas de cinema em Portugal que já vem dos anos 20. No entanto, este fracasso financeiro de um projecto aparentemente seguro, as despesas elevadas que uma publicação deste tipo envolve e experiências falhadas do passado (como a “Primeiras Imagens”) tornam improvável o aparecimento a curto prazo de uma iniciativa editorial ao nível cinematográfico
sábado, setembro 15, 2007
Animação
1. “Shrek o Terceiro”
2. “Piratas das Caraíbas: Nos Confins do Mundo”
3. “Mr. Bean em Férias”
4. “Harry Potter e a Ordem da Fénix”
5. “Homem-Aranha 3”
6. “Ratatui”
7. “Diamante de Sangue”
8. “Os Simpsons: O Filme”
9. “Ocean’s 13”
10. “Transformers”
As obras de animação revelam grande pujança, com “Ratatui” a pretender pôr em causa o primeiro lugar de “Shrek o Terceiro” (será difícil, mas não impossível). De resto, destaca-se “Diamante de Sangue”, como o único “sobrevivente” do primeiro trimestre do ano no rol.
quinta-feira, setembro 13, 2007
Isto anda muito mau por cá, o cinema anda pior
Falando apenas de cinema, posso desde já dizer que estou muito apreensivo com as escolhas que serão feitas até ao final do ano pelas distribuidoras.
Vendo a lista de filmes a estrear, fico muito hesitante. Falta aqui grandes filmes!
SETEMBRO 2007
![]() | DUELO IMORTAL - A ANIMAÇÃO Highlander: The Search for Vengeance de Yoshiaki Kawajiri com Dave Mitchell e Alistair Abell Surpreendente estreia, ver anime no cinema é sempre interessante. |
![]() | DUELO IMORTAL - A ORIGEM Highlander: The Source de Brett Leonard com Adrian Paul e Thekla Reuten Pelo que se ouve é um filme assustador. |
![]() | 2 DIAS EM PARIS 2 Days in Paris de Julie Delpy com Julie Delpy e Adam Goldberg Será que somente Delpy faz um filme ficar interessante? |
![]() | EM NOSSA CASA A Casa Nostra de Francesca Comencini com Valeria Golino e Luca Zingaretti |
![]() | O SABOR DA MELANCIA Tian Bian Yi Duo Yun de Ming-Liang Tsai com Kang-sheng Lee e Shiang-chyi Chen Trailer muito apetitoso... |
![]() | CHINA CHINA China China de João Pedro Rodrigues com Luís Rafael Chen e Chen Jialiang |
![]() | MALA NOCHE Mala Noche de Gus Van Sant com Tim Streeter e Doug Cooeyate |
![]() | UM CORAÇÃO PODEROSO A Mighty Heart de Michael Winterbottom com Angelina Jolie e Dan Futterman Alguma curiosidade, nada mais. |
![]() | O GANG DO PI Shark Bait de John Fox com Freddie Prinze Jr. e Evan Rachael Wood |
Dia 20
![]() | O CAPACETE DOURADO O Capacete Dourado de Jorge Cramez com Eduardo Frazão e Ana Moreira Trailer assustador. |
![]() | MORTE NUM FUNERAL Death at a Funeral de Frank Oz com Matthew MacFadyen e Rupert Graves Este deve ser um filme comercial competente. |
![]() | ULTIMATO The Bourne Ultimatum de Paul Greengrass com Matt Damon e Julia Stiles O primeiro bom final de uma trilogia do ano? |
![]() | MANDELA: MEU PRISIONEIRO, MEU AMIGO Goodbye Bafana de Bille August com Joseph Fiennes e Dennis Haysbert |
![]() | SUPER BALDAS Superbad de Greg Mottola com Jonah Hill e Michael Cera |
![]() | PINTAR OU FAZER AMOR Peindre ou Faire L’amour de Arnaud Larrieu com Sabine Azéma e Daniel Auteuil |
semanas seguintes
27-09-2007
SEM RESERVA (NO RESERVATIONS)
IRINA PALM
A MORTE DO SR. LAZARESCU
DOMINO
EL CANTANTE
FAY GRIM
OUTUBRO 2007
04-10-2007
A PROMESSA (THE PROMISE)
ESTÁS CADA VEZ MAIS FRITO, MEU! (ARE WE DONE YET?)
VIAGEM SECRETA
WHITE NOISE 2: THE LIGHT
GRINDHOUSE: PLANET TERROR
O CAMINHO DO GUERREIRO PACÍFICO (PEACEFUL WARRIOR)
11-10-2007
RESIDENT EVIL 3 - EXTINCTION
A VIDA INTERIOR DE MARTIN FROST
RUSH HOUR 3
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (LE SCAPHANDRE ET LE PAPILLON)
13-10-2007
A PAIXÃO DE JOSÉ, O JUDEU (LA PASSIONE DI GIOSUÉ L´EBREO)
18-10-2007
DELIRIOUS
A CAUDA DO TIGRE (THE TIGER'S TAIL)
AS CANÇÕES DE AMOR
12:08 EAST OF BUCAREST
CONTROL
ELES (ILS)
UM AZAR DO CARAÇAS
25-10-2007
THE BRAVE ONE
EVENING
LONELY HEARTS
A OUTRA MARGEM
BONNEVILLE
OS SEIS SINAIS DA LUZ (THE DARK IS RISING)
ANJOS E VIRGENS (VIRGIN TERRITORY)
Constatando, os recentes filmes dos festivais não estão presentes, sendo substituídos por todos os filmes comerciais por estrear. Mais uma vez, as distribuidoras esperam pelos Globos e Óscares para decidirem o futuro.
Para finalizar, esta lista foi retirada do site 7ª arte, a quem dou desde já os parabéns pelo excelente trabalho de divulgação cinematográfica.
segunda-feira, setembro 10, 2007
E sai uma americana no pão!
Mas por falar em pornográfico, veja-se a força que o capitalismo tem. Os ricaços matam e os pobres desgraçados que andam nos comboios são caçados. Roth gosta de imaginar cenas retorcidas e filmá-las dentro do possível com o mau gosto que cative os adolescentes americanos.
Sim, porque este mau gosto é uma máquina de fazer dinheiro e é um mau gosto cinematograficamente ignorante, sem chama e pouco provocador.
A Roth sugiro umas revisões da lição, uns visionamentos dos mestres Carpenter e Rommero, porque a litrada de sangue pode servir uma boa premissa.
sábado, setembro 08, 2007
Horror
“Voo 93”: Paul Greengrass retrata, além do caso do quarto avião desviado, a perplexidade e a descoordenação das autoridades civis e militares perante os ataques. A realização com a câmara sempre em movimento, apesar de por vezes favorecer a confusão e até algum distanciamento, destaca as personagens colectivas e cria, apesar do conhecimento prévio do final, bons momentos de “suspense”.
“World Trade Center”: Embora também parta de situações verídicas, a produção de maior vulto sobre o tema é afectada por uma abordagem algo convencional. Oliver Stone concebe um filme competente, evitando ferir susceptibilidades.
“11.09.01: 11 Perspectivas”: Recolha das opções artísticas de cineastas de vários pontos do mundo (o que é adequado a uma tragédia de impacto global) que apresenta propostas diversificadas, entre as que focam directamente os ataques ou (como a japonesa) reflectem sobre os fenómenos mentais e políticos na sua origem.
“Fahrenheit 9/11”: Michael Moore consegue um efeito emocional forte não mostrando as imagens bem conhecidas da destruição mas sim as reacções da população que a ela assistiu. O que surge depois são teorias, aceitáveis ou não segundo as convicções de cada um, sobre o contexto dos atentados e das guerras posteriores. No que respeita ao objectivo central do realizador, revela-se a inépcia do presidente Bush no momento de reagir.
"De Repente, Já nos 30!”: Se no final a personagem de Jennifer Garner recua de 2004 até 1987, não poderia fazer qualquer coisa para tentar evitar o 11 de Setembro (só mesmo eu para me lembrar disto)?
“A Última Hora”: Spike Lee apresenta uma obra brilhante e pioneira passada numa Nova Iorque onde as marcas (inclusive as físicas) dos atentados persistem, mas procura-se seguir em frente. Numa cena célebre, os terroristas são um dos alvos onde Edward Norton descarrega a sua raiva.
Os efeitos psicológicos gerados pelo 11 de Setembro estão igualmente presentes, de forma mais ou menos subtil, nos últimos filmes de Steven Spielberg (“Terminal de Aeroporto”, “Guerra dos Mundos”, “Munique”) e em numerosas produções, incluindo o cinema de acção.
Curiosidade
Ao nível que estes filmes estão, prefiro não os ordenar. São a meu ver, grandes filmes, grandes marcos da 7ª, aos quais deixo um breve comentário.
"Cartas de Iwo Jima"
Um filme obrigatório, um olhar há muito necessário, para um Mundo Ocidental marcado pelas imagens americanas da Guerra. Eastwood é o realizador certo, o homem respeitador de uma cultura e de uma forma de estar na vida.
"As Vidas dos Outros"
Notável, admirável na maneira como aborda a redenção e como as criações humanas podem fazer um homem criar e quebrar as suas convicções. Argumento brilhante, actor principal brilhante, que infelizmente já desapareceu.
"Zodiac"
Um filme que nos envolve naquilo que o próprio caso foi, inconclusivo. Fincher assina um filme brilhante, reforçado pelas escolhas artisticas certezas e por um cast de grupo brilhante.
"The Fountain"
Um dos filmes mais esquecidos e mal tratados do ano. INJUSTO!
Uma magnífica história de amor, magistralmente contada com o melhor papel da carreira de Hugh Jackman.
"Ratatui"
O melhor filme de animação dos últimos dez anos. Palavras para quê?
sábado, setembro 01, 2007
Provocação
Prosseguindo com o ciclo de filmes “indie” passados em Los Angeles (divulgados por cá através do DVD), encontramos esta comédia sensual e perversa que adopta uma atitude provocadora, fascinando pela amoralidade da sua protagonista.
