domingo, junho 08, 2008

Jun(h)o

Muitos “olés” para Ellen Page, Diablo Cody e Jason Reitman. Quanto á comparação com “Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos”, acaba por ser bastante subjectiva. Pessoalmente, prefiro a transbordante doçura de “Juno”, comovente sem ser lamechas. A personagem de Michael Cera é um dos pontos fulcrais do filme e contribui para a nossa identificação, mas não acho que tenha sido descuidada pelo argumento, surgindo apenas quando é necessária.

terça-feira, junho 03, 2008

Grátis

Programa de uma das sessões de “cinema gratuito” oferecidas pelo jornal portuense “Sporting” aos seus leitores em 1931, com filmes fornecidos pelo distribuidor Castello Lopes:

“Terça-feira, 31, às 21 ¼
No Palácio de Cristal

1 – Documentário Português
2 a 3 – Bibi entre selvagens – Cómica.

Intervalo

4 a 9 – “Malacara cavalo selvagem”
Admirável trabalho de Tom Mix.

Intervalo

10 a 15 – “Morte Cansada”
Super-produção de Fritz Lang com os conhecidos artistas: Lile Dagobert e Benny Gestz.

Concerto por um reprodutor “Radio-Gramofone”, aparelho double, da excelente marca alemã “Owin-Radio”.”

domingo, junho 01, 2008

Esperar

“Amor e Outros Desastres”, de Alek Keshishian

Embora com uma história “londrina”, este é um filme internacional, com Luc Besson e David Fincher a figurarem como produtores executivos e duas estrelas de Hollywood a realizarem “cameos”. A americana Brittany Murphy encabeça um elenco britânico (incluindo vedetas da “britcom” como Dawn French e Catherine Tate), numa comédia romântica que procura reflectir sobre a correspondência entre o amor no cinema e na vida real.

Murphy tem uma boa presença e actua sem grande mácula, mas depressa se percebe que a personagem de Matthew Rhys é mais interessante que a protagonista (os restantes actores, reunidos no final, esboçam figuras demasiado básicas). A história desta desenvolve-se com base num equívoco óbvio que acaba por divertir pelo seu arrastamento.

Tentando distanciar-se dos clichés e truques narrativos do género, a longa-metragem acaba por nunca ficar longe deles, tornando-se o esforço satírico algo frívolo. A graça de algumas situações não é ajudada por uma realização que parece mais própria da comédia televisiva.

Fugindo ao disparate, “Amor e Outros Desastres” não vem acrescentar muito a outras histórias britânicas (a não ser talvez uma maior exploração da perspectiva homossexual), deixando-nos sem conclusões (?) sobre o funcionamento das relações.
A melhor cena: Peter apresenta o argumento ao produtor.
A pior cena: O casamento não se realiza.

Nota: 5/10.

quinta-feira, maio 29, 2008

Recorde?

"Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal", de Steven Spielberg, ultrapassou os 245 mil espectadores na primeira semana de exibição em Portugal.
A partir daqui, é sempre a descer.

sexta-feira, maio 23, 2008

Foi

“Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg

É difícil encontrar um paralelo em termos de antecipação e expectativa relativamente a um filme nos últimos anos, a não ser as últimas longas-metragens realizadas por George Lucas. Por isso mesmo, era difícil corresponder à ânsia dos fãs e alcançar o nível de qualidade e magnetismo das aventuras dos anos 80.

O grande trunfo do novo capítulo é precisamente a personagem principal, interpretada com a segurança do costume por Harrison Ford, tanto mais que nenhuma das novidades convence plenamente. Cate Blanchett é divertida, mas não passa disso, a personagem de Shia LaBoeuf não obtém a interacção necessária com o protagonista, a reunião familiar, embora “linda”, roça o meloso, e a parte onde predominam os efeitos especiais não tem o impacto pretendido.

Claro que nos são apresentadas paisagens exóticas, doses maciças de aventura e perseguições com um ritmo imparável que agarram o espectador. No entanto, falta sempre algo de especial que nunca aparece (como diálogos verdadeiramente engraçados).

É um pouco demais dizer que não valeu a pena fazer um quarto filme, quanto mais não seja para ficarmos a conhecer o que aconteceu ao arqueólogo nos anos seguintes à cruzada, mas claramente Lucas e Spielberg não conseguiram fazer reviver o mito.
A melhor cena: A explosão nuclear.
A pior cena: Indy reencontra Marion.