Evan Rachel Wood parece nascida para o papel, revelando-se deliciosamente diabólica numa personagem manipuladora mas frágil lá no fundo. Muitos dos sorrisos causados pela obra devem-se também ao desbocado James Woods, com o resto do elenco a um nível regular. Os diálogos e a abordagem directa de questões como o racismo, a histeria mediática e até o conflito israelo-palestiniano constroem uma audaciosa incorrecção política.
Estreante na realização, Siega revela alguma inexperiência e falta de imaginação, com algumas cenas a parecer demasiado extensas. Apesar da eficácia da sua divisão temporal, o filme é algo desequilibrado, conhecendo no final uma arriscada deriva dramática.
Apesar das suas limitações e de ser por vezes excessivamente óbvio, “Inocência Sedutora” mostra a capacidade do cinema independente americano de se esquivar às convenções das grandes produções.
A melhor cena: Kimberley “conforta” Brittany após a ruptura.
A pior cena: Grace lê a redacção.
Nota: 6/10.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Até agora
1. "Cartas de Iwo Jima"
2. "Ratatui"
3. "Zodiac"
4. "As Vidas dos Outros"
5. "Hot Fuzz"
sábado, agosto 25, 2007
Relações
O filme que abriu o festival de Sundance em 2006 reúne um elenco feminino invejável (Jennifer Aniston, Joan Cusack, Catherine Keener e Frances McDormand), servindo-se dele Holofcener, também argumentista, para conduzir uma comédia dramática com mais melancolia que piadas.
O aspecto realista da obra, acentuado por uma realização que se concentra no trabalho dos actores, é um ponto a favor do retrato da vida de várias personagens de Los Angeles, focado sobretudo na convivência de amigas diferentes entre si e nas relações amorosas que possuem, com maior ou menor sucesso. A qualidade dos actores (nomeadamente McDormand) e dos diálogos é essencial para a eficácia e inteligência do projecto.
No entanto, esta longa-metragem sofre do problema raro de ser demasiado curta, terminando de forma quase abrupta e inviabilizando um maior desenvolvimento da situação de cada casal. O que “Amigos com Dinheiro” ganha em síntese perde no tempo reservado para cada uma das personagens.
A obra concebida por Holofcener revela-se um produto “indie” (tem gente a fumar erva e a discutir sexualidade) bem conseguido mas que não é suficientemente ambicioso para ficar na memória.
A melhor cena: Olivia no supermercado.
A pior cena: David lava os dentes.
Nota: 6/10.
AVP 2
O primeiro filme não me cativou. Primeiro mudou os designs das criaturas, fundamentalmente do Predator e depois colocou um PG-13. A Fox fez uma manobra inteligente, não mostrando o filme aos críticos antes da estreia. Posteriormente, foi considerado um filme menor e não deixou grandes saudades.
Curiosamente, descobri que este ano vai sair o segundo e pelo trailer, até não tem mau aspecto. É gore, os realizadores são novos e eram autores indie com prémios na carteira, o que sinceramente me deixou com algum interesse. O grande problema é que o PWAndeson inventou algo nojento, o Predalien...
Aqui podem ver o trailer.
sexta-feira, agosto 24, 2007
Um artigo verdadeiramente mau, um Verão pior.
Vi quase todos os Blockbusters de Verão e sinceramente um foi excelente e outro foi potável. Os restantes foram maus e o nº 3 já enjoava.
Tudo começou com os Piratas 3, que honestamente é chato e não conseguiu ter força para fechar a trilogia com alguma dignidade. Seguiu-se o Homem-Aranha, novamente nº 3, é sinceramente um dos piores filmes que vi. É estruturalmente nulo, o argumento é péssimo e não consigo perceber o que faz Sam Raimi dirigir algo tão mau. Shreck é mais do mesmo, com tendência a secar a fonte de piadas aos contos de fadas e nem o Burro consegue salvar a honra do convento.
Chegou aquele que estava à espera há muito tempo, Die Hard 4. Gostei de quase todo o filme, até ao avião e até ter revisto os anteriores, que são brutalmente melhores (mesmo o nº2). O argumento é fraco e pensando um pouco sobre o que vi, o filme tem uma enorme falta de coragem, sendo politicamente correcto ao extremo. Era vejamos:
- Pg-13 conseguido de uma maneira nojenta. Se ouvirmos com atenção no final o tiro esconde o palavrão "mother-fucker" e o McClane passa o filme a dizer butthead e palavras semelhantes.
- O Len Wiseman pode ser muita coisa menos um sábio (WiseMan). É um tarefeiro, que tem de melhorar muito a sua técnica de montagem.
- E o avião... Será que não fazia falta no Iraque? Tinha mesmo de estar ali?
No final, fiquei com a ideia que tinhamos um Willis cheio de ganas e um filme que não correspondeu ao litro que ele deu.
Que venham bons filmes por favor!
De resto, PONTO FINAL...
Powered by ScribeFire.
quinta-feira, agosto 23, 2007
Ficheiros Secretos
Até ao momento tive a oportunidade de assistir às três primeiras sessions. E que experiência magnífica...
Na era das séries de televisão, em que por todos os escaparates vemos dezenas de séries, desde recentes às mais antigas, não tenho receio em afirmar, que muito disto se deve aos X-Files e à série de Lynch, Twin Peaks. Os seus autores viram no espaço televisivo, algo mais que um espaço para contar histórias medianas, com uma estrutura muito estrita e sem grande valor narrativo e mesmo visual e cenográfico.
A diferença é que Carter conseguiu manter a qualidade global da sua série durante mais tempo e Lynch foi absorvido pelos produtores gananciosos que começaram a tirar-lhe o tapete e não lhe respeitaram o processo de autor.
No entanto, isto são outras histórias.
A série de Chris Carter é prodigiosa em termos visuais, os argumentos são magníficos (quero dizer que em cerca de 70 episódios existem mais altos que baixos) e a maneira como Carter presta homagem a grandes séries antigas (Twilight Zone) e aos cinematográficos mitos dos Extra-Terrestres, é digna de um grande apreciador de fitas de Série B, que as gosta de desconstruir e criar novos espaços para movimentar as suas criações.
Falando das suas criações falo de Mulder e Scully, personagens com uma dimensão fascinante e verdadeiros icones pop. A subversão completa do Buddy Cop é notável. Carter nunca se deixa cair na atracção e quimíca das personagens perferindo sempre elevar essa quimíca a uma amizade e respeito mútuos.
Um aspecto fundamental do visionamento em DVD é o seguimento da trama. Nos X-Files é fundamental ver todos, mesmo TODOS os episódios. Existem pequenos detalhes num episódio, que serão fundamentais para toda a trama que "rebenta" lá para o final de cada session. Um aspecto que os fãs adoram e que os outros não gostavam, é o facto de ficar sempre algo em aberto, disponível para a nossa imaginação, ou mesmo para a nossa interpretação. Foi isto que me fascionou e que me leva a recomendar o visionamento das três primeiras séries, já lançadas em Portugal.
NOTA: mais uma vez o trabalho da versão portuguesa é extremamente fraco. O dvd de extras muito interessante, com os relatos da equipa sobre a concepção de cada série não está legendado, o que realmente não dá para compreender.
Powered by ScribeFire.
segunda-feira, agosto 20, 2007
Passado
Combinando uma perspectiva realista (através do “regresso” do cinema a Nova Orleães após os danos, visíveis no filme, do “Katrina”) com uma aproximação à ficção científica, este “thriller” de acção aposta sobretudo no carisma de Denzel Washington e na habilidade de Scott em encenar o espectáculo.
Apesar das eventuais incoerências do esquema que permite a viagem no tempo, os riscos da introdução do elemento fantástico são eficazmente geridos. O argumento explora uma das possibilidades mais humanamente compreensíveis da ida ao passado, introduzindo-a com a verosimilhança possível e acentuando sobretudo a dinâmica da busca e do confronto com o vilão (Jim Caviezel breve mas impressionante). Apenas destoa o carácter algo forçado da ligação romântica e do final feliz a que conduz, habituais nas grandes produções.
Com um actor forte e imparável no principal papel, resta a Scott concentrar-se numa realização que encontra os planos mais adequados e imprime o ritmo necessário à trama. Trata-se, a esse nível, de um filme de acção exemplar, garantindo a emoção e o interesse ao longo de duas horas.
Os meios técnicos disponibilizados são utilizados competentemente numa obra que, embora talvez frágil na teoria que a orienta, assegura níveis elevados de entretenimento.
A melhor cena: A perseguição.
A pior cena: Claire aponta a arma a Doug.
Nota: 7/10.
Ratatouille
Quantos são os filmes, que vistos nos cinemas nos suscitam estes elogios. Mas quantos os
fazem perdurar no tempo?
Ratatouille é fascinante e será sempre maravilhoso. Tinha uma espectativa muito alta para este filme. Porquê? Sou um maluco por pequenos roedores e isto era um sonho, um filme com ratos. Andei a meter wallpapers do filme nos últimos meses e vi o trailer muitas vezes.
No entanto, pelo que tenho experiência, o filme nunca nos dá o que esperamos dele, dada a expectativa criada. Fico feliz quando vejo Ratatouille e constato que é o melhor filme de animação jamais feito com animais.
É uma afirmação forte, mas eu irei defendê-la com todas a minhas forças e posso justificá-la:
1º - Os humanos e os animais não falam.
2º - A comunicação é feita com mimíca, que gera as melhores cenas do filme.
3º - O rato tem um estrutura enquanto personagem, vincada e bem estruturada, tendo
família e interesses próprios.
4º - O humano não é de qualquer modo o defensor do modo correcto de fazer as coisas, nem
sequer o mote para o animalizinho. É tudo subvertido, sendo o humano que leva o animal à afirmação.
5º - O animal não canta.
Brad Bird cria um argumento delicioso, com um pulmão de aventura, que me recorda trabalhos de Hayao Miyazaki, sobretudo nas cenas de perseguição ao rato, que são magistrais momentos cinematográficos, tais como também vimos no Castle In The Sky ou mesmo Future Boy Conan.