Nota: 6/10.

terça-feira, maio 20, 2008

Riscos

Para além de relembrar uma questão acerca da série Indiana Jones (mais Lucas ou mais Spielberg?), este texto de João Pedro Jorge vem contrariar as expectativas mais elevadas. No entanto, não é caso para espalhar o pânico, tendo em conta os sinais vindos de Cannes e as opiniões frequentemente bizarras dos críticos do Claquete.

quinta-feira, maio 15, 2008

Reportagem 3

“O Sport de Lisboa”, 15-09-1923:

“O film do encontro Portugal-Espanha efectuado em Lisboa no ano findo está sendo passado no Rio de Janeiro com grande sucesso.
Os diversos quadros em que está dividido o film são réclamados (sic) com títulos como estes:
Carlos Guimarães, o estupendo “keeper” português – Ricardo Zamora, o fenomenal arqueiro espanhol – Os formidáveis ataques portugueses e as defesas dos “backs” espanhóis – Aspectos das arquibancadas, repletas de um povo delirante (…) – O “goal” dos espanhóis – Guimarães parece feito de molas!”

domingo, maio 11, 2008

Doença

“Sicko”, de Michael Moore

Após o frenesim mediático em redor do seu filme de 2004, gerou-se uma acentuada curiosidade acerca do novo projecto de Michael Moore, que procura agora atingir as empresas seguradoras e farmacêuticas e defender a criação de um Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito nos EUA.

Revelando situações obscenas criadas pela falta de apoio social aos doentes no país, o documentário introduz um humor corrosivo resultante da exposição do que é incrivelmente real e propõe soluções e mentalidades alternativas à condenação fácil da socialização da medicina.

Surgem novamente marcas polémicas do estilo de Moore, como a exploração do sofrimento dos entrevistados (embora o tema seja sensível por natureza) e a omissão de aspectos que possam contrariar a tese do realizador, como os problemas de sustentabilidade do “estado social” europeu ou a ditadura cubana. No entanto, verifica-se um certo esforço de contenção (Moore só aparece à frente da câmara após três quartos de hora de filme) e o cineasta confirma ser um mestre da provocação.

Sem a mordacidade de “Bowling for Columbine” mas mais credível que “Fahrenheit 9/11”, “Sicko” é um filme político que alcança plenamente o seu objectivo.
A melhor cena: Reagan alerta para o avanço do socialismo.
A pior cena: A mudança do casal.

Nota: 7/10.

segunda-feira, maio 05, 2008

Reportagem 2

Um outro exemplo da presença do futebol nas actualidades cinematográficas ocorreu no final de Dezembro de 1921, quando o cinema Condes exibiu as imagens captadas por Albert Durot nos jogos disputados em Lisboa no Natal desse ano pela equipa checoslovaca do Union de Praga, que derrotara o Casa Pia e o Sporting.

domingo, maio 04, 2008

Titânio

“Homem de Ferro”, de Jon Favreau

A série de adaptações de banda desenhada deste ano inicia-se com uma obra despretensiosa sobre um herói “pacifista” que baseia as suas capacidades nos avanços tecnológicos.

Não sabia nada sobre o Homem de Ferro antes de ver o filme, o que vem realçar a consistência da apresentação da origem da personagem, que ocupa o tempo necessário antes de passar às aventuras propriamente ditas. Favreau não inova muito e cai no risco do facilitismo, sobretudo na luta do clímax. No entanto, evita a queda no disparate, tal como escapa a um excessivo dramatismo psicológico.

Robert Downey Jr. é o grande trunfo da fita, assumindo na perfeição a pele de Tony Stark. Os restantes actores, nomeadamente Jeff Bridges e Gwyneth Paltrow, entram também muito bem nos seus papéis, favorecendo o funcionamento do projecto, servido, é claro, por efeitos visuais de elevado calibre.

A primeira produção da Marvel não vem acrescentar muito ao género dos filmes de super-heróis, mas cumpre plenamente os mínimos exigíveis.
A melhor cena: Obadilah surpreende Pepper.
A pior cena: A reportagem no Afeganistão.

Nota: 6/10.

quinta-feira, abril 24, 2008

Êxito

J. Alves da Cunha, “Projecções”, in “Arte Muda”, n.º 2, 15-05-1928:

“"Fátima Milagrosa” passou trinta vezes consecutivas na tela do Rivoli, sempre com enchentes.
Depois passou para o Águia de Ouro, obtendo o mesmo sucesso.
É o que se chama um autêntico “record”, inédito, e o que demonstra bem quanto o público portuense sabe já apreciar o que é nosso e reconhecer o esforço dos que querem que, em Portugal, haja uma indústria desenvolvida.
Isto consola. Satisfaz. Enche-se-nos a alma de satisfação ao ver como o nosso público já vai apreciando as nossas obras. E nele é que está a maior esperança do incremento da indústria nacional.”

segunda-feira, abril 21, 2008

Caos

“Nós Controlamos a Noite”, de James Gray

Recuando vinte anos, este filme expõe uma Nova Iorque mergulhada numa guerra entre a polícia e traficantes de droga da máfia russa, com um gerente de discoteca na fronteira entre os dois lados a ter de fazer uma escolha.