Cinema total, muito inspirado, fascinante nos pequenos detalhes, com personagens carismáticas e opções artistícas que a Pixar estava a necessitar urgentemente, para fugir ao filme visualmente fantástico, mas sem um suporte narrativo consistente.
Brad Bird é o homem que John Lasseter necessita para quebrar e descontruir o estilo Pixar, este é um homem forte, com convicções e que consegue ombrear com o génio fundador Pixar e vice da Disney.
Possivelmente o melhor filme de animação Pixar, pós Monsters Inc ou mesmo Toy Story.
Um dos grandes filmes do ano e o melhor blockbuster de Verão até à data.
Classificação : 19(0-20)
segunda-feira, agosto 13, 2007
Estreias
Nick Guthe estreia-se no cinema com uma obra “indie” que combina actores conhecidos com a história de uma família disfuncional dos subúrbios ricos de Los Angeles que se vai desfazendo através do crime e da traição.
O argumento de Guthe revela inabilidade em lidar com o registo que assume, não convencendo como comédia nem como filme negro. Por sua vez, a debilidade da montagem e da realização parecem mais adequadas à televisão que ao cinema.
A interpretação de Carrie-Anne Moss, como uma mulher drogada e excessiva, fornece algumas situações divertidas, apesar da brutalidade que as caracteriza. Com o desaparecimento da personagem de Moss, tudo se torna bastante denunciado, destacando-se Alec Baldwin pela banalidade.
O filme serve para admirar a sensualidade da “mal-comportada” Nikki Reed e observar Carrie-Anne Moss como nunca a vimos antes, mas é demasiado fraco a todos os níveis para ganhar durabilidade.
A melhor cena: Diane procura as chaves.
A pior cena: Martin luta com Rudell.
Nota: 4/10.
quinta-feira, agosto 09, 2007
Tributo
Depois do falhanço de “Alexandre, o Grande”, Oliver Stone viu certamente com agrado um projecto comercialmente seguro que procuraria apelar à união do público americano e prestar tributo às vítimas e aos heróis do 11 de Setembro. Este propósito não seria necessariamente incoerente em relação ao percurso contestatário do realizador.
O sacrifício dos polícias nova-iorquinos é representado em “World Trade Center” pelos personagens verídicos interpretados por Nicholas Cage e Michael Peña, que contribuem para a eficácia do drama com o seu desempenho, sobretudo nas cenas passadas debaixo dos escombros. Por seu lado, Maria Bello e Maggie Gyllenhall cumprem sem grande rasgo o seu papel de faces mais visíveis das famílias afectadas pela tragédia. A vida dos casais é retratada em “flashbacks” que se tornam um pouco forçados.
Contido mas expressivo ao mostrar o choque e as situações impressionantes daquele dia, Stone revela-se demasiado convencional no tratamento do drama particular dos protagonistas e introduz cortes pouco plausíveis entre acontecimentos. O apelo aos sentimentos do espectador é por vezes demasiado básico e superficial, anulando a competência formal.
Trata-se de um filme muito “americano”, com o que isso tem de bom e de mau. No entanto, está longe de esgotar as abordagens possíveis do 11 de Setembro (inclusive quanto ao seu impacto mundial, brevemente referido por Stone), como já foi mostrado.
A melhor cena: O ruído do cano é detectado.
A pior cena: John magoa-se no telhado.
Nota: 6/10.
Sete
1. “Shrek o Terceiro”
2. “Piratas das Caraíbas: Nos Confins do Mundo”
3. “Mr. Bean em Férias”
4. “Homem-Aranha 3”
5. “Harry Potter e a Ordem da Fénix”
6. “Diamante de Sangue”
7. “Ocean’s 13”
8. “À Noite no Museu”
9. “Transformers”
10. “Babel”
Inicia-se já a competição cerrada entre as grandes produções de Verão, com o regresso de Shrek a revelar-se financeiramente triunfal, Potter a atrair o vasto público do costume e os robôs de Michael Bay a confirmarem o êxito internacional. Só Mr. Bean vai resistindo à inevitável queda na tabela das obras estreadas nos primeiros quatro meses do ano. Falta ainda avaliar o impacto da aventura cinematográfica dos Simpsons.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Soltas
“Hot Fuzz” é provavelmente a melhor “britcom” surgida no cinema desde os dois primeiros filmes dos Monty Python. Sobre o filme, nada tenho a acrescentar ao que outros já disseram com melhores palavras. Quanto à ausência da obra de Edgar Wright das salas portuguesas, pode justificar-se não só pela promiscuidade sexual das mães dos distribuidores nacionais como por uma certa falta de atenção ao cinema britânico, para lá dos modelos da comédia romântica e da palhaçada à Mr. Bean.
domingo, agosto 05, 2007
Engodo
A adaptação cinematográfica da história tão implausível que só poderia ser real de Clifford Irving e da sua falsa autobiografia de Howard Hughes provoca uma certa decepção. O resultado é satisfatório, mas deixa a sensação de que o filme poderia ter sido melhor conseguido.
O aspecto mais interessante da fita é a interpretação de Richard Gere, que rompe com a modorra instalada na sua carreira nos últimos anos, encarnando uma figura moralmente ambígua que acaba por se perder numa teia de mentiras. Alfred Molina também se revela hábil, sobretudo na vertente cómica do filme, enquanto as actrizes (Harden, Davis, Delpy) são demasiado secundárias para impressionar.
Hallström realiza, sem ultrapassar o nível do razoável, uma comédia dramática que revela alguma dificuldade em compatibilizar os géneros. O potencial humorístico do argumento é bem aproveitado de início, originando uma divertida lição de burla e mentira descarada, mas a reviravolta para o drama torna-se demasiado desconcertante.
Contextualizado historicamente de forma algo superficial (combinando imagens televisivas e manifestações de rua), o simples mas engenhoso logro de Clifford acaba por conduzir a um final pouco feliz, em vários sentidos. Permanece, no entanto, a audácia da ideia inicial.
A melhor cena: A aterragem não chega a acontecer.
A pior cena: Dick e Clifford discutem.
Nota: 6/10.
quarta-feira, agosto 01, 2007
DDR
A pouco e pouco e de forma discreta, o cinema alemão chega às salas portuguesas, sobretudo através de obras que abordam períodos marcantes da história germânica do século XX. “As Vidas dos Outros” retrata a ditadura da extinta República Democrática Alemã, não nas suas altas esferas mas partindo de um caso particular do sistema de vigilância e repressão controlado pela Stasi.
O centro da história reside na evolução do capitão Wiesler, superiormente interpretado por Ulrick Mühe (é pena conhecê-lo já depois da sua morte), e da sua atracção (que poderia ter sido melhor explicada) pelo casal que vigia. Abandonando a sua eficaz impassibilidade, Wiesler intervém directamente e cria uma relação especial e secreta com as vítimas. A força desta personagem e da sua transformação contribui em muito para o sucesso do filme, tal como a solidez dos desempenhos de Sebastian Koch, Martina Gedeck e do restante elenco.
Embora sem grandes inovações, von Donnersmarck constrói habilmente o conjunto, acompanhado por uma banda sonora de qualidade. Não me parece que o filme seja demasiado longo, terminando de forma comovente sem cair na lamechice.
Para além de transmitir de forma impressionante a opressão e a arbitrariedade do “socialismo real”, “As Vidas dos Outros” expressa fortemente o que um dos “vilões” caracteriza como a crença no homem e na sua possibilidade de redenção.
A melhor cena: A marca vermelha.
A pior cena: Wiesler prepara o jantar.
Nota: 9/10.
sábado, julho 28, 2007
Amarelo
Os personagens criados por Matt Groening fizeram parte da minha infância e adolescência e possuem ainda um estatuto único na cultura popular, mas com o passar dos anos a série televisiva foi revelando algum desgaste e provocando cansaço. A adaptação para o cinema, embora não desiludindo, não vem proporcionar uma maior frescura.
Como se advertia na publicidade, o filme atreve-se a ser feio, manifestando falhas na animação e na realização, o que não prejudica o espírito do projecto. Os argumentistas mantêm um sentido espantoso de ritmo e “timing” da comédia e divertem-se a parodiar o próprio formato em que se estreiam.
Embora a história não seja grande coisa e se limite a criar um episódio gigante, o humor nunca cai na estupidez (ou antes, na estupidez sem piada). Os membros da família Simpson possuem as características habituais, garantindo a empatia com o espectador. Já quanto às personagens secundárias, apesar da sua forte proliferação, conhecem um desenvolvimento escasso, pouco acrescentando ao filme.
Sem a criatividade e mordacidade de outros tempos, as piadas não ultrapassam o nível médio. Mas é um filme dos Simpsons e isso chega para justificar a ida ao cinema.
A melhor cena: “To be continued…”
A pior cena: A exposição de Lisa.
Nota: 6/10.
terça-feira, julho 24, 2007
Pipoca IV
Tenho de agradecer à Sara e ao Fernando, duas das mais brilhantes figuras do país, que deram origem a este projecto, e, obviamente, àqueles que desde 2003 gastam tempo a visitar este espaço. Obrigado a todos!
segunda-feira, julho 23, 2007
Impostos
Ficção e realidade cruzam-se numa longa-metragem que coloca questões acerca do que fazer com a vida. Será o final a parte mais importante, ou dever-se-á preencher o melhor possível a narrativa?
O argumento de Zach Helm (talvez mais importante que a realização competente de Forster) joga com as convenções da literatura e eleva a um novo patamar a relação entre autor e personagem, num filme de cenários despojados e quase monocolores.
Para lá da criatividade da premissa e do ritmo bem concebido que é obtido, a fluidez da obra concentra-se no trabalho de Will Ferrell, aqui mais contido que o habitual mas tremendamente eficaz como a personagem que nenhum espectador (ou leitor?) gostaria de ver desaparecer. Os restantes actores (com destaque para a doçura de Maggie Gyllenhall) interpretam correctamente papéis pouco complexos.
Embora não sendo brilhante (ou uma obra-prima, segundo a apreciação da personagem de Dustin Hoffmann), "Contado Ninguém Acredita" é uma (possível "spoiler") comédia sem nenhum ponto particularmente fraco por onde atacar. Além de que, na minha opinião, o final que acaba por se concretizar é bem mais inspirado que a primeira versão.
A melhor cena: Harold encontra-se com Karen depois de ler o livro.
A pior cena: Karen e Penny debaixo de chuva.
Nota: 7/10.
quarta-feira, julho 18, 2007
Conclusão
A actuação da “Política do Espírito” em matéria cinematográfica assenta, assim, no uso pela tradição das armas da modernidade. Recorrer aos mais avançados meios técnicos para a difusão de sons e imagens serviria para educar os portugueses nos valores tradicionais e no respeito pela ideologia do Estado Novo. O relativo fracasso de António Ferro nessa missão pode explicar-se pela recusa dos seus objectivos por parte de muitos dos agentes cinematográficos, mais preocupados com o êxito comercial ou a apresentação de alternativas estéticas e temáticas (como as que serão divulgadas pelos cineclubes, cujo desenvolvimento se inicia verdadeiramente por volta de 1948).
domingo, julho 15, 2007
Púbico
O grande fenómeno cinematográfico de 2006 foi protagonizado por um repórter cazaque que partiu para conhecer os Estados Unidos. A personagem de Sacha Baron Cohen tornou-se (justamente) um ícone da cultura popular e causou polémica entre a crítica, dividida entre o aplauso (veja-se Nuno Markl, um pouco exagerado na avaliação de comédias) e a repulsa por um filme de 80 minutos com um título enorme.
Tecnicamente, a obra de Charles é bastante pobre, mas isso pouco importa. O espectáculo está nas mãos de Cohen/Borat e este desde cedo deixa claro ao que vem, passando o “documentário” a humilhar-se em público e a gozar com a estupidez americana. A apreciação desta técnica é bastante subjectiva (eu acho-a fracassada e um pouco embaraçosa), mas a contínua rajada de piadas não deixa ninguém indiferente.
Borat e o seu universo (?) são muito bem construídos e a interpretação de Cohen prova que a comédia está longe de ser um género fácil de praticar. Ignorando os limites do bom gosto, Borat consegue ser coerente e divertir a sério pelo seu absurdo. É pena que a interacção com as personagens “reais” não seja tão bem conseguida.
O DVD do filme é muito interessante, não só pelos menus em “cazaque” mas sobretudo pelas cenas cortadas, frequentemente mais divertidas que as incluídas na versão final.
A melhor cena: Borat luta com Azamat.
A pior cena: Borat bebe com os estudantes americanos.
Nota: 6/10.
domingo, julho 08, 2007
Ainda vivo
“O Bruce Willis é altamente”, diz uma das personagens do filme de António Ferreira “Respirar (Debaixo d’Água)”. A frase é acertada, uma vez que, apesar de ter entrado em muitas produções de baixa qualidade, Willis detém um carisma pessoal que estimula a empatia com o espectador. É essa característica que possibilita o regresso com classe de John McClane, o mais sarcástico e resistente dos heróis de acção.
A série “Die Hard”, depois de um início clássico, consegue a proeza de, embora inovando pouco, não cair no disparate e assegurar níveis assinaláveis de tensão e espectáculo. No caso do quarto capítulo, a história vale por abordar um tipo de terrorismo que possui forte impacto sem cair (excepto sob a forma de simulação) em destruições previsíveis. Apesar de eventuais falhas (como algumas cenas que apenas tornam o filme mais longo ou a introdução algo forçada da filha de McClane), o essencial do argumento é permitir que o protagonista brilhe, função que cumpre eficazmente, tal como a realização de Wiseman, sem grandes traços individuais mas capaz de produzir cenas de acção empolgantes.
Para lá de Willis, que continua igual a si próprio, os actores, nomeadamente Justin Long e Timothy Olyphant, assinam boas prestações, embora não deixem de fazer recordar o passado, sobretudo quanto à qualidade do vilão e dos seus diálogos com o polícia nova-iorquino.
A nova aventura de McClane é um filme de pancada à moda antiga que funciona bem no meio de toda a tecnologia do século XXI. Trata-se de uma sequela bem concebida, algo que começa a ser raro.
A melhor cena: A “catch-phrase”.
A pior cena: Um avião persegue McClane.
Nota: 6/10.
quinta-feira, julho 05, 2007
Meio ano
1. “Mr. Bean em Férias”
2. “Piratas das Caraíbas: Nos Confins do Mundo”
3. “Homem-Aranha 3”
4. “Diamante de Sangue”
5. “Shrek o Terceiro”
6. “À Noite no Museu”
7. “Babel”
8. “Norbit”
9. “Apocalypto”
10. “Ocean’s 13”
O novo filme do ogre verde teve a melhor estreia do ano, ultrapassando na primeira semana os 250 mil espectadores e dando a entender que igualará o primeiro lugar alcançado por "Shrek 2" em 2004. Os outros "blockbusters" portam-se razoavelmente bem nas bilheteiras.
sábado, junho 30, 2007
Tirano
O já falecido Idi Amin Dada serve de inspiração a mais um dos filmes “africanos” (o continente ganha uma crescente visibilidade, tendo Fernando Meirelles mostrado as suas possibilidades cénicas e artísticas) dos últimos anos, que apresenta da perspectiva de personagens ficcionais o ambiente de violência do Uganda nos anos 70.
A figura do general alçado a presidente, fascinante pela sua brutalidade, parece à medida para o papel da vida de Forest Whitaker, actor de méritos agora justamente reconhecidos que expõe de forma brilhante a força, simplicidade e bizarria da personagem. Já James McAvoy não consegue ser plenamente convincente num médico frágil a nível narrativo que parece mudar de emoções muito depressa. Os seus interesses amorosos, interpretados por Kerry Washington e Gillian Anderson, possuem uma função quase decorativa no filme.
A realização de Macdonald é pouco eficaz, exagerando no tremor da câmara e optando por soluções demasiado óbvias, presentes também na montagem. A obra raramente conquista o espectador e, embora minimamente competente, pouco oferece além do choque provocado pelo insólito comportamento do ditador.
O resultado final não deixa de ser interessante, mas “O Último Rei da Escócia” ficará conhecido apenas como o filme que deu o Óscar a Forest Whitaker.
A melhor cena: Amin conversa pela última vez com Nicholas.
A pior cena: Nicholas relembra o passado.
Nota: 6/10.
sábado, junho 23, 2007
Naufrágio
A dose de sequelas deste ano tem deixado a desejar e prolongado a fama negativa das continuações de filmes de sucesso. Parece que, ao terceiro capítulo, as fórmulas começam a gastar-se e a busca dos lucros comerciais torna-se mais importante que a criatividade.
O regresso do ogre verde e das personagens que o acompanham integra-se nesta tendência, perdendo a frescura e a irreverência de 2001 e 2004. Verifica-se uma grande quebra no humor, quer nas referências cinéfilas quer quanto à subversão dos contos de fadas, caindo-se em soluções óbvias. Chega a ser penoso acompanhar a obra devido à certeza de que já se fez muito melhor.
Ainda que se mantenham as qualidades técnicas e o brilho das vozes, as peripécias da história surgem forçadas e por vezes moralistas. Nada de relevante é acrescentado às personagens que já conhecemos, enquanto as novas são muito fracas ou deficientemente desenvolvidas.
A ausência de um final à altura dos anteriores acaba por comprovar a falta de conteúdo do filme e a desilusão provocada pelo falhanço do conjunto. O anúncio de futuras aventuras de Shrek não parece muito prometedor.
A melhor cena: O baptismo do navio.
A pior cena: Artie converte os vilões.
Nota: 5/10.
segunda-feira, junho 18, 2007
Sul
Como pôde fracassar estrondosamente nas bilheteiras e ir directo para o mercado de DVD português um filme com actores como Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins e Mark Ruffalo? De facto, só vendo a obra de Zaillan se compreende a lenda negra criada em torno desta história de um político populista que enfrenta de forma pouco limpa, como governador, a oposição das elites da Louisiana.
De facto, Penn desempenha bem a sua personagem, embora esta raramente ultrapasse a caricatura. Quanto aos restantes intérpretes, não são maus, mas a verdade é que não encaixam naqueles papéis (mostrando-se a narração de Jude Law demasiado literária e supérflua). Os diálogos estão repletos de tiradas aparentemente profundas, porém estas não significam nada. Em suma, a ideia era boa, no entanto a concretização é desastrosa.
Com um desenvolvimento que nos permite adivinhar sempre o que acontece a seguir, “O Caminho do Poder” (“All the King’s Men” no original) revela-se desinspirado e pretensioso. Zaillan falha na realização e apresenta um trabalho com uma seriedade tão básica e forçada (veja-se o sangue no chão a preto e branco) que roça o risível. Tanto o início como o final parecem demasiado apressados e insuficientes.
Os meios disponibilizados acabam por ser inúteis perante o vazio do conjunto. Podia-se ter obtido o mesmo resultado por um menor preço e com actores menos conhecidos. Pelo menos assim o prejuízo financeiro não seria tão grande.
A melhor cena: Willie dispensa o discurso escrito.
A pior cena: Anne pede a ajuda de Jack.
Nota: 4/10.
sexta-feira, junho 15, 2007
Ameaças
Querubim Guimarães: “Nós encontramo-nos sob uma avalanche de filmes norte-americanos que invadem os nossos cinemas numa percentagem de 80 por cento e que são, na verdade, nem mais nem menos do que uma verdadeira desnacionalização para nós, porque são tanta vez a adulteração do nosso carácter, do nosso modo de sentir, da nossa própria dignidade, das nossas tradições familiares, das nossas tradições religiosas e sociais, e representam uma porta aberta para perigos que atingem as crianças, os jovens e os próprios adultos, enfim, toda a gente que ali encontra elementos próprios para se perverter, com emoções graves para as crianças, como já foi constatado em inquéritos feitos, despertando precocemente nos sentidos tudo o que de perigoso eles contêm, em impressões que não são fugazes, porque permanecem e estimulam doentias curiosidades como a daquela criança que se lastimava à mãe por ter chegado tarde ao cinema e não ter visto uma parte do filme em que se fazia referência ao nascimento de um bebé. Então perguntava ela insistentemente à mãe como era isso, ao que a mãe nada podia responder. A criança, assim perturbada, tinha uns 12 anos, e era uma rapariga!