Partindo bem ao expor a divisão de Bobby entre dois mundos diferentes e os dilemas de lealdade ou conveniência pessoal que se lhe colocam, o argumento de Gray evolui cedo demais para uma história de vingança que contribui para banalizar um pouco o projecto, até porque a realização não atinge o brilhantismo, parecendo por vezes pretensiosa no seu dramatismo.

A longa-metragem é dominada pela interpretação particularmente forte de Joaquin Phoenix, bem acompanhado por Robert Duvall e nem tanto por Mark Whalberg e Eva Mendes, a um nível razoável. Tudo parece concentrar-se na personagem central, numa opção algo arriscada e que acaba por não ser totalmente satisfatória.

Embora demonstre competência e até sensibilidade, Gray está longe de ter criado a obra-prima de que os autores do Claquete falam.
A melhor cena: Albert fala com Bobby na igreja.
A pior cena: Bobby discute com Amada.

Nota: 6/10.

segunda-feira, abril 14, 2008

Reportagem

O primeiro registo cinematográfico de um desafio de futebol em Portugal ocorreu em Maio de 1916, quando Sporting e Benfica jogaram no recém-inaugurado campo dos Recreios Desportivos da Amadora. As imagens captadas durante a partida foram exibidas poucos dias depois no Salão Rubi, na Rua do Jardim do Regedor, em Lisboa (“O Sport de Lisboa”, 20-05-1916).

quinta-feira, abril 10, 2008

Tugas

O Instituto do Cinema e do Audiovisual divulgou os resultados comerciais de 76 longas-metragens de origem (pelo menos em co-produção) portuguesa estreadas nos cinemas nos últimos cinquenta meses. Os dez títulos com mais espectadores (ordenados de acordo com a receita bruta) foram:

1. “O Crime do Padre Amaro”
2. “Filme da Treta”
3. “Call Girl”
4. “Corrupção”
5. “Sorte Nula”
6. “Balas & Bolinhos: O Regresso”
7. “O Sonho de uma Noite de São João”
8. “Alice”
9. “Fados”
10. “O Mistério da Estrada de Sintra”

Muito separa os mais de 380 mil bilhetes vendidos pelo primeiro classificado dos 29 mil do décimo. Os primeiros quatro títulos da lista constituem os verdadeiros sucessos, na medida em que competem de igual para igual com a produção importada e valem por si mesmos a nível comercial, possuindo uma distribuição excepcionalmente abrangente. Abaixo da marca dos 200 (e dos 100) mil espectadores, “Sorte Nula” e “Balas & Bolinhos” representam êxitos médios e um pouco inesperados. Os restantes sobressaem apenas no conjunto da produção nacional, sendo de destacar a presença de um documentário e um filme de animação, géneros relativamente raros por cá.

quarta-feira, abril 09, 2008

Fragmento

Anúncio publicado na revista desportiva "Tiro e Sport" entre 1911 e 1913:

"Animatógrafos - Preferidos pelo público: Chiado Terrasse, Salão da Trindade, Salão Foz e Salão Central"

domingo, abril 06, 2008

Políticas

“Peões em Jogo”, de Robert Redford

O último filme de Redford faz parte de um conjunto de obras surgidas no ano passado visando retratar o estado actual da “guerra contra o terrorismo” e todas as suas implicações na América e na forma como esta se encara. Embora assuma uma perspectiva nitidamente “liberal”, o cineasta evita cair na condenação fácil ou em simplificações abusivas.

O aspecto mais valioso da (pouco) longa-metragem acaba por ser o estímulo feito pelo actor/realizador à participação cívica e a um esforço de politização que impeça a letargia de uma população potencialmente manobrável. A personagem de Tom Cruise (que ainda consegue fugir ao rótulo de estrela doida) representa uma “direita” que pode justificar decisões erradas com as melhores intenções.

È pena que, a nível cinematográfico, a obra não ultrapasse o nível do razoável, com um esquema relativamente simples que fraqueja sobretudo nas cenas militares. O trio de protagonistas não resulta de forma especialmente eficaz (nesse aspecto, já se viu melhor em “Jogos de Poder”), tal como a definição das várias personagens.

Apelando à reflexão de cada espectador e tratando as questões políticas de forma séria mas acessível, “Peões em Jogo” peca apenas por não ser particularmente ousado quer na forma quer no conteúdo.
A melhor cena: Janine recusa noticiar a nova estratégia.
A pior cena: Arian e Ernest fazem a sua comunicação.