Todos sabemos que a criança é naturalmente curiosa e deseja ser informada de tudo o que a impressione, de tudo quanto vê.Todavia, continua letra morta a lei, que aqui foi aprovada, de protecção aos menores, proibindo-lhes a assistência a espectáculos cinematográficos até uma certa idade. Não se regulamentou ainda a lei, o que permite portanto que as crianças continuem a ir ao cinema. A própria juventude se perverte de uma maneira extraordinária nesses espectáculos. É um problema grave para o futuro da nossa gente.
Numa nota que aqui tenho a respeito de um inquérito feito aos filmes americanos, lêem-se os seguintes números: de 632 filmes que foram inspeccionados, 113 representavam atentados contra o pudor, 117 giravam à volta de adultérios, 38 faziam a apologia do divórcio, 172 eram bazares de modas indecentes e 192 respeitavam a “flirts” descarados e inconvenientes.A conclusão deste inquérito é deveras significativa. (…)”
Pinheiro Torres: “A percentagem dos filmes estrangeiros que passam nos nossos cinemas é de 98 por cento, dos quais 90 por cento são americanos. Com a frequência ao cinema estrangeiro, vivendo ambientes que não são os nossos, ouvindo uma língua que não é a nossa, mostrando costumes que não são os nossos, expandindo ideias e sentimentos que não são os nossos, com a marcada tendência cosmopolita do nosso feitio, corremos igualmente grave risco de enfraquecer ou até perder a nossa individualidade.
Depois, o que este país nos exporta, com raras excepções magníficas, é o pior que lá se produz, no ponto de vista moral e social, com certeza, daqueles filmes que combate a Legion of Decency, liga organizada em Nova Iorque para lhes pôr cobro, pelos efeitos deploráveis que exercem no povo, principalmente na mocidade, levando-o até à prática de actos criminosos. É justo dizer-se que, mercê dessas campanhas, Hollywood está a arrepiar caminho e a apresentar cinema moral e educativo.
Só para amostra, e não porque queira nesta altura focar esse aspecto, tiro estes números de um jornal, referidos a 1943:
De Janeiro a Novembro desse ano o secretariado de cinema e rádio da Acção Católica Portuguesa censurou 271 películas, verificando que 88 por cento eram impróprias para crianças, 20 por cento condenáveis em absoluto e só 54 por cento próprias para adultos.Os temas, os enredos, resume-os assim aquela notícia: apologia do adultério, do divórcio ou pondo a ridículo o casamento e a mulher honesta, 44 filmes; o suicídio como meio legítimo de pôr termo a situações difíceis, 8; demonstração pormenorizada de burlas, assaltos e roubos, 25; ausência de respeito pela vida humana, com práticas de assassinatos, raptos ou violências de toda a ordem, 96; cenas de autêntico amor livre ou desregramentos morais, 95. (…)
E o mais grave é que os filmes piores são exibidos em cinemas de bairro ou populares.As estatísticas indicam que são esses cinemas os que registam maior actividade, numa média de 726 espectáculos anuais, o que significa que quase diariamente há duas sessões. Quer dizer: uma grande parte da população portuguesa, a mais influenciável, porque menos culta, assiste diariamente, durante três horas, a espectáculos da natureza que indiquei - imoral e estrangeiro - recebendo a infiltração, a intoxicação deletéria, de tudo quanto negamos, de tudo quanto queremos que ela se afaste! (…)”
O cinema nada tinha de inofensivo para os dois deputados, cujas intervenções se enquadram na discussão do decreto-lei que daria origem à Lei de Protecção ao Cinema Nacional. O objectivo deste diploma era precisamente fomentar a produção de filmes de “espírito português”, combatendo a desnacionalização praticada pelas exportações americanas.
Os receios da elite política e as estatísticas elaboradas pelos olhos dos censores apontam para um fenómeno muito interessante: a abertura ao exterior e a transformação dos hábitos sociais do público português através do contacto com os “perigosos” filmes americanos dos anos 40.
segunda-feira, junho 11, 2007
Jogo
Depois de uma autêntica preciosidade de entretenimento e um divertido exercício de auto-ironia, Soderbergh volta a reunir o bando de Ocean, desta vez apenas para matar saudades e prolongar a série.
Prejudicado pela perda do elemento feminino (insuficientemente compensada por Ellen Barkin), o filme sofre de uma certa pobreza ao nível da história e das personagens (incluindo o vilão de Al Pacino), limitando-se a seguir uma fórmula já testada. Embora a longa-metragem nunca se torne aborrecida, também não conhece picos de excitação ou “suspense”.
O elenco é mais que sólido e desempenha os seus papéis com descontracção. Essa leveza acompanhada por momentos razoáveis de humor favorece a adesão do espectador e garante que o essencial da série está lá, apesar de tudo. Não faltam, aliás, as habilidades com a câmara de Soderbergh.
Jogando sempre pelo seguro e pouco acrescentando àquilo que já conhecíamos, “Ocean’s 13” cumpre os serviços mínimos em matéria de espectáculo, sem pretender ir mais além.
A melhor cena: Danny e Rusty relembram a Las Vegas do passado.
A pior cena: Abby e Linus encontram-se na “villa”.
Nota: 6/10.
quinta-feira, junho 07, 2007
Sucessos
1. “Mr. Bean em Férias”
2. “Homem-Aranha 3”
3. “Diamante de Sangue”
4. “À Noite no Museu”
5. “Babel”
6. “Apocalypto”
7. “300”
8. “Norbit”
9. “Piratas das Caraíbas: Nos Confins do Mundo”
10. “Déjà Vu”
Os últimos “blockbusters” fazem uma entrada fulgurante na tabela do ICAM (repare-se que o filme de Gore Verbinski contava na altura apenas uma semana de exibição), embora a terceira aventura do aracnídeo dificilmente tenha hipóteses de alcançar o primeiro lugar. De resto, não há alterações a registar.
segunda-feira, junho 04, 2007
Açores
As distopias costumam ser barómetros das principais preocupações da época em que são produzidas. Nesse aspecto, “Os Filhos do Homem” é abundante ao mostrar a sua sociedade futura (marcada pelo reduzido valor da vida humana), abordando temas como o terrorismo, a imigração, as epidemias de gripe (das aves?), as guerras e, obviamente, a escassa natalidade e os seus efeitos na renovação de gerações.
A premissa e a construção do ambiente futurista (e decadente) são bastante interessantes, acompanhadas por uma realização bem conseguida de Cuarón (embora por vezes exagere na sensação de “câmara ao ombro”). Não me parece que exista uma ruptura entre as diversas partes do filme, surgindo a acção como elemento coerente no conjunto caótico e mantendo-se a ligação entre o espectador e as personagens. No entanto, alguns aspectos do passado e dos sentimentos destas poderiam ter sido melhor desenvolvidos.
Com Julianne Moore a ter uma participação quase simbólica e Michael Caine impressionante, mas pouco visível, o filme é em grande parte de Clive Owen, um herói perfeito entre a coragem e o cepticismo, sobrevivendo no meio de ruínas.
Alertando para os riscos do presente e realçando a perda de humanidade, compensada apenas pelos valores mais sinceros (como a paixão pela arte ou o apego às crianças), “Os Filhos do Homem” não é perfeito, mas constitui uma combinação eficaz de “thriller” e ficção científica.
A melhor cena: O parto de Kee.
A pior cena: Theo e Julian no autocarro.
Nota: 7/10.
quinta-feira, maio 31, 2007
Enigma
Baseada em factos reais, esta longa-metragem apresenta uma visão da actividade do detective bastante “seca”, substituindo tiroteios e perseguições por pistas inconclusivas e contraditórias, larga variedade de suspeitos, cooperação deficiente entre forças policiais e a aparente impossibilidade de chegar a um ponto final. Com toda esta “realidade”, que chega a sorrir ironicamente da simplicidade dos argumentos do cinema de acção, não seria fácil criar um filme estimulante, mas Fincher alcança o objectivo com precisão.
Se a execução dos diferentes crimes é um pouco convencional (ou melhor, é a realidade que inspirou as convenções), o filme ganha fôlego ao envolver-nos nos contornos obsessivos que a investigação ganha nas vidas dos polícias e do inesperado cartoonista que a realizam. O ritmo frenético, o acumular de indícios e a frustração a que levam os caminhos sem saída são desenvolvidos de forma exemplar, apoiados no melhor trabalho de sempre de Jake Gyllenhall e na consistência do restante elenco.
Fincher mostra-se aqui relativamente discreto, fazendo piruetas com a câmara apenas em algumas ocasiões. No entanto, a sua marca não se deixa de fazer sentir, pelo talento no acompanhamento dos diálogos, na fuga aos tempos mortos ou através da coerência de toda a obra. No final, não sobram dúvidas de que estamos perante um mestre em contar histórias (sempre algo bizarras) e na criação de “suspense”.
“Zodiac” não é o melhor filme de Fincher (para mim, esse título é difícil de retirar a “Seven”), mas, precisamente pela sua crueza, trata-se de um regresso inspirado do cineasta e de uma caça vibrante a um “serial killer” nebuloso.
A melhor cena: Robert fala com David sobre Leigh.
A pior cena: Paul e Robert vão juntos ao bar pela primeira vez.
Nota: 9/10.
sábado, maio 26, 2007
Marcas
“Alexandre, o Grande”, de Oliver Stone: Todos os meios possíveis para realizar um filme histórico são inúteis quando se têm más ideias sobre o que fazer com eles.
“Amanhecer Violento”, de John Milius: Mostrou-me que a Guerra Fria não deixou de fazer sentir os seus efeitos perniciosos no cinema, sobretudo nos anos 80.
“Astérix e Obélix Contra César”, de Claude Zidi: O primeiro filme a dar-me vontade de insultar as mães do produtor e do realizador.
“Casablanca”: Passei a poder andar de cabeça levantada na rua depois de deixar de ser o único a não o ter visto.
“Date Movie”, de Aaron Seltzer: Introduziu o género da comédia com tão pouca graça (mas julgando-se hilariante) que se torna divertidíssima, prosseguido depois com “Epic Movie”.
“Inadaptado”, de Spike Jonze: Encontrei em Charlie Kaufman (o personagem) a minha encarnação no grande ecrã.
“Linda de Morrer”, de Michael Patrick Jann: Afinal, é possível fazer um “South Park” em imagem real, ainda por cima com um conjunto de actrizes que…
“Monty Python e o Cálice Sagrado”: Provou que as comédias também podem ser grandes filmes.
“Psico”, de Alfred Hitchcock: Grande cinema é sempre grande cinema, mesmo quando é visto em tempos complicados.
“Seven – Sete Pecados Mortais”, de David Fincher: Preveniu-me de que, quando um personagem afirma que a história vai acabar mal, é melhor levá-lo a sério. Foi também o primeiro filme que vi em formato DVD.
segunda-feira, maio 21, 2007
Protecção
O diploma legislativo cria o Fundo Cinematográfico Nacional, administrado pelo SNI e visando financiar os projectos deste de apoio ao cinema português, incluindo a criação da Cinemateca (cuja direcção é entregue a Félix Ribeiro). As receitas do Fundo seriam fornecidas, em grande parte, pela taxa de exibição cobrada sobre qualquer filme explorado comercialmente em Portugal (essa exploração dependia de uma licença da Inspecção dos Espectáculos, apoiada num parecer favorável da Comissão de Censura).
A administração do Fundo viria a ser regulamentada pelos decretos 37 369 e 37 370, de 11 de Abril de 1949 (já no último ano da acção de Ferro à frente do Secretariado). Assim, a gestão realizada pelo SNI apoiar-se-ia na consulta do Conselho do Cinema, um órgão presidido pelo director do Secretariado e que incluía delegados do grémio representativo da indústria cinematográfica e do sindicato nacional dos técnicos que nela trabalhassem. As despesas e o orçamento do Fundo não seriam controlados pelo Tribunal de Contas e dependeriam apenas da aprovação de Salazar.
Quanto à concessão de subsídios ou empréstimos aos cineastas que apresentassem os seus projectos ao SNI, obedecia a regras que implicavam um controlo apertado por parte deste. O projecto deveria incluir o argumento e os diálogos, a lista dos actores e equipa técnica, um orçamento detalhado e um plano de trabalho preciso. A aprovação garantiria a concessão imediata de 30% da verba, seguida de outros 30% no início das filmagens e dos restantes 40% após a conclusão do filme. Até esta ocorrer, os produtores deveriam “facilitar por todas as formas a fiscalização das produções pelo Secretariado”, de modo a evitar quaisquer desvios em relação ao projecto aprovado. Além disso, o secretário nacional designaria um representante para a rodagem de cada filme, com a função de emitir “as directivas que reputar necessárias”.
A lei n.º 2027 define o conceito de “filme português”, ao qual poderiam ser aplicados os apoios do Fundo. Para além dos critérios da língua e da produção em estúdios portugueses, é indicada a necessidade do filme ser “representativo do espírito português, quer traduza a psicologia, os costumes, as tradições, a história, a alma colectiva do povo, quer se inspire nos grandes temas da vida e da cultura universais”. Da mesma forma, a participação de estrangeiros na equipa técnica de filmes nacionais depende da autorização do Secretariado. O diploma proíbe ainda a dobragem das películas estrangeiras e estabelece que documentários e filmes noticiosos terão de ser narrados em português (o que poderia facilitar a sua censura).
Os beneficiários do Fundo Cinematográfico Nacional não seriam as comédias e outros filmes de elevadas receitas, mas sim, segundo Ferro, “aqueles que não se consideram suficientemente comerciais”. O propagandista prevê que esta diferenciação levará a uma protecção exclusiva dos cineastas “que se adaptem com mais compreensão ao nosso critério”, mas afirma-se indiferente às críticas daí resultantes. Na verdade, o esquema de protecção à produção portuguesa elaborado pela lei n.º 2027 atribui ao director do SNI o poder de controlar a actividade dos produtores e realizadores, que teriam de se guiar, em troca de apoios financeiros, pelos padrões definidos pelo organismo oficial.
Permanecendo em vigor até 1971, a lei n.º 2027 em pouco ou nada contribuiria para o desenvolvimento do cinema nacional.
sábado, maio 19, 2007
Documentarismo oficial
O decreto-lei que regula o SPN em 1933 refere o cinema como um dos “meios indispensáveis à sua acção”. Nesse ano, o filme de Vaz Monteiro sobre a visita a Évora do Presidente da República, Óscar Carmona, inaugura a longa produção documental que será subsidiada pelo organismo oficial.
Em 12 de Fevereiro de 1935, Ferro discursa na sede do Sindicato Nacional dos Caixeiros do Distrito de Lisboa, onde ocorre a cerimónia de apresentação do Cinema Ambulante, iniciativa do SPN que pretende empreender a divulgação do cinema, sobretudo nas áreas rurais onde não era ainda conhecido. Acompanhado pelo director da Secção Cinematográfica do SPN, Félix Ribeiro, Ferro prevê um acentuar das “necessidades espirituais das classes trabalhadoras” provocado pelos espectáculos, que deverão funcionar em conjunto com representações teatrais e ser precedidos por “breves conferências doutrinárias”. As sessões organizadas pelo Secretariado, realizadas preferencialmente ao ar livre, entre Maio e Novembro, deveriam levar às populações “mancheias de alegria, imagens do Mundo, flores de civilização e do espírito”. Em 1947, o então SNI contabiliza que o Cinema Ambulante, exibindo as obras financiadas pelo organismo de Ferro, promoveu já 2235 espectáculos, aos quais assistiram mais de 2,3 milhões de pessoas.
Os cineastas ao serviço do Secretariado, como os realizadores Artur Costa de Macedo, Salazar Diniz, Manuel Luís Vieira, Octávio Bobone, Aníbal Contreiras e António Lopes Ribeiro (que estabelece uma colaboração assídua com Ferro), criam, entre 1933 e 1949, mais de 70 documentários, produzidos pelo SPN/SNI ou pela Sociedade Portuguesa de Actualidades Cinematográficas (SPAC), dirigida por Lopes Ribeiro. Os temas abordados por essas produções, realizadas sobretudo antes da II Guerra Mundial (que torna a película cinematográfica mais cara e escassa, obrigando à poupança), incluem costumes e paisagens nacionais, festas populares e numerosos eventos promovidos pelo Estado Novo, como inaugurações, actividades da Legião e da Mocidade Portuguesa, viagens oficiais de Carmona (nomeadamente a Angola, em 1939, e aos Açores, dois anos depois) e manifestações de apoio ao regime. Ocorrências especiais são mostradas por filmes como "As Festas do Duplo Centenário" (1940), "A Exposição do Mundo Português" (1941), "Inauguração do Estádio Nacional" (1944) e "A Manifestação a Salazar pela Paz Portuguesa" (1945), todos realizados por Lopes Ribeiro.
Após o final do conflito mundial, rareiam as grandes celebrações públicas e a atenção dos documentaristas concentra-se no fomento económico operado pela ditadura. Entretanto, cumprindo uma intenção manifestada desde o início das suas funções, Ferro lança em Fevereiro de 1938 o boletim de actualidades "Jornal Português", que reúne diversas curtas-metragens que fazem a propaganda do regime, relatam acontecimentos oficiais e abordam eventos como festas religiosas ou partidas de futebol. Exibido no estrangeiro, sobretudo em países com numerosos emigrantes portugueses, nomeadamente o Brasil, o "Jornal Português" prolongar-se-á até 1951, com uma periodicidade bastante irregular e gerando críticas pela sua escassa qualidade e falta de actualidade das notícias.
(Peço desculpa se os aborreci...)
segunda-feira, maio 14, 2007
Negro
Os filmes de Raimi sobre as aventuras do super-herói aracnídeo têm sido praticamente consensuais. De facto, os dois primeiros capítulos da saga obtiveram grande aceitação, mesmo entre os críticos mais exigentes. Por seu turno, a (aparente) conclusão tem gerado desilusão um pouco por todo o lado.
As expectativas criadas pela eficácia e consistência dos predecessores são frustradas pela sucessão de ideias fracas no argumento de “Homem-Aranha 3”. A parte de puro espectáculo é assegurada pelas movimentadas cenas de acção e pelos efeitos ultra-especiais que fazem surgir Sandman e Venom, mas a profusão de tecnologia não disfarça uma acentuada debilidade no lado emocional das personagens.
Com a excepção de Kirsten Dunst, o potencial dos actores é bastante desperdiçado. Tobey Maguire tem a sua tarefa dificultada pela irritação que a sua personagem gera durante quase todo o filme, enquanto Bryce Dallas Howard parece não saber bem o que está ali a fazer (que saudades de vê-la nas obras de Shyamalan). Os vilões têm uma espessura muito reduzida e são envolvidos em clichés. O aparecimento de Venom é no mínimo forçado e parece servir apenas para conferir uma duração excessiva à longa-metragem.
Utilizando sem critério momentos de humor pouco eficazes, Raimi não acerta no tom a dar à obra e limita-se a assinar sem grande mérito mais uma adaptação do Homem-Aranha ao cinema. Espero bem que seja a última, a avaliar pelos resultados desta experiência.
A melhor cena: Peter enlouquece o simbionte.
A pior cena: Peter compra roupas novas.