Nota: 6/10.

segunda-feira, março 31, 2008

Rádio

Não me parece que “A Estranha em Mim” (um título português que não é mau de todo) seja marcante ou chocante ao nível da excelência. Trata-se “apenas” do regresso de Jodie Foster aos grandes papéis como uma improvável justiceira surpreendida com a sua nova pele, realizado habilmente mas com alguns cortes e movimentos de câmara desnecessários por Neil Jordan. Talvez a relação entre as personagens de Foster e Terrence Howard não seja tão conseguida como poderia ser.

sexta-feira, março 21, 2008

Portar mal

“Alpha Dog”, de Nick Cassavetes

Escrito e realizado por um cineasta que chamou a atenção em festivais dos anos 90 mas tem assinado obras comerciais sem grande relevo, este filme baseado em factos reais retrata o universo de jovens criminosos que procuram viver sempre em festa mas cujo futuro é alterado por uma série de eventos inesperada.

O elenco do filme é geralmente sólido, quer pelas breves mas marcantes participações de Bruce Willis e Sharon Stone quer pelos actores mais novos, como Emile Hirsch, Ben Foster ou Anton Yelchin (e, porque não, Justin Timberlake), que têm aqui prestações de bom nível.

O esquema do argumento é eficaz, contando a história sem falhas de ritmo, embora a profusão de personagens dificulte o seu desenvolvimento. A realização atinge uma qualidade razoável, excepto ao utilizar, sem benefícios visíveis, o ecrã fragmentado. As variações de tom, oscilando entre uma certa leveza (a bizarria da situação de rapto e as explosões nervosas de alguns dos intervenientes chegam a provocar o riso) e o desenlace final, abalam um pouco a coesão deste “drama urbano” que não chega a ser bem o que pretende.

A longa-metragem de Cassavetes não se afunda nem vai muito longe, resultando num produto interessante sem ser viciante.
A melhor cena: Jake atende a chamada de Johnny.
A pior cena: Jake provoca estragos na casa de Johnny.

Nota: 6/10.

segunda-feira, março 17, 2008

Reprodução

“Duas Irmãs, Um Rei”, de Justin Chadwick

Esta produção anglo-americana aborda as intrigas na corte de Henrique VIII focando a rivalidade entre duas irmãs usadas para promover os interesses da sua família junto do monarca que viria a romper com a autoridade do Papado.

Proveniente da televisão britânica, Chadwick parece mover-se com dificuldade no cinema, recorrendo a soluções demasiado óbvias. A fotografia escura da longa-metragem acaba por se tornar excessiva, não sendo devidamente acompanhada por uma história que, embora tome liberdades ficcionais aceitáveis, parece demasiado apressada em contar vários aspectos da vida de Ana Bolena e da sua época.

Concretizando o sonho de muitos “vintões” ao reunir Natalie Portman e Scarlett Johansson, como Ana e Maria Bolena, respectivamente (com a doçura de Johansson, poderia ser ao contrário?), sem que as duas actrizes ultrapassem o seu nível habitual. Eric Bana encarna um Henrique VIII demasiado primário, acabando por ser irrelevante, enquanto as restantes personagens, como o duque de Norfolk, limitam-se a esboços.

Sem ser inteiramente bom nem inteiramente mau, o filme de Chadwick relembra (embora de forma algo superficial) um dos períodos mais célebres da história inglesa não acrescentando muito ao já feito sobre o assunto.
A melhor cena: Ana reencontra Maria após o exílio.
A pior cena: A execução de George.

Nota: 5/10.

domingo, março 09, 2008

Bonecos

“Transformers”, de Michael Bay

O maior perdedor das categorias técnicas dos Óscares deste ano surgiu quando Spielberg disponibilizou a um realizador de “blockbusters” sem grande mérito artístico meios para criar um festival de adrenalina supostamente apelativo para os espectadores jovens e para os fãs da série de animação originada pelos bonecos da Hasbro.

Mais que por espectáculo, grande parte da fita é preenchida por humor sem graça que não vai além da burrice das personagens. Quando Bay resolve introduzir um pouco de sentimento, o resultado é muito forçado e supérfluo.

O falhanço no desenvolvimento das personalidades dos robôs (bem mais interessantes que os humanos) acentua o distanciamento em relação à acção e retira uma certa alma aos combates finais, visualmente ricos mas onde os efeitos visuais se esgotam em si mesmos.

Para além dos avanços tecnológicos, o filme serve para celebrizar Shia LaBoeuf e Megan Fox (por motivos diferentes, diga-se). Para lá disso, faz pensar que produzir uma longa-metragem de animação poderia ter sido uma ideia melhor.
A melhor cena: O Cubo é reduzido.
A pior cena: Mikaela faz Simmons despir-se.

Nota: 4/10.