Nota: 5/10.
sexta-feira, maio 11, 2007
Um terço
1. “Mr. Bean em Férias”
2. “Diamante de Sangue”
3. “À Noite no Museu”
4. “Babel”
5. “Apocalypto”
6. “300”
7. “Norbit”
8. “Déjà Vu”
9. “A Teia da Carlota”
10. “Os Robinsons”
Esta lista divulgada pelo ICAM é a última antes da “invasão” dos grandes “blockbusters”. Para já, não há grandes surpresas, entre acção, comédia, animação ou guerra. Terão os títulos abaixo de “300” capacidades de permanência na tabela?
segunda-feira, maio 07, 2007
Forcas
Abordando a mesma história e as mesmas personagens, “Infame” pode proporcionar um jogo de “descubra as diferenças” através da comparação com “Capote”, o filme que deu o Óscar a Philip Seymour Hoffman. Na verdade, as duas longas-metragens complementam-se, fornecendo perspectivas diferentes.
No caso da obra de McGrath, obtém-se uma visão mais profunda e emocional da relação entre Truman Capote e Perry Smith, auxiliada fortemente pelo trabalho de Daniel Craig. Da mesma forma, não deixa de ser interessante ver Sandra Bullock comportar-se como uma actriz “a sério” (como já tinha feito com sucesso em Colisão”). Quanto a Toby Jones, compõe um Capote mais irritante (provavelmente, mais parecido com o original) que o de Hoffman, sem descurar o seu acentuado lado dramático.
Com um elenco de grande qualidade, o defeito maior de “Infame” acaba por ser a realização pouco ambiciosa de McGrath, que aproveita mal o potencial de certas situações. O recurso a supostos depoimentos dos amigos de Capote assume escassa relevância, destoando da estrutura bem conseguida do argumento.
Algo obscurecido pelo filme de Bennett Miller, o outro retrato contemporâneo dos “bastidores” de “A Sangue Frio” revela-se uma aposta igualmente sucedida, embora também com limitações que o afastam do brilhantismo.
A melhor cena: Truman tenta descontrair Perry.
A pior cena: Truman dança o “twist”.
Nota: 7/10.
quinta-feira, maio 03, 2007
Penetração
“A sua (do cinema) magia, o seu poder de sedução, a sua força de penetração são incalculáveis. (…) a imagem penetra, insinua-se, sem quase se dar por isso, na alma do homem. Em quase todos os outros meios de recreação, a nossa inteligência, a nossa própria sensibilidade têm de aplicar-se, de trabalhar mais do que perante o cinema, do que em face daquele pano que, durante duas horas, se encarrega de pensar e de sonhar para nós. Olhar, olhar simplesmente, é muito mais fácil, mais cómodo do que ver para ler ou do que estar atento para ouvir. O espectador de cinema é um ser passivo (…). A própria atmosfera das sessões de cinema, com a sua treva indispensável, ajuda essa passividade, essa espécie de sono com os olhos abertos.
(…) Os americanos compreenderam maravilhosamente esta força de penetração do cinema e foi, através dela, que conseguiram realizar a sua grande revolução no Mundo.”
O director do SNI ainda não tinha em conta a televisão, hoje mais acusada do que o cinema de apelar à passividade. Mesmo assim, as suas ideias sobre o consumo de filmes parecem exageradas. Na verdade, o objectivo de Ferro era aproveitar as potencialidades da 7ª Arte e a crescente popularidade desta para realizar a sua propaganda a favor do Estado Novo. Ao nível das longas-metragens, “A Revolução de Maio” (1937) e “Feitiço do Império” (1940), ambos de António Lopes Ribeiro, foram a máxima expressão dessa estratégia, apresentando histórias nas quais opositores de Salazar se convertem, admitindo as óbvias qualidades do sistema autoritário e do império colonial.
O espectador de cinema está longe de constituir um ser passivo e maleável. No entanto, seria ingénuo não destacar a importância dos filmes na difusão, mais ou menos subtil, de determinados valores e hábitos sociais ou, no caso das produções de Hollywood, de um certo “modo de vida americano”. Não penso, no entanto, que essa influência seja inevitável. Tal como as outras obras artísticas, o cinema deixa ao público margem de manobra para interpretar e decidir entre as diferentes mensagens divulgadas, sobretudo no que respeita a temas políticos.
domingo, abril 29, 2007
Ferro
Para apoiar a produção portuguesa, o Estado Novo criou em 1947 o Fundo Cinematográfico Nacional. Ferro apelou a que recorressem ao financiamento público os cineastas dos géneros que preferia. Quanto às “farsas de traço grosso”, poderiam viver, dado o seu carácter comercial, sem apoio estatal. Afinal, “o êxito não é sempre sinal de qualidade”. Obras que explorassem o que havia de pior na natureza lusa não seriam dignas de cumprir a missão de mostrar Portugal ao estrangeiro, sendo-lhes negada a autorização de exportação. Os apoios do Fundo ajudariam os realizadores decentes “a travar a batalha necessária, indispensável para reabilitar o cinema português e elevar o nível do gosto do público”. Caso ocorressem protestos motivados por serem sempre os mesmos cineastas a receber a protecção do SNI, “tal acusação ser-nos-á indiferente”.
Muitos anos depois e quando vigoram concepções do cinema opostas à de Ferro (que via a 7ª Arte sobretudo como um fabuloso meio de propaganda), não deixam de se colocar questões semelhantes. Terá o Estado a obrigação de “elevar o nível do gosto do público” e será capaz de o fazer? As fitas nacionais servirão para educar os espectadores? A distinção entre cinema comercial e cinema “a sério” será inultrapassável? A comédia será necessariamente um género menor? Dever-se-á apostar em histórias novas ou em adaptações de clássicos? No meio de tudo isto, Estado e público parecem ter gostos bem diferentes.
(Citações retiradas de Ferro, António, “Teatro e Cinema (1936-1949)”, Lisboa, SNI, 1950.)
quarta-feira, abril 25, 2007
Falhanço
A grande sensação do cinema independente do ano passado é um filme com potencial para agradar a todos, reunindo os ingredientes para o sucesso ao mesmo tempo que relativiza a satisfação que ele dá e realçando o valor da família ao mostrar uma série de tensões e pontos de conflito no interior desta.
A família Hoover é um grupo de actores impressionantes que combinam uns com os outros na perfeição, valendo tanto pelo conjunto como pelas interpretações individuais (não deixa de ser justo o destaque dado pela Academia a Alan Arkin e Abigail Breslin). As personagens, com as suas tão humanas bizarrias, conquistam rapidamente o espectador e envolvem-no nas múltiplas peripécias trágico-cómicas dos ocupantes da velha carrinha.
O argumento de Michael Arndt é um pequeno prodígio, rompendo com os tiques e a previsibilidade que têm marcado as comédias americanas nos últimos anos. Os realizadores de pouco mais precisam que seguir o guião, fazendo-o sem perder a capacidade para criar planos bem conseguidos.
A caricatura de certos aspectos da vida nos EUA, nomeadamente a obsessão com o sucesso individual, e a crença sem nada de ingénuo nas virtudes da família como almofada para os nossos fracassos dão a “Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” honestidade e criatividade que cheguem para marcar um lugar especial para o filme na época da Administração Bush.
A melhor cena: Olive conforta Darryl.
A pior cena: Richard discute com Sam.
Nota: 8/10.
domingo, abril 22, 2007
Indies
“Sobe, Adensa, Esgarça, Desce”, de Ana Eliseu e Mathilde Neves
As duas cineastas retratam o quotidiano de um casal com diferentes ocupações profissionais e o afastamento em que cai progressivamente. Trata-se de uma obra bastante rica a nível visual, com imagens simples captadas habilmente (veja-se a cena da subida do balão meteorológico). Em troca disso, o filme perde em ritmo e os diálogos e situações adquirem uma certa inconsequência, sem um fio narrativo definido de forma clara nem uma aproximação entre as personagens e o espectador. Faz falta contar uma história no meio das nuvens.
Nota: 5/10.
“China, China”, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata
O realizador de “Odete”, aqui com a colaboração de Guerra da Mata, move-se igualmente bem num formato mais reduzido (de facto, só é pena não haver tempo para explorar mais aprofundadamente os hábitos e sentimentos da protagonista, interpretada pela estreante Chen Jie). Destacando a multiculturalidade assumida por Lisboa, onde se cruzam imigrantes de várias proveniências, “China, China” apresenta, para além de planos com um significado preciso, uma banda sonora interessante e uma história concebida de forma brilhante e desconcertante. Nesta curta-metragem, o realismo e o insólito combinam-se eficazmente, merecendo um 4/5, de acordo com a escala da apreciação do público.
Nota: 7/10.
segunda-feira, abril 16, 2007
300 BOTS
Já jogaram ao Unreal Tournament? Então penso que estão familiarizados com o tipo de actores do 300, bots digitais. E nada mais...
Que filme plástico meus amigos, que filme plástico...
Já li a graphic novel do 300 e gostei. Não é genial mas com a arte do Miller acaba por ser uma história bem boa. Gosto muito da cor, engenhosamente colocada pela esposa do senhor.
E o filme? Sinceramente é mau demais para ser verdade. Existem determinadas frases que na linguagem Millerina, "escritor de BD", que funcionam mas que nunca poderia passar para uma representação com actores. Tornam-se embaraçosas e cheias de nada.
Outro problema é que são meios diferentes e existe a palavra adaptação. Recordem-se dos SpiderMan e do SuperMan para verem isso feito na perfeição.
O realizador teria duas opções, ou fazer um filme de imagem real, com um director de fotografia de excelência, ou fazer um filme digital, mais rápido e mais baratinho.
Infelizmente seguiu a segunda opção e até não o fez mal criando um filme
oco e que quando comparado com os clássicos do genéro é uma piada em forma de filme (vejam o Ben-Hur, o Spartacus ou mesmo o Gladiador e riam-se). Digo que não o fez mal porque é um objecto apreciado nestes dias em que a imagem tem supremacia sobre o conteúdo.
As personagens são unidimensionais mas os actores até são competentes e até fazem um bom trabalho (sobretudo no ginásio). O narrador tem realmente jeito para a coisa e a sua voz é mesmo a de um bom contador de histórias.
No entanto, 300 é um muito nulo. É digital, o sangue aparece mas não suja ninguém, os corpos desaparecem do chão, os espartanos são uns gajos muita beras e o Frank Miller está a ficar podre de rico...
No entanto tem muita parra e nenhuma uva...
300
Classificação 5 (0-20)
Nota:
Pedro não me esqueci de ti. No entanto como vou tar de férias durante 3 dias esta semana
vou aproveitar para tratar disto nesse tempo.
Manda-me um email com as alterações que gostarias!!! Não te esqueças!!
sexta-feira, abril 13, 2007
Um quarto
1. “Diamante de Sangue”
2. “À Noite no Museu”
3. “Babel”
4. “Apocalypto”
5. “Mr. Bean em Férias”
6. “Norbit”
7. “Déjà Vu”
8. “A Teia da Carlota”
9. “Scoop”
10. “Ghost Rider”
Além de lamentar a ausência dos dois últimos filmes de Clint Eastwood (“Cartas de Iwo Jima” ocupa a décima nona posição, sete lugares à frente de “As Bandeiras dos Nossos Pais”), é necessário destacar a rentabilidade das comédias no mercado português. A estreia avassaladora de “Mr. Bean em Férias” é um sinal disso mesmo, embora nem só a gargalhada fácil obtenha sucesso: Woody Allen obtém um lugar relativamente modesto mas honroso.
Pub
Como algum do cinema feito por cá, os meios são escassos, mas a criatividade e competência não são amadoras.
segunda-feira, abril 09, 2007
Quente
Em formato DVD, aquele que a Academia considerou o melhor documentário de 2006 pode agora chegar a todo o público, como pretendem os seus autores. De facto, mais cedo ou mais tarde vamos todos ver este filme, quanto mais não seja por alguns dos cenários nele focados ocorrerem à nossa volta.
A nível puramente cinematográfico, pouco há a dizer sobre “Uma Verdade Inconveniente”, composto sobretudo por extractos das conferências efectuadas por Al Gore em inúmeros auditórios. Somam-se a isto algumas imagens de arquivo e o acompanhamento pela câmara de momentos do dia-a-dia do protagonista. Essas cenas permitem compreender melhor a personagem do antigo vice-presidente americano, embora assumam por vezes um carácter demasiado apologético.
A longa-metragem de Guggenheim é, assim, um veículo para a causa moral de Gore, que prova o aquecimento do planeta e enumera os mais variados fenómenos trágicos causados por este. O político aponta poucos elementos que já não conheçamos, mas tem o mérito de enquadrar num conjunto as notícias dos últimos anos sobre um clima inesperadamente hostil.
Para além de arrasar as dúvidas dos cépticos, o filme foge ao desespero, acreditando Gore que ainda há tempo para travar as alterações climáticas. Nos dias que correm a política, à escala global, consiste precisamente em recusar ver como fatalidades as dores do planeta e recorrer as tecnologias de comunicação para mobilizar a opinião pública a uma dimensão inédita. “Uma Verdade Inconveniente” cumpre plenamente esse objectivo e constitui, pela clareza e objectividade da exposição de Gore, um grande filme político.
A melhor cena: Gore desmente a “polémica científica” sobre o aquecimento global.
A pior cena: Gore relembra o drama do filho.
Nota: 8/10.
quarta-feira, abril 04, 2007
Outras eras
O volume (com o subtítulo “Cenas da Vida Portuguesa 1910-1974”) combina um texto correspondente à narração com numerosas imagens retiradas da longa-metragem ou retratando as temáticas nela abordadas. São transcritos os excertos de discursos proferidos por figuras do Estado Novo (como Salazar, Cerejeira ou Caetano) encontrados em imagens de arquivo, tal como os depoimentos dos indivíduos entrevistados em 1974 pela equipa de produção (destaque-se a comicidade das declarações de Silva Pais, ex-director da PIDE-DGS).
O livro e o filme (tive acesso apenas ao primeiro) constituem sínteses da evolução política de Portugal da implantação da República ao 25 de Abril, mostrando ainda a situação de tensão social desencadeada pela irrupção das reivindicações populares após a queda da ditadura. Trata-se, obviamente, de uma obra marcada pelo contexto da sua realização, nomeadamente pelo engajamento político revelado na perspectiva dos anos do “fascismo” e da luta “de classe contra classe, sem tréguas possíveis”, entre o proletariado e a burguesia portugueses. Rui Simões viria aliás a apresentar num filme posterior, “Bom Povo Português”, a sua visão do PREC.
Estreado em 21 de Fevereiro de 1976, “Deus, Pátria, Autoridade” terá sido visto, segundo as informações contidas no livro, por cerca de 500 mil espectadores (algo de espantoso para um filme português, mesmo segundo os critérios de hoje), devido à sua exibição não só no circuito comercial mas também em sessões promovidas por cineclubes e por todo o tipo de associações, na origem de debates. É precisamente este carácter de intervenção que fez parte dos cineastas portugueses procurar aceder aos públicos menos familiarizados com o cinema (destaquem-se as experiências das “campanhas de dinamização cultural”) que constitui um dos aspectos mais interessantes do período revolucionário.
segunda-feira, abril 02, 2007
Cinepolítica
Neste filme, estreado no ano passado (e chegado tardiamente a Portugal), o realizador italiano cumpre o prometido, atacando Silvio Berlusconi e tudo o que representa. No entanto, não se limita a apresentar um filme propagandístico (ao contrário do que, num contexto diferente, Michael Moore fez no “tempo de antena” que é “Fahrenheit 9/11”), misturando na obra ingredientes de puro cinema com verdadeiras pessoas lá dentro.
Assim, a longa-metragem é sobretudo a história de um produtor de cinema rasca e de uma realizadora jovem e voluntarista que, de forma inesperada, se unem para tentar tornar realidade um “filme político” que afaste Berlusconi do poder. As duas personagens encontram-se habilmente concebidas e apoiadas em sólidas interpretações de Silvio Orlando e Jasmine Trinca. É dedicada larga atenção (por vezes talvez supérflua) aos problemas pessoais e familiares do produtor, o verdadeiro protagonista que estabelece uma relação de empatia com o público, enriquecida com sentido de humor.
No que toca à denúncia do Caimão, Moretti é particularmente acutilante, brilhando sobretudo nas cenas que “ilustram” o argumento do filme-dentro-do-filme (para além das imagens tristemente célebres do verdadeiro Berlusconi). Quando protagoniza, no final, o ataque implacável ao seu alvo, o realizador é eficaz no retrato/imitação, embora acabe por combinar deficientemente essa dimensão do filme com a trajectória das personagens que vinha seguindo.
Moretti confirma-se como um atento (e parcial, mas isso é assumido desde logo) observador da realidade que o cerca e, ao mesmo tempo, como um cineasta inteligente e capaz de desenhar figuras profundamente humanas que tornam os seus filmes acessíveis a todos os que não falam italiano.
A melhor cena: Bruno corre pelas ruas.
A pior cena: A montagem da tenda.
Nota: 7/10.
domingo, março 25, 2007
Tetas
“Date Movie” foi um dos filmes mais marcantes de 2006, embora poucos o tivessem salientado. O espantoso engenho com que a comédia “de dois dos argumentistas de “Scary Movie”” desperdiçava cada oportunidade de ter piada era suficiente para ficar na memória de toda uma geração. No entanto, Seltzer e Friedberg depressa se lançaram numa “sequela”, baseada na paródia de tudo o que deu que falar no cinema e na televisão americanos em 2006.
A abundância de filmes reproduzidos, frequentemente de forma desconexa, torna a longa-metragem, tal como o cartaz indica, uma amálgama sem sentido. Embora as piadas (?) se sucedam em catadupa, é difícil sentir mais que tédio. Sem o “efeito surpresa” do predecessor, “Epic Movie” limita-se a aborrecer.
Nem vale a pena mencionar a (falta de) qualidade dos actores, da montagem ou da realização. A abundância de humor sexual e a exibição de muitos seios e nádegas são embaraçosas, dando a ideia que apenas os argumentistas/realizadores se divertiram com as cenas concebidas, esquecendo-se da inteligência do público.
Não sei qual será o futuro profissional de Seltzer e Friedberg, mas espero bem que ninguém lhes dê dinheiro para a criação de mais “movies”.
A melhor cena: O treino.
A pior cena: David e Mystique na cama.
Nota: 3/10.
sexta-feira, março 23, 2007
Lusitanos
Para já, ficam as dez longas-metragens (a tabela não inclui curtas) com mais espectadores num total de 37 registadas:
1. “O Crime do Padre Amaro” (Utopia Azul)
2. “Filme da Treta” (Stopline)
3. “Sonho de uma Noite de São João” (Appia Filmes)
4. “Alice” (Clap Filmes)
5. “Coisa Ruim” (Clap Filmes)
6. “Um Tiro no Escuro” (MGN Filmes)
7. “Lisboetas” (Faux)
8. “Odete” (Rosa Filmes)
9. “Viúva Rica Solteira não Fica” (Clap Filmes)
10. “20,13” (MGN Filmes)
Parabéns à Clap Filmes por ter conseguido incluir três das suas produções entre os únicos filmes portugueses com mais de 10 mil espectadores. Dentro da lista, existem, obviamente, fortes disparidades. Apenas os dois primeiros títulos se intrometeram no campeonato dos “grandes” americanos, ficando os restantes abaixo dos 60 mil bilhetes vendidos. A maior surpresa é o sucesso do documentário de Sérgio Tréfaut, com 15.246 espectadores em apenas 443 sessões. Alguns candidatos a “blockbusters” desiludiram, como “Um Tiro no Escuro” e “20,13”.
Quanto às longas-metragens actualmente em cartaz, “Suicídio Encomendado” (FBF Filmes) está na trigésima posição (1060 espectadores) e “Brava Dança” (Filmes do Tejo) dois lugares mais abaixo, tendo vendido 973 bilhetes.














